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Fratelli Tutti: a tela onde o Papa quer redesenhar o mundo
04.10.2020
Foi divulgada hoje a encíclica Fratelli tutti, Todos Irmãos, na tradução portuguesa, escrita pelo Papa Francisco «como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras», conforme se pode ler no ponto 6.

Foto Vatican News
Uma encíclica é um documento do Papa habitualmente dirigido a todas as pessoas de bem, crentes ou não crentes, e esta, a 299ª da história da Igreja Católica, assinada ontem em Assis, não foge à regra. É um documento programático, onde o Papa começa por fazer um retrato cru e corajoso de todas as situações que, nos dias de hoje, colocam em causa a dignidade e o bem-estar de todas as pessoas.

Nos primeiros 54 pontos, a descrição denuncia tudo: o abandono dos idosos, o racismo, a «manipulação» e «desfiguração» das «grandes palavras», como democracia, liberdade, justiça e unidade, os «direitos humanos que não são universais», a escravatura que, «hoje como ontem», «admite a possibilidade de a [à pessoa] tratar como um objeto», as máfias, a acusação de que algumas pessoas tratam os migrantes como «menos valiosos, menos importantes, menos humanos» (ponto 39), referindo que é «inaceitável» que os cristãos partilhem esta mentalidade, o voyeurismo, a falta de privacidade, o online que invade, a pandemia e tudo o que veio trazer de menos bom, as ideologias, e até os media católicos, onde é possível «ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia», ou a «destruição da autoestima» dos países em vias de desenvolvimento» pela apresentação de modelos culturais de países desenvolvidos que provoca nesses países um «desprezo da própria identidade cultural como se fosse a causa de todos os seus males».

Para além de S. Francisco de Assis, que o Papa escreve ter servido de inspiração para estas duas últimas encíclicas (a Laudato si e esta), pois como «se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne», a parábola do Bom Samaritano e o diálogo entre Deus e Caim exercem um papel muito importante em toda a reflexão que o Papa propõe no livro.

Desde logo, e ligando a esse diálogo, o Papa afirma que, ali, ao perguntar a Caim onde estava seu irmão Abel, Deus colocou em causa toda e qualquer hipótese dos católicos poderem justificar a «indiferença» como motivo para “passarem ao lado” quando veem alguém a sofrer, como estava o homem que tinha sido assaltado na estrada para Jericó. Até porque, escreve o Papa, «ao amor não lhe interessa se o irmão ferido vem daqui ou dacolá».

É por isso que defende, no ponto 67, que esta parábola é «um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito». «Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano», sustenta.

A necessidade de acolher o estrangeiro, migrante ou não, de lhe dar a «cidadania plena», de o integrar na cultura local, respeitando as suas origens, é outro dos pontos fortes deste documento. Assim como o de compreendermos a necessidade de agirmos juntos. Mais uma vez, o Papa volta à parábola do Bom Samaritano para justificar que também ele precisou da ajuda do estalajadeiro para cuidar de quem tinha sido deixado na beira da estrada.

Um grupo de refugiados de Myanmar (Foto KMAsad__LightRocket__Getty_Images)
Mas há ainda quem não compreenda este ponto de vista, e o Papa lamenta «a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência». O Santo Padre acrescenta que «hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas». «Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se», escreve, acrescentando que «é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos».

Os outros enquanto «acrescentamento do ser» para nós
Este é um documento que fala muito sobre diálogo, unidade, fraternidade, alianças. É por isso que o Papa escreve que as famílias, os casais, não podem apenas viver em função de si. «O vínculo de casal e de amizade está orientado para abrir o coração em redor, para nos tornar capazes de sair de nós mesmos até acolher a todos», e por isso critica os grupos fechados e os casais autorreferenciais. São «como um “nós” contraposto ao mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas de egoísmo e mera autoproteção».

O amor, então, «coloca-nos em tensão para a comunhão universal». «Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: « Vós sois todos irmãos » (Mt 23, 8).

E se o Amor controla e orienta tudo, então não há razão para o não acolhimento de refugiados, idosos ou pessoas mais vulneráveis na sociedade. « Uma sociedade humana e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir, de modo eficiente e estável, que todos sejam acompanhados no percurso da sua vida, não apenas para assegurar as suas necessidades básicas, mas para que possam dar o melhor de si mesmos, ainda que o seu rendimento não seja o melhor, mesmo que sejam lentos, embora a sua eficiência não seja relevante».

Estes valores de integração para a sociedade tem de fazer parte da sociedade, sob pena que o egoísmo, a violência, a corrupção nas suas diversas formas, a indiferença e, em última análise, uma vida fechada a toda a transcendência e entrincheirada nos interesses individuais», diz o Papa no ponto 113 da encíclica Fratelli tutti.

Nesse sentido, é possível ler neste documento a ideia do serviço ao próximo, da solidariedade, «uma palavra que expressa muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos». «É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais. É fazer face aos efeitos destrutivos do império do dinheiro (...). A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem».



A «melhor política» na procura da «caridade política»
Um dos aspetos mais vincados desta encíclica é o peso que Francisco coloca na necessidade de execução de políticas que efetivamente procurem o «bem comum», embora, reconheça, «hoje, infelizmente, muitas vezes a política assume formas que dificultam o caminho para um mundo diferente».

O Papa acusa os que procuram fazer desaparecer o povo do meio das decisões políticas, a partir da crítica que se faz aos populismos. «Existem líderes populares, capazes de interpretar o sentir dum povo, a sua dinâmica cultural e as grandes tendências duma sociedade. (...) Mas degenera num populismo insano, quando se transforma na habilidade de alguém atrair consensos a fim de instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideológico, ao serviço do seu projeto pessoal e da sua permanência no poder», escreve.

Francisco defende que «ser verdadeiramente popular» é «garantir a todos a possibilidade de fazer germinar as sementes que Deus colocou em cada um, as suas capacidades, a sua iniciativa, as suas forças». «Esta é a melhor ajuda para um pobre, o melhor caminho para uma existência digna», pode ler-se no ponto 162.

A crise de 2007 e 2008 não foi aproveitada, segundo o Papa, para o «desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual». Em vista desta nova e de futuras crises, o Santo Padre sugere a criação de «autoridades mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais».

Sobre o trabalho do político, a sua missão, é lembrado o Papa Pio XI, que falou na necessidade de uma «caridade política». «É caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contacto direto com essa pessoa – para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua ação política», explica o Papa.

Foto Ricardo Perna
Neste sentido, «as maiores preocupações dum político não deveriam ser as causadas por uma descida nas sondagens, mas por não encontrar uma solução eficaz para o fenómeno da exclusão social e económica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada».
 

«Muitas vezes hoje, enquanto nos enredamos em discussões semânticas ou ideológicas, deixamos que irmãos e irmãs morram ainda de fome ou de sede, sem um teto ou sem acesso a serviços de saúde. Juntamente com estas necessidades elementares por satisfazer, outra vergonha para a humanidade que a política internacional não deveria continuar a tolerar – não se ficando por discursos e boas intenções – é o tráfico de pessoas. Trata-se daquele mínimo que não se pode adiar mais».


O diálogo enquanto «chave de uma nova cultura»
Outro dos capítulos é dedicado ao poder do diálogo dentro da sociedade. Criticando quem confunde diálogo com «uma troca febril de opiniões nas redes sociais, muitas vezes pilotada por uma informação mediática nem sempre fiável» e «determinados interesses detentores de maior poder que procuram desonestamente inclinar a opinião pública a seu favor», Francisco sustenta que «quando uma pessoa ou um grupo  é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros».

«É necessário verificar», pede o Papa, «que as formas atuais de comunicação nos orientem efetivamente para o encontro generoso, a busca sincera da verdade íntegra, o serviço, a aproximação dos últimos e o compromisso de construir o bem comum».

Nesta base da busca de consensos, Francisco releva o papel que as religiões, ou o sentido do espiritual, podem ter, uma vez que a «verdade» não é apenas uma «comunicação de factos operada pelo jornalismo». «Isto implica aceitar que a inteligência humana pode ir além das conveniências do momento atual e captar algumas verdades que não mudam, que eram verdade antes de nós e sempre o serão», afirma, acrescentando que, «aos agnósticos, este fundamento poder-lhes-á aparecer como suficiente para conferir aos princípios éticos basilares e não negociáveis uma validade universal de tal forma firme e estável que consiga impedir novas catástrofes. Para os crentes, a natureza humana, fonte de princípios éticos, foi criada por Deus, que em última análise confere um fundamento sólido a estes princípios».

Por isso, o Papa Francisco volta a referir-se à «cultura do encontro», um termo já utilizado por si em diversas ocasiões. «Falar de “cultura do encontro” significa que nos apaixona, como povo, querer encontrar-nos, procurar pontos de contacto, lançar pontes, projetar algo que envolva a todos. Isto tornou-se uma aspiração e um estilo de vida».


Um encontro que leva aoo perdão, mas não ao esquecimento. « Somos chamados a amar a todos, sem exceção, mas amar um opressor não significa consentir que continue a ser  tal; nem levá-lo a pensar que é aceitável o que faz», escreve o Papa, para a seguir defender que «quem sofre injustiça tem de defender vigorosamente os seus direitos e os da sua família, precisamente porque deve guardar a dignidade que lhes foi dada, uma dignidade que Deus ama». «Se um delinquente cometeu um delito contra mim ou contra um ente querido, ninguém me proíbe de exigir justiça e me acautelar para que essa pessoa – ou qualquer outra – não volte a lesar-me nem cause a outros o mesmo dano. Compete-me fazê-lo, e o perdão não só não anula esta necessidade, mas reclama-a», esclarece.

O problema é quando esta procura de justiça se transforma em ódio, que «faz mal à alma da pessoa e a alma do nosso povo». «É como vente ver a capacidade de perdão dalgumas pessoas que souberam ultrapassar o dano sofrido, mas também é humano compreender aqueles que não o podem fazer. Em todo o caso, o que nunca se deve propor é o esquecimento», escreve, no ponto 246.

Reforçando que «o perdão não implica esquecimento», o Papa defende que «o perdão livre e sincero é uma grandeza que reflete a imensidão do perdão divino». «Se o perdão é gratuito, então pode-se perdoar até a quem resiste ao arrependimento e é incapaz de pedir perdão».

E é neste sentido que volta a falar da condenação da pena de morte e da «injustiça» que é a guerra. Sobre a pena de morte (e a prisão perpétua, que o Papa considera ser uma «pena de morte escondida»), reforça a opinião da Igreja Católica que defende que «a rejeição firme da pena de morte mostra até que ponto é possível reconhecer a dignidade inalienável de todo o ser humano e aceitar que tenha um lugar neste universo». «Visto que não o nego ao pior dos criminosos, não o negarei a ninguém, darei a todos a possibilidade de compartilhar comigo este planeta, apesar do que nos possa separar», sustenta.

Sobre a guerra, afirma que o recurso a esta mostra o «fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal». «Não fiquemos em discussões teóricas, tomemos contacto com as feridas, toquemos a carne de quem paga os danos. Voltemos o olhar para tantos civis massacrados como «danos colaterais». Interroguemos as vítimas. Prestemos atenção aos prófugos, àqueles que sofreram as radiações atómicas ou os ataques químicos, às mulheres que perderam os filhos, às crianças mutiladas ou privadas da sua infância. Consideremos a verdade destas vítimas da violência, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer o abismo do mal no coração da guerra, e não nos turvará o facto de nos tratarem como ingénuos porque escolhemos a paz», apela.

O papel das religiões
Finalmente, no último capítulo apenas, Francisco fala diretamente para as religiões do mundo, e para o seu papel na construção desta sociedade diferente. Reconhecendo que uma das «crises do mundo mundo moderno» é a  «consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos», «não se pode admitir que, no debate público, só tenham voz os poderosos e os cientistas». «Deve haver um lugar para a reflexão que provém de um fundo religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria».

Foto: Vatican News
Por isso, escreve, «embora a Igreja respeite a autonomia da política, não relega a sua própria missão para a esfera do privado». «Pelo contrário, não pode nem deve ficar à margem na construção de um mundo melhor nem deixar de “despertar as forças espirituais” que possam fecundar toda a vida social».

Reconhecendo que «são as deformações» da religião que dão «fundamento» à violência, o Papa defende que «o culto sincero e humilde a Deus «leva, não à discriminação, ao ódio e à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e a liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos».

São 287 pontos que prometem marcar os próximos tempos da Igreja e do mundo. No final, o Papa coloca duas orações, uma ao Criador, e outra ecuménica. O texto foi assinado ontem, em Assis, e é divulgado oficialmente hoje, no dia da memória litúrgica de S. Francisco de Assis, a grande inspiração do Papa desde que tomou posse.

 
Texto: Ricardo Perna
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