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Fátima, lugar de cultura materna e espiritual
13.08.2017
Por incumbência das então Edizioni Paoline, de 1988, que pretendiam preparar um livro dedicado a João Paulo II, peregrino do Evangelho (edição original em italiano), escrevi à Ir. Lúcia do Carmelo de Coimbra. Ela respondeu-me com uma cartinha preciosa, que se encontra no capítulo intitulado «Testemunhos autógrafos» (pp. 55-61) desse mesmo livro, no qual a Ir. Lúcia tem o seu lugar entre a Santa Teresa de Calcutá e o prior de Taizé da altura, o Ir. Roger. Nessa ocasião, queixou-se-me de ter uma mão presa por aleijamento, mas mesmo assim escreveu-a só com uma mão e na ortografia que aprendeu na escola primária:
«Rev.do Pe., atendendo a seu pedido, é com gosto que venho dar o meu testemunho à cerca do Santo Padre João Paulo II.
Considero, mais uma graça que Deus me concedeu, o encontro com Sua Santidade, em Fátima, no dia 13 de maio de 1982. Por este feliz encontro, dou graças a Deus e peço para Sua Santidade a continuação da maternal proteção de Nossa Senhora, para que possa continuar a cumprir o mandato do Senhor, indo por todo o Mundo levar a luz da fé, da esperança e do amor, para glória de Deus, e bem da Humanidade, sendo o autêntico testemunho de Cristo vivo entre nós.
Coimbra, 16-VI-1988 – Ir. Maria Lúcia»
 
Como intérprete da mensagem de Fátima, Lúcia pedia nesta carta a «continuação da maternal proteção de Nossa Senhora» sobre o Santo Padre João Paulo II. O atual bispo de Leiria, D. António Marto, em entrevista à Rádio Renascença, afirmou: «Fátima é realmente isto mesmo, um lugar de cultura, materna e espiritual para o Mundo inteiro e para a Igreja na figura do “bispo vestido de branco”, que os pastorinhos entenderam tratar-se do Papa, sem saberem exatamente quem era. Por isso, eles rezavam pelo Papa, que sofre como representante de toda a Igreja. Há, aqui, uma ligação entranhada, visceral, entre a mensagem de Fátima e a Igreja...».

«Outra causa que o Papa leva a peito e em que insiste frequentemente é a da paz», afirmava o bispo Marto. A mensagem de Fátima é uma mensagem de paz, para a paz da Humanidade, e o Papa tem dito que «vamos vivendo uma terceira guerra mundial em episódios. E há outra, que nós não temos a coragem de lhe chamar “guerra”, que é a economia que mata». D. António Marto explica-a: «A faceta não é, propriamente, dizer como se organiza a economia, porque isso nem o Papa o pode dizer. É a defesa da dignidade humana, dos direitos da pessoa humana e saber que a economia está ao serviço da pessoa humana. Há uma globalização a nível financeiro, há uma finança desligada da economia que é preciso regular para estar ao serviço das pessoas, sobretudo dos mais pobres. Essa tem sido outra tónica do Papa Francisco. A guerra não tem só que ver com as armas.»

Há uma contradição entre «determinada comunicação social que só se refere a aspetos marginais: as promessas, os peregrinos mais simples que vêm a Fátima, como se as elites não viessem, os sacrifícios de andar aqui de joelhos ou de rastos... Ora, isso é apenas um fragmento de todo o cenário. A chave para interpretar a mensagem é a do amor de Deus por este Mundo. Uma das tentações que temos é a de olhar para a mensagem à letra», constata o bispo, como que a dizer que isto tem de acabar. «Nossa Senhora serve-se do imaginário das crianças para fazer compreender a monstruosidade do mal... A seguir, depois dessa visão aterradora, vem o Coração Imaculado de Maria a oferecer-se como um caminho para Deus, para o bem. São mensagens belas, e é preciso interpretá-las para hoje», afirma.

Portanto, não é o dinheiro nem o comércio sagrado que constituem a riqueza de Fátima. O bispo sublinha, sim, «uma riqueza» especial, rara no Mundo, que Fátima oferece: a beleza de Deus e do seu amor. Foi a primeira impressão dos pastorinhos. «Não me posso esquecer da profundidade na simplicidade das palavras do Francisco: “Gostei muito de ver o anjo, gostei mais de ver a Nossa Senhora, mas aquilo de que gostei mais foi de ver Deus naquela luz que Nossa Senhora nos metia no peito e que ardia sem queimar. Gosto tanto de Deus!” Sem a experiência de Deus, a religião fica reduzida a uma ética, mandamentos, e não [inclui] a experiência viva de Deus, que se traduz na ternura da Mãe do Coração Imaculado. Uma linguagem que toda a gente entende, dos mais simples às elites.»

Assim sendo, sublinha o bispo, «Fátima é um lugar de cultura. É a cultura materna, é a cultura espiritual, é a cultura da beleza – da beleza do coração humano, da pureza. Eu costumo dizer: os milagres de Fátima não são espetaculares, não fazem notícia de primeira página, mas muita gente refaz a sua vida aqui. Há todo um bem que está presente por todo o lado, que não faz notícia, mas é esse bem que sustenta o Mundo. É esta outra dimensão que Fátima também faz ver».