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Imigração ilegal: O drama sem fim
23.08.2021
Durante alguns dias de maio, em Ceuta, a Europa voltou a ser confrontada com um dos problemas mundiais mais difíceis de resolver. A imigração ilegal põe em confronto razão e coração, o possível e o desejável, o mundo dos ricos e o dos pobres. No centro de tudo isto estão seres humanos que, por vezes, são usados como a nova arma do século xxi.

Os vídeos não deixam lugares a dúvida. As autoridades marroquinas abriram as portas da fronteira com o enclave espanhol de Ceuta e incentivaram milhares de pessoas a passar para o outro lado. Algumas crianças relataram que foram atraídas para a cidade espanhola com a promessa de que iriam ver Messi e Cristiano Ronaldo e de que teriam autocarros à sua espera para as levarem para o continente europeu. Tudo falso, como é óbvio.

Entre 17 e 19 de maio, cerca de 8000 marroquinos e cidadãos de outras nacionalidades, incluindo 1500 menores de idade, entraram em Ceuta. Muitos vieram a pé, aproveitando as facilidades inauditas dadas pela polícia marroquina, mas também houve quem viesse a nado ou em pequenas embarcações. Um jovem marroquino, que usou garrafas de plástico vazias como dispositivos de flutuação, disse ao soldado espanhol que o recolheu das águas «que preferia morrer a ter de voltar para Marrocos».

A situação da juventude marroquina já era má antes da pandemia, mas com a covid-19 tornou-se muito pior. A taxa de desemprego nesse grupo etário anda por volta dos 33%. Dos poucos empregos que existem, a maior parte são precários e têm remunerações miseráveis.

No resto da África, a vida é ainda muito mais difícil. É daí, desses estados com uma imensa juventude sem futuro, muitas vezes mergulhados na guerra, que vem uma torrente infindável de imigrantes desesperados e que estão dispostos a tudo para entrar na Europa. Só aí, acreditam, poderão ter uma vida com o mínimo de dignidade.

Por isso, porque estão dispostos a tudo, são fáceis de usar e manipular. São uma arma eficaz e barata para governos sem escrúpulos.
 
Jogar às invasões
O drama humano que se viveu em Ceuta entre 17 e 19 de maio terminou com o retorno forçado a Marrocos de quase todas as pessoas que tinham entrado no território. Elas não conseguiram o que queriam, mas quem as usou conseguiu.

O governo marroquino mostrou a Espanha que pode colocá-la em grandes dificuldades a qualquer instante. Basta abrir o torniquete e a imigração jorra para dentro de Ceuta, criando uma situação legal e humanitária insustentável. O primeiro-ministro espanhol bem pode proclamar que o ato de Rabat «é absolutamente inaceitável» e que usará «todos os meios necessários» (militares, claro está) para garantir a integridade territorial espanhola, mas a verdade é que, excetuando o uso de métodos indignos de uma democracia, está muito limitado na resposta que pode dar a uma situação deste tipo.

A abertura da fronteira do lado de Marrocos, como foi admitido implicitamente pelo executivo daquele país, não foi mais do que uma retaliação pelo facto de o líder da Frente Polisário, a organização que luta pela independência da região marroquina do Saara Ocidental, ter sido acolhido em Espanha para tratamento médico.

Mas, atenção, o governo de Mohammed VI limitou-se a reproduzir, numa escala infinitamente mais pequena, o que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, fez com a Europa em 2014 e 2015. Nesse último ano, mais de um milhão de pessoas atravessaram o Mediterrâneo em direção à Grécia e à Itália, sendo que a grande maioria vinha das costas turcas. Só depois de a Europa ter aceitado pagar seis mil milhões de euros ao governo de Ancara para cobrir os custos com os imigrantes que já estavam em solo turco é que o fluxo migratório passou a ser minimamente controlado.

Estes dois casos mostram como os movimentos migratórios podem ser usados como uma arma no conflito entre estados. Se o decoro e a conveniência ditam que não se invada outro país com soldados, há pelo menos a possibilidade de fazer com que ele seja invadido por civis. O resultado até pode ser mais eficaz.
 
E a União Europeia?
As migrações são uma das duas ou três questões mais importantes para o futuro da União Europeia, mas também aí ela continua enleada nas suas contradições e divisões internas.

O impulso humanitário dita que se faça como a Alemanha e a chanceler Merkel fizeram em 2014 e 2015, acolhendo cerca de um milhão de pessoas provenientes da Síria e de outros países em guerra.

Todavia, o gesto da Alemanha não foi seguido por mais ninguém – pelo menos não a essa escala. Há governos de países, como a Hungria e a Polónia, que são assumidamente hostis em relação à entrada de imigrantes, especialmente se forem africanos ou muçulmanos. Outros não partilham desses preconceitos religiosos, culturais e raciais, mas também querem reduzir ao máximo o fluxo migratório porque temem que ele seja mal aceite pelos seus cidadãos e dê força aos partidos extremistas.

A verdade é que a Europa, em geral, tem um mau desempenho na integração dos seus imigrantes mais antigos. Por isso, não se pode esperar que faça melhor numa altura em que há menos recursos, menos empregos e menos boa vontade.

A solução certa, dizem alguns, é a de longo prazo: acabar com as guerras no Médio Oriente e na África e criar condições económicas e sociais para que as pessoas dessas regiões possam ficar nas suas terras. Diz-se muitas vezes que um enorme investimento no desenvolvimento desses países faria toda a diferença, mas isso é não contar com problemas como a corrupção e a falta de meios humanos qualificados para tirar partido desse investimento, dizem outros.

A conclusão, por muito dura que possa parecer, é que este é, muito provavelmente, um problema sem solução. A Europa continuará a levantar muros e a pagar para que outros lidem com os imigrantes que não quer receber. E eles continuarão a vir.