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Eutanásia: bispos franceses falam em «urgência da fraternidade»
23.03.2018
Os 118 bispos franceses reuniram-se em Lourdes, esta semana, e aprovaram um texto sobre a eutanásia e o fim de vida. Intitulado «Fim de vida: sim à urgência da fraternidade», este documento defende uma «reflexão serena» em torno do fim da vida. Numa altura em que também em França se discute a legalização da eutanásia, os bispos franceses exprimem a sua compaixão para os doentes e saúdam os profissionais de saúde que tentam dar-lhes qualidade de vida. No texto aprovado, a Igreja francesa critica a disparidade de acesso aos cuidados paliativos e a formação insuficiente dos cuidadores. «Estes cuidados não estão suficientemente devolvidos e as possibilidades de cuidados do sofrimento sob todas estas formas não são ainda conhecidos. É urgente combater esta ignorância, fonte de medos que nunca são bons conselheiros.»



O documento lembra a parábola do Bom Samaritano para: «apelamos aos nossos concidadãs e aos nossos parlamentares, a um sobressalto de consciência para que se edifique sempre mais em França uma sociedade fraterna em que cuidemos individual e coletivamente uns dos outros».

Os bispos franceses avançam seis razões para se oporem à legalização da eutanásia que «perturbaria a nossa sociedade». No primeiro ponto, o episcopado lembra que em 2016 foi aprovada uma lei sobre fim de vida. «Mudar a lei manifestaria uma falta de respeito não apenas pelo trabalho legislativo já alcançado mas também pela paciente e progressiva implicação dos cuidadores. A sua urgência é que lhes demos mais tempo.» Depois, os bispos questionam: «Forte da fraternidade que proclama, como poderia o Estado, sem se contradizer, promover a ajuda ao suicídio ou a eutanásia ao mesmo tempo que desenvolve os planos de luta contra o suicídio? […] O sinal enviado seria dramático para todos, em particular para as pessoas em grande fragilidade, frequentemente atormentadas por esta questão: “Não sou eu um peso para os meus próximos e para a sociedade?” […] Este gesto fratricida revestir-se-ia na nossa consciência coletiva como uma questão sem resposta: “Que fizeste do teu irmão?”»

Lembrando, os médicos, os bispos franceses falam em violação do código deontológico e afirmam que «matar, mesmo pretendendo invocar a compaixão, não é um ato de cuidado. É urgente salvaguardar a vocação da medicina». O documento questiona também quem protegeria as pessoas mais vulneráveis e pede um «acompanhamento solidário» «mais atento» e não «um abandono prematuro ao silêncio da morte». «É precisa uma fraternidade autêntica que é urgente reforçar: ela é um laço vital da nossa sociedade», defendem.

Contestando o argumento da autonomia da própria pessoa poder escolher o seu destino, os bispos afirmam que «as nossas escolhas pessoais, queiramos ou não, têm uma dimensão coletiva». Assim, «se alguns escolhem desesperadamente o suicídio, a sociedade tem todo o dever de prevenir este gesto traumatizante. Esta escolha não deve entrar na vida social por meio de uma cooperação legal ao gesto suicida. Finalmente, na última razão ética, o documento questiona que instituições fariam a eutanásia e com que financiamento. «Seria o nosso sistema de saúde a impor aos nossos cuidadores e aos nossos concidadãos uma culpabilidade angustiante, cada um podendo interrogar-se: “Não deveria eu pensar um dia em pôr fim à minha vida?” Esta questão será fonte de inevitáveis tensões para os pacientes, os seus próximos e cuidadores. Não vemos nenhuma urgência.»



O debate sobre a legalização da eutanásia está a decorrer em França. Em fevereiro, mais de um quarto dos deputados franceses pediram que tivesse início essa discussão e lembraram que já muitos doentes pedem para morrer e são atendidos nesses pedidos, mas ilegalmente. Emmanuel Macron, o presidente francês, organizou um jantar com defensores da eutanásia e líderes religiosos para preparar a sua reflexão sobre o fim de vida.

O documento pode ser lido aqui.
 
Texto: Cláudia Sebastião
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