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Impasse no «Brexit»
04.06.2019
Em 1946, Churchill apelou à criação dos Estados Unidos da Europa. Mas Churchill, um admirador do Império Britânico, não incluiu o seu país na Europa unida que preconizava.

Em 1952 surgiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), juntando França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Londres não se interessou pelo projeto.

Nos anos 50 do século xx travou-se na Europa um debate sobre a integração. Os britânicos defendiam apenas a liberalização do comércio entre países europeus. Mas os fundadores da CECA queriam ir mais longe. Assim nasceu a Comunidade Económica Europeia (CEE), o chamado «Mercado Comum». Os britânicos organizaram, então, uma pequena zona de trocas livres, a EFTA, em que Portugal – então uma ditadura com colónias – teve a sorte de entrar, ao lado de países como a Suíça, a Áustria e vários Estados nórdicos.

Perante o bom crescimento económico da CEE, logo em 1961 a Grã-Bretanha mudou de ideias e pediu a adesão. O general De Gaulle, presidente de França, opôs-se à entrada britânica. Oposição que seria depois repetida; o Reino Unido só logrou fazer parte da CEE em 1973, quando De Gaulle já não era presidente.   

O primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson quis testar a vontade dos britânicos em integrarem a CEE e em 1975 convocou um referendo. Ganhou então o «remain» (ficar) na CEE. Mais tarde, durante os onze anos durante os quais Margaret Thatcher chefiou o executivo britânico, não foram fáceis relações do Reino Unido com a CEE. O presidente da Comissão Europeia, Delors, com o apoio de Mitterrand e de Kohl, lançou o Tratado de Maastricht (1992), que criou a moeda única europeia.

O Reino Unido quis ficar fora do euro e não aderiu ao Espaço Schengen, uma área na qual 26 Estados europeus aboliram o passaporte e outros tipos de controlo nas fronteiras.

Apesar dessas exclusões, no partido conservador britânico multiplicaram-se as rejeições à manutenção do seu país na UE. Convicto que que ganharia o «Sim» à UE, o primeiro-ministro conservador David Cameron convocou um referendo. Venceu o «Não», sair da UE.
 
Talvez porque não esperavam ganhar, os adeptos de sair da UE nada tinham preparado para tal eventualidade. E durante a campanha para o referendo de junho de 2016 desdobraram-se em afirmações fantasiosas sobre os ganhos de uma saída.
A primeira-ministra Theresa May, conservadora, até votara pela permanência na UE, mas considerou seu dever concretizar a vontade da maioria expressa no referendo.

Iniciaram-se, assim, negociações entre a UE e as autoridades britânicas sobre um acordo de transição. Uma vez este assinado, começariam negociações sobre o futuro relacionamento entre as duas partes.

Depois de mais de um ano de negociações, o acordo de saída alcançado foi rejeitado em Londres, que não apresentou qualquer alternativa. O ponto mais difícil foi, e é, como manter aberta a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte (Ulster), se esta última deixará de fazer parte da UE, ou mesmo de uma eventual união aduaneira, hipótese rejeitada pelos conservadores mais anti-UE.

Tal abertura faz parte do acordo que há vinte anos pôs fim aos conflitos político-religiosos no Ulster. O acordo de saída da UE que May começou por aceitar previa uma solução provisória – mas a Câmara dos Comuns não a aprovou. É o impasse, que se deve à incapacidade britânica de apresentar uma proposta viável para o problema da fronteira irlandesa. No momento em que este texto foi escrito (14 de maio) não se via qualquer entendimento no Reino Unido capaz de desbloquear o impasse.