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Guerra em Moçambique tem «motivação económica»
16.12.2020
O bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa, esteve no passado dia 15 de dezembro numa conferência virtual organizada por um conjunto de organizações portuguesas para dar testemunho sobre a difícil situação que se vive em Cabo Delgado, Moçambique, uma zona que tem sido alvo de ataques terroristas, que têm espalhado o medo e levado a que milhares de moçambicanos se tenham posto em fuga, deixando as suas casas e todos os seus pertences.

 
Os grupos apresentam-se ligados ao Daesh e ao fundamentalismo islâmico, mas o bispo de Pemba desconfia que as reais motivações para estes ataques, que duram há cerca de 3 anos e têm agora aumentado a sua gravidade, nada têm a ver com a religião. «Acho que o extremismo é um elemento importante, mas não é o principal. Onde têm acontecido as guerras, há muitos recursos naturais, e a motivação económica está em primeiríssimo lugar», disse.
 
A zona norte da província é rica em recursos naturais. «Madeiras, gás, rubis e outras pedras semi-preciosas, ouro, grafite, mármore, é uma província muito rica em recursos, mas com uma população pobre. A terra é muito fértil, o que se planta dá, mas há falta de água, não porque não há água, mas porque houve pouco investimento para levar água potável à população», explica o prelado, que acusa os governantes de, durante anos, terem «ignorado» a província e os seus habitantes.
 
O bispo explica que «há presença de grandes e médias empresas que exploram os recursos, e esse é um dos problemas que temos, porque quando se aproveita de maneira equilibrada os recursos, eles podem ser uma bênção. Mas quando se extrai de maneira desordenada pode ser uma maldição. A madeira é retirada de uma maneira selvagem, sem controle. Há regiões inteiras desmatadas e isso tem repercussões na natureza», considera.
 
É por isso que, questionado sobre o que pode Portugal fazer para ajudar, até porque assume agora a presidência da União Europeia, o bispo de Pemba defende que «Portugal daria uma grande ajuda se levasse à União Europeia a discussão sobre o uso dos recursos, como estamos a enfrentar essa situação, que tipo de submissão, novo colonialismo estamos a praticar em relação aos recursos que há em África e noutros países do mundo». «Não podemos dar com uma mão e tirar com a outra, essa discussão tem de ser feita seriamente», pediu.


 
Guerra tem contornos religiosos, mas raízes económicas
Sobre a questão religiosa, D. Luiz Lisboa afirma que há «um bom relacionamento entre as religiões, não temos conflitos com os líderes», e que os próprios muçulmanos rejeitam que estes ataques sejam levados a cabo por muçulmanos, já que também mesquitas e líderes muçulmanos têm sido atacados. «Foram mortos catequistas, animadores cristãos, mas não por terem essa tarefa. E mataram também líderes muçulmanos, inclusive um líder morto em Moçimboa da Praia, à frente de outras pessoas, porque se recusou a passar para o lado deles. Queimaram igrejas nossas, mas também mesquitas. Não é um ataque aos cristãos, é à população em geral», sustenta.


 
O diálogo com estes grupos terroristas é também muito «difícil» já que, afirmou em entrevista aos jornalistas que participaram da conferência, «não aparece um líder, não há com quem falar, nunca foi tentado e acho um pouco difícil».
 
Para além disso, o facto de a província ter sido muito ignorada pelo governo durante anos fez com que fosse mais fácil recrutar e manipular jovens para que aderissem a estes grupos radicais. «Muitos jovens, sem escolaridade, porque nem todos os distritos tinham ensino médio, e sem emprego, são coaptados por esses grupos», avisa D. Luiz Lisboa, que aponta a pobreza da população como outra causa.
 
A solução da guerra tem de passar por uma intervenção externa, defende o bispo de Pemba, que critica a demora do governo moçambicano em assumir o problema e pedir ajuda, que entretanto já foi pedida, e diz que é preciso uma intervenção militar externa no terreno, já que os militares moçambicanos «nem sempre têm todas as condições para o combate, e muitas vezes veem-se inferiorizados, porque os terroristas tinham armas mais potentes e eles acabaram por fugir com a população». «As nossas forças de defesa não conseguiram conter e a guerra continua. Os nossos militares conhecem melhor as matas, mas falta-nos serviço de inteligência mais forte que nos possa ajudar», adiantando que «capacetes azuis ou outra forma de ajuda que seja mais eficaz» é necessária no terreno.


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Para além disso, defende que a União Europeia e outras instituições poderiam ajudar no terreno não só em «termos de ajuda humanitária», mas também «de descobrir as causas da guerra e de ir à raiz dos problemas». Nós estamos a lidar com a crise humanitária, mas a guerra precisa de acabar e é preciso ir à raiz» para conseguir que isso aconteça.
 
Situação dramática no terreno
A guerra já fez, anunciou o bispo de Pemba, 2 mil mortos e mais de 600 mil deslocados, que se vão juntando nos distritos da província que ainda estão em paz e na província vizinah de Nampula, que já tem «mais de 40 mil deslocados». «Em Metuge, vizinho de Pemba, há 7 acampamentos, com cerca de 60 a 70 mil deslocados, no acampamento e em casas. Num acampamento podem estar 4 a 6 mil pessoas, e não há barracas nem lonas para todos. Os dois últimos acampamentos que foram formados não há nem barracas nem lonas, e estão numa situação muito provisória, muito difícil», conta, explicando que receberam a visita de uma comitiva de bispos vizinhos e que um deles, e que um deles lhe disse «eu estive no Darfur, mas aqui está muito pior», contou o bispo, para exemplificar a premência da ajuda.
 
O governo moçambicano começou a criar assentamentos, que consistem na atribuição de zonas agrícolas à população deslocada, para que aí possa construir habitação e cultivar a terra, uma solução com a qual D. Luiz concorda, mas que tem levantado questões, já que há quem argumente que isto é uma tentativa de retirar pessoas de locais com grandes recursos naturais para que possam ser explorados sem oposição local. O bispo de Pemba não quer acreditar que o governo esteja por trás destes ataques, «seria uma monstruosidade sem tamanho», e explica que «se a guerra terminar, muita gente vai querer voltar, porque o povo é muito ligado ao seu espaço». «Em cada aldeia há cemitérios, e os antepassados são muito importantes para os africanos. A guerra terminando, muita gente vai querer voltar para o seu espaço, a sua aldeia. Não sou ingénuo, mas também não creio que isso seja verdade, que seja um plano para expulsar as pessoas da terra», defendeu.


O que sabe é que vai ser preciso muita ajuda agora, para alimentar e dar condições aos deslocados, e depois, para a reconstrução. Já havia vários sinais de solidariedade, mas quando o Papa Francisco falou publicamente da situação em Cabo Delgado, muito mudou. «A presença do Papa foi fundamental. Ele ter falado, telefonado, doado os 100 mil euros... quando eu disse que o Papa tinha doado, isto chamou a atenção, porque internacionaliza a nossa crise humanitária», defende.
 
D. Luiz Lisboa explica, no entanto, que a «ajuda que tem vindo não pode parar». «Estamos apenas a dar assistência imediata às pessoas, mas temos pela frente anos de reconstrução, não apenas de edifícios, mas de vidas. Muitos que saíram vão querer voltar, e quem voltar não vai ter nada para recomeçar, há muito trabalho pela frente», refere.
 
Por isso, fala de várias formas de ajuda que pode ser dada por quem está fora. «Em primeiro lugar, a oração, que move montanhas e comove o coração de Deus. Depois, tornar isto falado e conhecido pelas pessoas, para que elas se abram ao outro. Finalmente, alguma ação de solidariedade que seja possível», pede, referindo que «é muito importante quando as igrejas se unem a nós, seja por telefonemas, seja por campanha». «Cada conferência e diocese tem de achar uma maneira de poder ajudar. Não sou eu que vou sugerir e propor nada, penso que cada país tem os seus problemas e na medida em que possa ser solidário, é sempre bem vindo», concluiu.

Texto, fotos e vídeo: Ricardo Perna
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