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Guerra energética: sobe, sobe, preço sobe...
24.01.2022
Este outono e inverno têm sido de escalada dos preços dos combustíveis e da energia. Em Portugal, tem-se notado mais nas bombas de gasolina e menos na conta da eletricidade, mas isso pode mudar rapidamente. A alteração de paradigma no consumo energético explica algo do que se está a passar, mas não tudo. A crise nas relações entre o Ocidente a Rússia está a empurrar os preços para cima – com o Kremlin a ajudar muito.
 
No momento em que escrevo estas linhas, em dezembro de 2021, o preço de referência do gás natural na Europa está prestes a bater o recorde absoluto que tinha sido alcançado em outubro – mais de 116 euros por megawatt/hora (MWh). Em janeiro, esse valor não chegava sequer a 20 euros por MWh, ou seja, quase seis vezes menos.

O que explica uma subida tão grande e tão rápida? E porque é que é tão importante?

Afinal, a Europa não recorre cada vez mais às energias renováveis e não tem ainda uma importante produção de energia nuclear, que pode servir de almofada em alturas de aperto?

Em relação ao nuclear, é verdade que 13 dos 27 países da União Europeia (UE) têm reatores (106, no total) que satisfazem cerca de um quarto de todas as necessidades de eletricidade da UE, mas, se olharmos com atenção para a repartição dessa capacidade, rapidamente descobrimos que a maior parte dela está concentrada num só país: a França. É aí que é produzida mais de metade da eletricidade com origem nuclear de toda a União.

Isto significa que todos os outros países dependem muito mais de fontes alternativas de energia. Apesar da grande aposta europeia na descarbonização da economia, com a consequente aposta nas energias renováveis, o sol, o vento e a água forneceram ainda só 35% das necessidades europeias em 2019. Portugal ficou bem acima dessa média, com 56%, mas há que ver que as nossas condições naturais para a produção deste tipo de energia são muito melhores do que em quase todos os outros países europeus.
 
A dependência do gás
Para quem tem muito menos horas de sol e vento, como é regra no centro e leste da Europa, a queima de combustíveis fósseis (carvão e gás natural) representa ainda a fatia mais importante da produção elétrica. A média europeia em 2019 ficou em quase 40% da produção do total, mas um país como a Polónia, por exemplo, ainda tira mais de 80% da sua eletricidade do carvão (principalmente) e do gás.

Além disso, este último é essencial para aquecer as casas durante o rigoroso inverno da Europa central e de leste, quando as temperaturas chegam muitas vezes aos dez graus negativos, e até bem menos do que isso. Foi, aliás, o rigoroso inverno passado que causou parte dos problemas que estamos a viver agora com o preço da energia. A necessidade de gastar mais gás do que é usual fez baixar as reservas dos distribuidores para níveis muito reduzidos, e isso foi agravado pela baixa produção de energias renováveis exatamente pelo mesmo motivo: o mau tempo.

É preciso não esquecer também que a eletricidade produzida a partir do sol, do vento ou da água tem de ser distribuída e consumida instantaneamente; já o gás pode ser liquefeito, transportado e armazenado, o que torna o seu consumo muito mais flexível. Por todos estes motivos, o gás natural é o produto com mais peso no cabaz energético europeu – muito mais até do que o petróleo, pelo menos no que diz respeito à produção de eletricidade.

Como é fácil de calcular, isto dá um grande poder ao principal produtor e fornecedor mundial de gás. E quem é ele, perguntará o leitor?
A Rússia, pois claro.
 
Uma arma chamada gás
Os dados mais recentes disponíveis na altura em que escrevo indicam que, em novembro de 2021, a empresa pública russa Gazprom forneceu 3,6 mil milhões de metros cúbicos de gás natural à Europa. O número é enorme, mas tem de ser sempre analisado em contexto, e esse indica-nos que o fornecimento não era tão baixo há seis anos. Em relação a 2019, a quebra no abastecimento é de quase 25%.

Tendo em atenção que os preços estão a subir desde o final do verão, e que isso já causou a suspensão de atividade de fábricas e a falência de grandes empresas distribuidoras de energia em vários países europeus, já para não falar do aumento em flecha das contas de energia, não se pode dizer que os russos estejam a ser compreensivos com as dificuldades europeias. Na realidade, até podemos dizer, sem receio de injustiça, que as estão a agravar propositadamente.

O motivo é fácil de ver. As relações entre a União Europeia e a Rússia estão no seu ponto mais baixo desde a Guerra Fria, quando ainda existia um país chamado União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a UE era só Comunidade Económica Europeia. O principal pomo de discórdia – mas longe de ser o único – é a Ucrânia. O governo de Kiev quer integrar o país na Europa democrática e o governo de Moscovo quer mantê-lo na sua órbita, porque considera isso essencial à sua própria segurança.

Vladimir Putin está tão determinado em impedir que a Ucrânia caia na órbita ocidental que até está disposto a ameaçar – pelo menos – com a possibilidade de uma guerra de larga escala. A Rússia tem mais de cem mil militares junto à fronteira, e os serviços de informações norte-americanos aparentemente acreditam mesmo que irão invadir território ucraniano a curto prazo.
Outra componente da estratégia de Putin é a guerra energética. O presidente russo diz que as acusações de que está a cortar o abastecimento de gás à Europa para obrigar os seus adversários a ceder na questão ucraniana não passam «de um total disparate, baboseiras e mexericos com motivação política», mas poucos observadores imparciais dão crédito à refutação. 
Putin sabe, aliás, que a sua arma tem um prazo de validade. Com a forte aceleração da transição energética na Europa em favor das renováveis, não lhe sobram muitos anos para poder usá-la com algum proveito.
É agora ou nunca.