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Faleceu o padre Vítor Feytor Pinto
06.10.2021
Faleceu Mons. Vítor Feytor Pinto esta quarta-feira, dia 6 de outubro, em Lisboa. O Pe. Hugo Gonçalves, pároco do Campo Grande, numa mensagem informou a comunidade. «Foi para tantos o amigo generoso, o companheiro de caminhada, o padre profundo e feliz e um homem de pensamento que deixa um legado extraordinário. As saudades são muitas, mas sabemos que ele olha por nós, envolvido na “ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe”.» As exéquias começam esta quarta-feira, 6 de outubro, às 18h00, com vígilia de oração às 21h30, na paróquia do Campo Grande, em Lisboa, onde foi pároco muitos anos. Dia 7 de outubro, a missa de corpo presente será presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, às 11h30 e o funeral segue para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, às 14h00.


Vitor Feytor Pinto é um dos padres mais reconhecidos no país religioso e não só. Tem o título de Monsenhor, mas prefere que o tratem apenas por “padre”: «É assim que gosto que me chamem», dizia sempre.

Vítor Feytor Pinto nasceu em 6 de março de 1932 e aos cinco anos já dizia que queria ser padre. Entrou aos dez anos no Seminário do Fundão e foi ordenado sacerdote em 10 de julho de 1955, na diocese da Guarda. Um dia que amanheceu solarengo. A ordenação ocorreu às sete da manhã, como era habitual naquele tempo e até hoje recorda a pomba que picava o vidro da sua janela. Sempre viu nisso um sinal do Espírito Santo. Mais tarde, haveria de ir para Roma pelo Movimento por um Mundo Melhor. Lá estava na altura do Concílio Vaticano II, reunião magna que haveria de marcar a sua vida e a sua forma de ser padre. Encontra aí um ponto em comum com o atual Papa Francisco, de quem se sente «profundamente irmão». «Estivemos os dois nas duas alas conciliares no tempo em que estávamos em Roma ao mesmo tempo. Ele na Gregoriana eu no Paulo VI. É tão interessante comungarmos das mesmas ideias, sermos fieis ao Concílio. O concílio é aquilo que é fundamental na nossa vida», afirmava. Desde a sua ordenação teve sete papas e conviveu com quatro cardeais-patriarcas de Lisboa.

Ainda em Roma trabalhou «12 doze anos como assistente dos médicos católicos a nível mundial e depois seis anos como consultor do Conselho Pontifício para os problemas da Saúde». Em Portugal, manteve-se ligado a esse campo, tendo sido coordenador nacional da Pastoral da Saúde, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, capelão. Concluiu mestrado em Bioética com um trabalho sobre Sexualidade humana, um trabalho que seria publicado pela PAULUS Editora. Outra das áreas em que mais se empenhou foi na da família, tendo sido assistente nacional das Equipas de Nossa Senhora. Pelo seu gabinete na paróquia do Campo Grande passaram várias gerações de famílias que foi acompanhando ao longo do tempo.

Em 1992, foi nomeado pelo primeiro-ministro de então, Aníbal Cavaco Silva, alto-comissário do Projeto Vida, de luta contra a droga. Em tudo, sempre acredita ser a sua missão de vida: «Anunciar Jesus Cristo. Em toda a parte eu tenho de anunciar Jesus Cristo, o único redentor, o Salvador de todos, de crentes e não-crentes.»

Só depois dos 65 teve a sua primeira paróquia, dos Santos Reis Magos, no Campo Grande, em Lisboa. Concretizou então «o sonho de toda a minha vida», haveria de dizer numa entrevista, em 1996, à revista Notícias Magazine.

Desde 2015, padre Feytor Pinto passa a colaborar com a revista FAMÍLIA CRISTÃ, sendo o responsável pelas páginas do Diálogo com o Padre. O sacerdote revela que escreve «para toda a gente que me possa ler». Essa é uma das suas preocupações, porque «a FAMÍLIA CRISTÃ é lida por muita gente não cristã e, portanto, é muito interessante responder de uma maneira muito universal». Ao longo dos anos, as perguntas têm sido muito diferentes e vão desde temas teológicos, pastorais até a questões de atualidade. A todas, Mons. Vítor Feytor Pinto responde com «uma grande alegria».

A alegria é mesmo uma das notas de personalidade de Feytor Pinto. Nos últimos anos tem tido alguns problemas de saúde, ultrapassados com a «graça de Deus». De todos fala com alegria. Depois de uma septicémia, de um cateterismo, em novembro de 2020, foi a vez de ser infetado com covid-19. Em entrevista à FAMÍLIA CRISTÃ em março de 2020, falou dos quase dois meses de internamento hospitalar com palavras positivas e de alegria, entre risos.

A entrevista foi realizada por telefone por causa da pandemia e do confinamento a que todos estavam obrigados em Portugal. «Eu fui um privilegiado. Trataram-me muito bem. Quando entrei no Hospital de Santa Maria, estavam uma data de enfermeiros a acolher-me à porta. Vieram acolher-me. Foi muito bonito. Depois de dois dias tiveram de me levar para os Cuidados Intensivos. Aí fui maravilhosamente tratado. Dois meses maravilhosamente tratado clinicamente e tecnicamente e humanamente. Foram dois meses que eu passei realmente muito interessantes em Santa Maria.» Noutra altura da conversa, diz que foi «tratado de uma forma espantosa». Reconhecendo que a experiência de ter sido infetado com covid-19 «foi terrível» porque «pegou-me de estaca», até isso diz no meio de gargalhadas.

Diz nunca ter perdido a confiança em Deus, o mesmo a quem se entregou definitivamente em 1955, na ordenação. «Pus-me nas mãos de Deus: “Senhor, quando quiseres, estou nas tuas mãos!” Se Deus me quiser vir buscar, eu estou nas suas mãos, porque eu sou por Ele, sou para Ele. A minha vida não tem sentido, se não centrada em Jesus, em Jesus Cristo.»

Nesse tempo, como em toda a sua vida, a relação de intimidade com Jesus foi o seu alimento. «A comunhão foi o grande alimento. Foi ótima!» Perto dos 90 anos, o padre Vítor continuava a trabalhar e fazia disso motivo de vida e ponto assente. «Eu não posso deixar de ter entrevistas, escritos. Tudo o que me pedem eu faço. A minha cabeça tem de estar a pensar, tem de estar válida, ativa para eu não morrer. A inteligência tem de ser animada.» Ao programa Livros com Fé, da Angelus TV, confessava em 2017 que, no coração, decide «não dizer não a ninguém, tentar encontrar sempre a solução para o problema que alguém me coloca, para a necessidade que me põe, para a alegria que procura encontrar no nosso encontro». Uma vida ao serviço, com liberdade, alegria e sabedoria do Espírito.

Ouça a entrevista que ele deu à FAMÍLIA CRISTÃ aqui:


Texto: Cláudia Sebastião


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