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Vida Cristã
Eu vi o Ressuscitado!
12.02.2016
Quarenta dias depois de Quarta-Feira de Cinzas, celebramos a Páscoa do Senhor, a Ressurreição de Jesus Cristo. Este acontecimento é o centro da nossa fé. E é por causa dele que tudo aquilo em que acreditamos subsiste, ganha sentido e é reforçado. Conseguiremos, como os discípulos, afirmar alto e claramente: «Eu vi o Ressuscitado!»?


Quarenta dias foi o tempo que Jesus esteve no deserto antes de começar a Sua vida pública. É um tempo simbólico para a cultura judaica, um tempo de grande significado religioso, que tem a sua centralidade na passagem do Povo de Israel pelo deserto após o êxodo do Egito durante quarenta anos.
Já neste tempo, Deus foi o grande responsável pelo êxito de tal acontecimento. Deus era o grande libertador. No caso de Jesus no deserto, dá-se também uma libertação. No entanto, Jesus não se libertou de uma força opressiva exterior a si mesmo, mas o combate foi travado no interior de Si. Vencidas as diferentes possibilidades e alternativas para o uso da sua liberdade, vencidas as tentações de uma vida dominada pelos desejos deste mundo e dos homens, Jesus, o Filho de Deus, inicia a Sua vida pública.

Com a celebração do tempo litúrgico da Páscoa, depois de quarenta dias de Quaresma, culminados com a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus, o cristão é agora impulsionado a iniciar também a sua vida pública. Seremos capazes de, como Jesus, anunciar o Reino? Conseguiremos testemunhar, hoje, a Boa Nova?
Hoje, a Ressurreição de Jesus pode não ser de fácil compreensão. Por outro lado, o nosso tempo quotidiano pode não andar de mãos dadas com o tempo litúrgico que nos é dado agora, presentemente a viver. Porém, não passemos intocáveis pelas celebrações litúrgicas. Corremos o risco de perder o essencial.

«O acontecimento da morte e ressurreição de Cristo», diz-nos Bento XVI, «é o coração do Cristianismo, fulcro portante da nossa fé, meio poderoso das nossas certezas, vento impetuoso que afasta qualquer receio e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. Só de Deus pode vir a mudança decisiva do mundo. Só a partir da Ressurreição se compreende a verdadeira natureza da Igreja e do seu testemunho, e não algo separado do mistério pascal, mas é o seu fruto, manifestação e atuação por parte de quantos, recebendo o Espírito Santo, são enviados por Cristo a prosseguir a sua mesma missão (cf. Jo 20,21-23).»

Como o Santo Padre afirma, a ressurreição é o acontecimento central do cristianismo. Paulo de Tarso havia já afirmado à comunidade de Corinto: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé.» (1Cor 15,14) Atendamos às palavras de Jesus à samaritana: «Se tu soubesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: "dá-me de beber", tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!» (Jo 4,10) A água viva que vem de Deus é uma água que «há de tornar-se naquele que a beber em fonte de água que dá a vida eterna» (Jo 4,14).
A mudança que se realiza com o ressuscitado não é simples alteração de vida, mas a verdadeira conversão – a mudança de vida que, fruto da graça de Deus, pode operar em cada cristão e conduzi-lo à vida eterna que começa agora. Mas o que significa esta mudança de vida? O que realmente muda ou pode mudar?

A perceção atual que temos da nossa vida começa no momento em que, ainda crianças, a nossa vontade não se vê a si mesma satisfeita, e desde cedo nos confrontamos com a sede e a fome. Desde cedo sofremos a privação e a insatisfação que esta vida nos proporciona. Por outro lado, à medida que vamos crescendo, também a morte toma uma imagem concreta no nosso horizonte. Claro que podemos viver como se a morte não existisse, porém, se nem sequer tivermos dela uma mera noção, viveremos numa ilusão que poderá ser mais cruel que a própria morte no momento de a enfrentar.

O padre jesuíta francês Bernard Sesboué fala assim da nossa condição humana: «O homem sabe que vai morrer e vive a sua existência como uma contradição trágica entre o seu destino inelutável e o seu desejo de viver de modo absoluto.» Ora, é em Jesus que obtemos a vida eterna. É em Jesus que somos salvos, e Bernard Sesboué expõe de seguida o que isto realmente significa: «Ser salvo é viver na totalidade, viver absolutamente, viver feliz no amor, viver sempre numa reconciliação definitiva consigo mesmo e com os outros, com o universo e com Deus.» E acrescenta: «Todo o homem é habitado pela esperança da sua própria ressurreição, presente no mais profundo de si mesmo de modo incoercível.»

Assim, com Jesus, o mal não tem a última palavra. O nosso sofrimento coloca-nos em comunhão com Jesus. A morte deixa de ser um fim trágico e torna-se uma passagem para a vida eterna, que já começou neste momento atual.
Os discípulos compreenderam bem todo o alcance da ressurreição. As suas vidas sofreram uma transformação radical, de tal modo que é através deles que comprovamos a Ressurreição de Jesus – que ninguém viu como foi, nem é possível uma qualquer prova.

As mulheres viram o túmulo vazio. Os anjos, mensageiros de Deus, deram-lhes a Boa Nova. Assustadas, correram a transmitir a notícia aos discípulos. Eles foram ver e comprovaram num misto de temor e surpresa. Depois, por várias vezes, Jesus apareceu, em carne e osso.
Jesus disse a Tomé, o que duvidou: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto!» (Jo 20,29) Destes momentos em diante, as implicações que Cristo teve nas suas vidas foi de tal forma grande que, por Ele e com Ele, todos testemunharam a Ressurreição.

De facto, os Doze estavam dispostos a dar as suas vidas pela verdade. E foi exatamente por causa da afirmação da ressurreição de Jesus que sofreram de forma inimaginável. Perseguidos, aprisionados, torturados, apedrejados, decapitados, chicoteados, queimados, crucificados. Paulo afirmaria «Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios.» (1Cor 1,22) Os primeiros cristãos sofreram mortes impensáveis aos nossos dias. Mártir, do grego martyria, significa testemunha. E as histórias dos primeiros cristãos, os apóstolos, testemunhas da Ressurreição, são incríveis e chocantes, envoltas num clima de lenda e de relato épico, elas revelam acima de tudo que os primeiros cristãos estavam dispostos a dar as suas vidas pela verdade da ressurreição de Jesus.
A centralidade das suas vidas não está na procura do sofrimento e da morte, mas no testemunho de Jesus Cristo, através da vivência da Sua mensagem.

Através da vida dos primeiros cristãos compreendemos melhor ainda as palavras de Bento XVI enunciadas anteriormente: «O acontecimento da morte e ressurreição de Cristo é o coração do Cristianismo, fulcro portante da nossa fé, meio poderoso das nossas certezas, vento impetuoso que afasta qualquer receio e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. Só de Deus pode vir a mudança decisiva do mundo.»
Hoje, quotidiano do nosso tempo pascal, é o tempo da nossa vida pública de anúncio do Reino. Como estão as nossas certezas? Sentimos o "vento impetuoso que afasta o receio e a indecisão" de que o Santo Padre nos fala? Quando conseguiremos dizer: «Eu vi o ressuscitado!», como Maria Madalena, Pedro, João, os discípulos de Emaús, Paulo, Estêvão, e tantos outros?
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