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Família e o amor fraternal
19.04.2022
Há que admitir que a família humana é fruto do vínculo natural estabelecido no matrimónio entre um homem e uma mulher. Mas, a esta verdade temos de acrescentar, que a origem e o fim da família são expressos na filiação. Todos somos filhos ou filhas de um pai e de uma mãe, sinal visível do amor de Deus por cada um de nós.

No entanto, a família humana está em segundo plano em relação à filiação pessoal e deve por isso servi-la. Levando-nos a concluir que a família natural existe para servir o transcendental imanente em todos nós. Ou seja, e recorrendo às palavras do filósofo Leonardo Polo [[1]], «a melhor maneira de nascer de Deus é na família».

Na verdade, o que esta evidência nos diz é que o essencial na ordem do ser humano é a filiação, que se refere a Deus e o fundamental na ordem do estar é a fraternidade. Em suma, o sentido da nossa filiação divina define e dirige as nossas atitudes. Como é óbvio, ser e estar não têm o mesmo significado. A explicação é simples: existe uma forma de ser com Deus e uma forma de estar com as pessoas na família, na sociedade e no mundo.

Olhemos agora para a segunda. Com efeito, o ser humano humaniza-se e evolui enquanto pessoa não por si mesmo, isoladamente sem os outros, mas sim, na presença de e com o outro. De facto, sem amados, sem familiares, sem amigos e, sem modelos, dá-se uma desumanização e uma despersonalização da pessoa. E, o melhor remédio para cada uma é a família.

Na perspetiva das relações interpessoais e dos vários amores da família, o amor conjugal é um amor que pode ter todas as características de uma boa amizade fraterna. A procura do bem do outro, a reciprocidade, a intimidade, a ternura, a estabilidade e uma analogia entre amigos que se constrói num caminho de uma vida partilhada.

Já o amor fraternal refere-se ao amor que existe entre irmãos que se estende a outros membros da família, incluindo os amigos muito queridos. Em particular, no que respeita aos irmãos, para além dos laços de parentesco pode-se considerar que o afeto fraterno está relacionado com a gratidão, o reconhecimento e a convivência familiar. Por isso, os irmãos enfrentam em conjunto não só as alegrias, mas, igualmente as dificuldades que teimam em aparecer na família, cuja influência se reflete nos traços comuns da personalidade de cada um, originando uma feição de solidariedade. Este amor caracteriza-se por ser puro, sem inveja e rivalidade e pode ser um amor duradouro por toda a vida.

Chegados aqui, é necessário realçar que a fraternidade é uma das demostrações mais cativantes do amor humano não só dentro como fora da família. Cada pessoa é um outro eu e isto origina um movimento de abertura para com os outros, com o mesmo amor com que Jesus Cristo nos amou. Este amor envolve um conjunto de sentimentos e ações que são dados de forma altruísta, partilhados com todos os que nos rodeiam e que nos empenham na construção de uma vida social, económica e política de acordo com o plano de Deus. Ou, pelo menos assim devia ser, porque por vezes, devido a diferenças de opinião ou conflitos diversos, esta fraternidade é ameaçada pela alienação e indiferença. Contudo, tudo pode mudar através de estratégias que promovam uma cultura de um diálogo aberto e frontal motivador de paz e justiça.

[[1]] Leonardo Polo (Madrid 1926 – Pamplona 2013).