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Fundação AIS apresenta relatório para «lembrar» cristãos perseguidos
23.10.2019
O relatório da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) sobre a situação dos cristãos perseguidos em todo o mundo foi hoje apresentado no Centro NAcional de Cultura, em Lisboa, numa sessão que contou com a presença de Paulo Portas, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, e do Pe. Gideon Edos Obasogie, da diocese de Maiduguri, na Nigéria, uma das dioceses que mais tem sofrido com as ações do grupo terrorista Boko Haram, que há mais de 10 anos aterroriza a região.

 
O sacerdote nigeriano apresentou a realidade da sua diocese, que, em área, é maior que todo o país de Portugal, e explicou que, desde o início da ação do grupo terrorista na região, já tinham falecido mais de 30 mil pessoas, entre as quais 26 sacerdotes, e 350 igrejas destruídas, numa série de ataques que «incutem muito medo nas pessoas». «Grande parte dos católicos foram deslocados para os Camarões, são cerca de 50 mil refugiados», explicou, acrescentando, no entanto, que «o nosso povo tem muita esperança e não tem medo».
 
O Pe. Gideon contou a história de Rebecca, uma jovem mãe de dois filhos, grávida do terceiro, que foi raptada pelo grupo terrorista e obrigada a caminhar pela montanha durante muito tempo, o que a levou a perder o filho que carregava. «Rebecca esteve prisioneira 3 anos. Ela recusou-se a casar com um terrorista e por causa disso afogaram um dos seus filhos. Foi violada por quatro terroristas e ficou grávida. Conseguiu fugir e encontrar o seu verdadeiro marido e voltar à diocese, onde foi acolhida pelo bispo», contou o sacerdote.
 
O problema de Rebecca depois foi conseguir que o marido aceitasse o filho de outro homem, e que ela própria aceitasse criar uma criança que a lembrava do tempo de cativeiro às mãos do grupo terrorista. «É um grave problema que temos na diocese, porque Rebecca acha que o filho a lembra do sofrimento às mãos dos terroristas e o marido não queria aceitar a criança, mas depois do trabalho com o bispo, que lhes fez ver que o bebé era inocente, perceberam que era uma benção para a sua família, e aceitaram-no», refere.
 
Contando que «o Rosário era a nossa principal arma» quando as pessoas eram obrigadas a fugir dos ataques terroristas, o Pe. Gideon refere outro dos problemas mais urgentes no momento, que é a «sede de vingança» que os sobreviventes têm. «Um rapaz tinha um pai polícia que morreu num bombardeamento. Foi há 4 anos e o rapaz continuava a perguntar à mãe quando é que o pai voltava para casa. Passado um tempo, ela disse ao filho o que tinha acontecido, e explicou quem era o Boko Haram. Ele prometeu matar todos os terroristas do grupo quando crescesse, e tem oito anos agora. Tem sede de vingança, e o nosso bispo diz que estas pessoas precisam de acompanhamento, porque se as pessoas crescem com este sentimento, tornam-se bombas relógio», lamenta.

Paulo Portas fala de uma «nova geografia» de preocupações
Na apresentação do relatório, Paulo Portas, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, elogiou o documento. «O Ocidente tem dificuldade em reconhecer a sua matriz cristã fundadora. O trabalho é muito importante para que, pelo menos num dia, eles [os cristãos] possam ser perseguidos e lembrados», referiu Paulo Portas.
 
O antigo ministro fala de uma «nova geografia» nas preocupações com os cristãos perseguidos. «Quero sublinhar a preocupação do relatório com a Índia, desde que se acentuou o nacionalismo hindu. Em vários pontos da África e Ásia há evidência de conversões forçadas. Na Coreia do Norte o relatório é muito explícito, porque ali o Estado atribuiu-se o direito de expropriação da fé dos seus cidadãos», referiu.
 
Sobre o problema da China e o acordo com a Santa Sé, Paulo Portas considera que «o Vaticano tem uma das mais antigas diplomacias do mundo». «Para proteger os católicos da China, que estão a crescer e tornam distantes os números oficiais, fez um acordo experimental, prudente, para verificar o empenho das partes numa relação. O Vaticano queria que as pessoas vivessem mais livremente a sua fé, mas as notícias mais recentes denotam alguma tristeza do Vaticano no facto de as autoridades chinesas não cumprirem com o acordo. Ao mesmo tempo, as autoridades chinesas publicaram um documento de obstrução da vida religiosa mais aberta. O relatório fala do acordo, mas também da intranquilidade dos fiéis», sustentou.
 
Neste sentido, e em jeito de conclusão, Paulo Portas considerou que «ser cristão em muitas partes do mundo exige muita coragem e muita fé, e as mulheres estão na primeira linha do alvo da intolerância», para a seguir acrescentar que «um mundo que não tenha liberdade religiosa é um mundo sem direitos humanos suficientes».

 
No final, Catarina Martins, presidente da Fundação AIS em Portugal, anunciou para dia 27 de novembro uma jornada de oração pelos cristãos perseguidos, que terá, como habitual, reflexo na iluminação vermelha de muitos monumentos e edifícios públicos, «para lembrar os cristãos perseguidos, lembrar todos os homens e mulheres que dão testemunho de fé com a sua própria vida». Entre estes edifícios estão a igreja de Campo Grande, em Lisboa, o Mosteiro dos Jerónimos, o Cristo-Rei, a Basílica dos Congregados, em Braga e a catedral de Bragança.


 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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