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Habitação colaborativa: Envelhecer em comunidade é possível
15.05.2019
António no alpendre da casa onde vive com a esposa.Seguimos o senhor António até casa. Move-se com facilidade numa cadeira de rodas pela instituição de solidariedade social Os Pioneiros, em Mourisca do Vouga, Águeda. Fora do edifício abre-se um espaço amplo, relvado, com casinhas de madeira. António Alves de Jesus tem 80 anos e é ativo, apesar de agora estar «dependente», de forma passageira, enquanto espera por uma prótese.
Chegou às Casinhas do Pinhal «vai fazer seis anos no dia 1 de julho», depois do AVC da esposa. «Eu estive dois anos com ela em casa e estava a ficar pior do que ela», conta. «A casa foi construída nessa altura. Fiquei a viver com a minha mulher aqui», explica. A moradia é independente, tendo o casal apoios do centro de dia e do lar da instituição. «De manhã, tomo o meu café aqui e vou lá para cima. Eles vêm aqui a casa, tratam dela, agarram nela e levam-na para o centro de dia.» Ir viver para um lar de idosos nem pensar. «Ai, num lar não. Não sabe o que é um lar! Eu vou lá acima três vezes por semana à fisioterapia. Não dá para mim! Aqui, agora sou dependente. Mas era independente, entrava à hora que me apetecia, saía à hora que me apetecia. Nunca houve problemas. Num lar já não é assim.» Conversamos na varanda da casa de António e Rosa Maria, o único casal da “aldeia”, casados há 61 anos.

"Pauleta" posa em frente à sua casa.

Deixamos o senhor António voltar aos seus trabalhos no centro de dia e seguimos ao encontro de "Pauleta", que afinal também se chama António: António Oliveira Pinto. Todos lhe chamam "Pauleta". A conversa começa no jardim e é aí que nos conta as suas aventuras no futebol profissional nos anos 60. Esteve emigrado mais de 40 anos na África do Sul. Divorciou-se aos 73 anos, quase a completar 50 anos de casamento. Já era voluntário n’Os Pioneiros desde 2001. A filha que vive em Portugal aconselhou-o a ir viver para lá. Não se arrepende. «Ótimo! A minha vida é uma vida de burguês. Vou à pastelaria a Águeda tomar o café. Ainda hoje de lá vim.» Demora a responder como é a sua vida comparativamente com a de outros idosos. Mas quando o faz é sem papas na língua. «Eu não vou para o lar! Vou fazer um testamento para não ir para o lar e têm de o cumprir. Eu quero morrer nesta casa! Se eu vim para aqui, é a minha casa. Não quero ir lá para cima. Porque não quero!», dispara. O tom brincalhão usado em toda a conversa só desaparece nesta altura. «Aqui faço tudo e lá não faço nada. Tenho uma liberdade enorme que não tenho lá. Enquanto eu tiver consciência, ninguém me leva para lá nem me tira de cá», argumenta.

Susana Tomás e José Carlos Arede, d'Os Pioneiros
Neste projeto, 17 pessoas vivem em 10 casas. «Têm de ter autonomia física e mental. As casinhas começaram em 2011. Neste momento, as casas estão todas ocupadas», explica Susana. O valor pago depende dos valores das reformas, mas varia entre os 120 e os 800 euros. A média, dirá mais tarde o presidente de Os Pioneiros, serão os 500 euros. A lista de espera é grande. Os idosos podem habitar as casas sem ter nenhum apoio da instituição. Com a casa têm tratamento de roupa e limpeza da casa.
José Carlos Arede, presidente de Os Pioneiros, salienta que a realidade dos idosos mudou muito nas últimas décadas. «Os nossos lares são quase unidades de cuidados continuados», constata. Por isso, defende a existência de uma «alternativa anterior ao lar». O presidente da instituição revolta-se ao contar que tem andado em luta com a Segurança Social, porque não está prevista esta solução. «Tivemos de andar a contornar a lei. Fizemos um arrendamento e depois colocamos os que precisam numa resposta social. Só que a Segurança Social diz que é ilegal e que é um lar encapotado. Não é! É preciso que o legislador encontre uma solução», conta.

Nuno Cardoso, presidente da Hac.Ora. (Foto: Maria Begasse)

É também esta a convicção dos fundadores da Hac.Ora Portugal Senior Cohousing Association. Nuno Cardoso, presidente da Hac.Ora, explica que habitação colaborativa é «uma comunidade autopromovida e autogerida» com espaços privados e comuns como lavandaria, cozinha, espaço para refeições, por exemplo. As tarefas são partilhadas ou divididas. Em maio do ano passado, começaram a angariar associados e rapidamente perceberam que não estavam sós. «Chegámos logo aos 140. Foram ouvidos também na Assembleia da República no âmbito da discussão sobre a Lei de Bases da Habitação, precisamente para que consagre a habitação colaborativa. «Temos esperança que isso vá ser consagrado. Esse é o primeiro passo para a legislação se adaptar às especificidades próprias de um equipamento de habitação colaborativa», conta. 
A Hac.Ora está a criar uma plataforma colaborativa de técnicos que possa apoiar os grupos que queiram viver assim. É o ponto de partida. Para já, os projetos mais avançados são de «cohousing institucional». A Misericórdia do Porto vai construir 40 T1 para arrendar a idosos ativos de «camadas mais desfavorecidas». Deverão estar prontos em 2021. A Hac.Ora é parceira e «gostaria de apoiar do ponto de vista técnico para ter características do cohousing». A ideia é que haja autogestão. «Queremos que a filosofia colaborativa se instale e não seja apenas um bloco de T1. Queremos dar o passo à frente que é de facto dar a ambiência de comunidade. Aqui a pedra de toque é vencer o isolamento das pessoas. Queremos que as pessoas convivam, partilhem espaços comuns, que cozinhem juntas, que façam festas, passeiem. É preciso criar comunidades, criar esta família alargada», explica.
  
Reportagem: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna
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