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Falar e calar
25.11.2019
Gosto do silêncio. Ou melhor, da ausência de ruído. De ouvir os pássaros, o vento a soprar nas folhas, o mar, a água a correr num rio, as gargalhadas, o respirar profundo de alguém a dormir. Cada vez mais me dou conta de que muitas pessoas, sobretudo jovens, não têm nem desejam este silêncio. Tapam os ouvidos com phones e passam o dia a ouvir música. Ouvem tudo menos os sons do mundo à sua volta. Também gosto de música. Mas de vez em quando e com os ouvidos disponíveis também para o que me rodeia. Há algum tempo, li um estudo que concluía que os jovens já são incapazes de ouvir esses sons da natureza de que falei no início deste texto. Isso é tão difícil de acreditar, mas muito fácil de comprovar. Acredito que tem consequências no modo como nos relacionamos com a natureza. Quem não ouve o canto de um pássaro preocupar-se-á com o que lhe acontece?

Gosto deste silêncio habitado, habitado pelo que me rodeia, pelo que vive dentro de mim, pelos que vivem em mim e por Deus. Este silêncio não pesa. Ajuda-me a organizar, a sentir-me em contacto com os outros e com a natureza, parte deste mundo, uma entre os demais. Imaginarão a minha alegria quando, no outro dia, a minha filha me disse que tinha um superpoder novo. Qual era? Perguntou-me: «Que som é este?» Pensei que estava a referir-se ao avião que passava. Disse-me que não. O superpoder dela era ouvir o som das folhas a serem arrastadas no chão pelo vento.

Para mim, este silêncio de que falo é diferente daquele outro silêncio pesado numa conversa entre amigos ou familiares, quando não há nada para dizer ou já se esgotaram todos os temas em comum. Também não falo do silêncio que oculta, que esconde ou omite coisas importantes que deviam ser ditas. Estes silêncios são pesados, tristes. Corroem e vão minando as relações. Muitas vezes, nas suas consequências, são tão ou mais destrutivos do que as mentiras.

Muitas vezes me pergunto se devo falar ou calar. O silêncio, ou calar, pode ser muito melhor do que dizer apenas algo para evitar um silêncio constrangedor. É uma sabedoria saber quando falar e quando calar. Frequentemente ouço palavras que seria melhor não terem sido ditas, sobretudo em momentos dolorosos ou difíceis.

Quando uma criança chora porque se magoou, e isso nos causa desconforto a nós, pedimos que não chore ou dizemos que já passou, ou que foi sem querer. Uma vez responderam-me: «Mesmo sem ser de propósito continua a doer muito!» Enfiei a carapuça. Sei lá eu se continua a doer ou não. Não se pode chorar quando estamos tristes ou nos magoamos?

Noutra altura, perguntei a uma senhora se tinha penteado novo. Tinha cancro e tentava disfarçar a queda de cabelo com uma peruca. Com a minha pergunta, aparentemente inofensiva, pus em evidência algo que era doloroso para ela. Foi um episódio que recordo e lamento até hoje.

Como nos funerais se diz aos parentes próximos de quem morre (esposa, esposo, pais, avós, filhos): “A vida é mesmo assim e tem de continuar.” Claro que tem de continuar, mas a frase é vazia e não serve para nada. Ou então “não chores”. Como não chorar a morte e as saudades que já se tem dos nossos amores? Não seria melhor “lamento muito”, “precisas de alguma coisa” ou então apenas um abraço sentido? Ou quando alguém perde um bebé durante a gravidez, acrescenta alguma coisa dizer que o casal terá outros filhos? Aquele é único e a dor, imagino, imensa! “Estou aqui para o que precisares” não seria mais adequado? Por que razão temos de preencher os silêncios com palavras vazias de sentido? Não seria melhor enchê-los de empatia, carinho e interesse desinteressado?