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Fátima, a peregrinação do Amor
11.05.2020 12:00:00
2020 tem sido um ano estranho. Vai ser a primeira vez que vamos ter um 13 de maio sem peregrinos, e foi das poucas vezes, neste século e em anteriores, que a Igreja esteve tão despida de gente na celebração do seu momento mais importante, a Páscoa. A Igreja, em Portugal e no mundo, sacrificou-se em favor da vida dos seus fiéis e deu um exemplo a toda a sociedade de altruísmo e espírito de sacrifício.

Foto de Arquivo
Quem não é católico não compreende o sacrifício que a Igreja fez, e que “obrigou” os seus fiéis a fazer. Mas quem é com certeza compreenderá o valor do sacrifício em prol do próximo. Afinal, um tal de Jesus de Nazaré, porque amava os homens, amou-os até ao fim, e abdicou da sua vida para mostrar que nada é mais importante que o Amor.

Ora é precisamente um ato de Amor, o que se vai viver amanhã e depois na Cova da Iria. Ou melhor, a sequência deste ato de Amor que foi a Igreja suspender as celebrações comunitárias em tempos de pandemia, para que não fosse um potencial e quase certo foco de contágio, e para servir de exemplo e bussola moral dos seus fiéis e de toda a sociedade, como sempre o tem feito, queiram ou não admitir algumas partes dessa sociedade.

A Igreja “abdicou” dos seus fiéis nas celebrações comunitárias, a única coisa que a mantém viva e dinâmica nestes últimos dois mil anos, para que eles pudessem ter vida. Deus é a base de tudo, e é Ele que mantém a Fé, mas sem pessoas que a vivessem e colocassem em prática, de nada serviria. A Igreja esvaziou os templos de si própria, porque a Igreja não são os templos que foram fechados, são as pessoas que ficaram sem acesso aos sacramentos, confinadas às suas próprias casas. Essas pessoas foram convidadas a continuar a fazer comunidade nas suas próprias casas, nas suas igrejas domésticas. Este poderia ser um risco enorme para a Igreja, porque se as famílias se convencessem que não precisavam da vertente comunitária da sua fé, a Igreja, como a conhecemos hoje, com os seus espaços, os seus projetos alimentados pela boa vontade (e o dinheiro) dos fiéis poderia estar colocada em causa.

A Igreja correu ainda o risco de insolvência financeira. Sim, é verdade. Espantem-se aqueles que acham que a Igreja tem fundos ilimitados, escondidos num cofre dum qualquer Banco do Vaticano, mas a verdade é que a maioria das paróquias portuguesas sobrevive apenas daquilo que os fiéis lhe oferecem, e do que recebem pela utilização das casas mortuárias, única fonte de algum rendimento que também ficou seca neste tempo de pandemia. E assim o fazem também os seus padres, muitos deles presos a um rendimento que advém da boa vontade da sua comunidade, ao contrário do que alguns argumentam.

A verdade é que, em muitas comunidades, a Igreja aceitou colocar-se numa situação financeira precária, para salvar a vida dos seus fiéis. Haverá paróquias que passarão bem sem estes dois meses de ofertórios, mas muitas irão precisar de ajuda, diocesana ou das próprias comunidades, até para fazer face a alguns pagamentos, com todos os riscos que isso comportará. Houve quem sugerisse que a coleta fosse feita por meios digitais, mas arrisco dizer que os contributos terão sido mínimos.

Isto já sem falar que os pedidos de ajuda, alimentar e social, aumentaram neste tempo de pandemia, layoff e desemprego. E a quem é que as pessoas recorrem? Às suas paróquias, que, mesmo fechadas para a missa, continuam abertas para acolher todos os pedidos de ajuda que vão surgindo, usando fundos próprios, os poucos que teria para emergências.

Mas voltemos a Fátima. Amanhã, o cardeal Marto presidirá a uma peregrinação aniversária num santuário vazio de peregrinos. A decisão foi tomada com tempo, de forma sensata, mas muito sofrida, como comprovou a emoção com que o Cardeal António Marto a comunicou. Sofreu a contestação de alguns, que exigiam que a “exceção” do 1º de maio fosse “compensada” com uma exceção para o 13 de maio. Houvesse quem procurasse criar condições políticas para essa exceção, talvez procurando compensar outros erros, mas aí também a Igreja esteve muito bem, e mostrou que a decisão de celebrar o 13 de maio sem peregrinos não estava presa a uma decisão política, mas a uma decisão que tinha por única base este ato de Amor à vida. Com essa ideia na cabeça, não havia exceção que fizesse qualquer sentido, e mais uma vez a Igreja deu o exemplo à sociedade em toda esta situação.

Aliás, até na forma como consegue resistir a algumas críticas que vão surgindo, do seu interior, a Igreja mostra essa determinação e resolução que colhe do exemplo de Jesus, e que assim mostra e dá a conhecer à sociedade, que volta a olhar com admiração e respeito pela instituição. O primeiro-ministro afirmou que era um «exemplo» e uma «referência», e até declarações do Papa foram citadas nos discursos do 25 de abril...

Percebo que a GNR esteja preocupada, em teoria, mas quero pensar que o resultado será como nas grandes Jornadas Mundiais da Juventude, em que se portam melhor milhões de jovens católicos que meia dúzia de adeptos de futebol que visitam uma cidade para um confronto: 2 dias de tranquilidade para as centenas de polícias que forem colocados lá.

Vai ser uma «peregrinação do coração», como lhe chamou o reitor do Santuário, o Pe. Carlos Cabecinhas. Todos irão acompanhar, com o corpo em casa e o coração no santuário, a procissão das velas e a celebração do dia seguinte, com audiências que irão ser ainda maiores que aquelas que as missas online têm angariado por estes dias, e que demonstram o alcance e a importância deste santuário na vida dos católicos.

Os bispos abdicaram de muitas coisas com esta decisão. Mas mostraram que não abdicam do mais importante: a Vida dos seus fiéis. Sem fiéis que vivam, celebrem e testemunhem a Fé, Deus existiria, claro, mas não haveria Igreja.