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Iraque: Papa «abriu a estrada» para o regresso dos cristãos
09.03.2021
Terminada que está a visita histórica do Papa ao Iraque, é tempo de balanço do impacto desta visita. Para isso, “viajamos” até Mossul, onde encontramos, ao telefone, o Pe. Thabet, pároco de Karemlesh, uma localidade perto da cidade de Mossul, de onde foi recuperada a imagem de Nossa Senhora que esteve presente na missa que o Papa Francisco celebrou no estádio Franso Hariri, em Erbil.

Foto de Arquivo 
Foi o próprio Pe. Thabet quem encontrou a imagem, depois da cidade ter sido libertada dos terroristas, decapitada e sem mãos. «Nunca pensei que, um dia, o Santo Padre estivesse em frente da mesma estátua que encontrei quando regressei a Karemlesh depois da guerra, que estava decapitada e queimada», confessou o Pe. Thabet, emocionado, acrescentando que «o Papa estar aqui, em frente de todos estes escombros, é sinal de que estamos a recuperar a nossa vida».
 
O coro da paróquia do Pe. Thabet animou a oração pelas vítimas da guerra que decorreu em Mossul, e o sacerdote ajudou a organizar esse evento histórico, realizado na praça das 4 igrejas, todas em ruínas. «O Papa não quis ver as pessoas num local bonito, mas sim nos locais que foram alvo da guerra. Este pátio onde o Papa rezou foi usado pelo Daesh como tribunal público. Muitas pessoas foram flageladas e castigadas pela polícia do Daesh, não só cristãos, mas muçulmanos, que não eram fundamentalistas, sofreram às suas mãos», conta este sacerdote, que se viu obrigado a fugir da sua paróquia quando os terroristas ocuparam a cidade de Mossul.

O Papa Francisco com a imagem de Nossa Senhora de Karemlesh | Foto ©Vatican Media
 
Esta foi uma visita muito celebrada, não apenas dentro da comunidade cristã, mas também pelos muçulmanos. «Eu penso que, se não houvesse as limitações do Covid-19, ali naquele local teriam estado 500 mil pessoas, com toda a certeza, e a maioria seria muçulmana. Muitos queriam ver o Papa, falar com ele e aplaudi-lo, por isso todo o povo iraquiano encarou esta visita como uma festa», sustenta.
 
O Pe. Thabet fala de uma visita não apenas do Papa, mas de «toda a Igreja do mundo». «Com a visita do Papa, senti que toda a Igreja do mundo estava ali, comigo, no meu país. Principalmente para nós, que estivemos deslocados e regressámos para encontrar tudo destruído, senti que foi uma visita poderosa, não porque o Papa é famoso, mas porque representa toda a Igreja», reflete o presbítero, que já visitou o nosso país, a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, para dar o seu testemunho.
 
Os desafios que ficam, agora, são os da reconstrução. «A visita do Papa obrigará o governo iraquiano e a comunidade internacional a prestar mais atenção, uma atenção mais séria, à comunidade cristã no Iraque», defende, acrescentando que «esperamos que a mentalidade do governo iraquiano permita construir este ambiente de diferentes religiões e etnias no Iraque». «Queremos construir um ambiente de tolerância aqui no Iraque, principalmente na Constituição do Iraque, e as pessoas podem aprender connosco, já que temos muitas religiões a viver aqui», reitera.

O Pe Thabet e o coro da sua paróquia no local onde o Papa rezou pela paz | Foto D.R. 
O sacerdote explica que «a maioria do povo iraquiano é pobre e está excluído do processo político, da vida pública». Por isso, «quando eles souberam que o Papa Francisco, figura famosa pela sua tolerância, o Papa dos pobres e excluídos, viria, eles sentiram que o Papa estava com eles», diz.
 
Para além de ajudar quem está a recuperar a sua vida no Iraque, o Pe. Thabet espera que esta visita sirva também para convencer outros cristãos que ainda estão deslocados a regressarem ao seu país. «O Papa abriu a estrada para a Planície de Nínive. Não a estrada real, mas a que permitirá que os iraquianos comecem a regressar. Nesta visita o Papa quis estar perto, e esperamos que o governo iraquiano pegue nesta visita e garanta todas as condições para que as pessoas que eram de Mossul possam regressar», pede.
 
Diretora da Fundação AIS faz balanço «positivo» da viagem
Balanço muito positivo. Para Regina Lynch, diretora do Departamento de Projectos da Fundação AIS e que integrou a comitiva oficial do Papa Francisco na visita ao Iraque, os sinais que recolheu são encorajadores.
 
Apesar dos sinais positivos, é «necessário continuar a trabalhar em prol da comunidade cristã», diz. Esta responsável da Fundação AIS gostaria de ver implementadas medidas adicionais para facilitar a vida dos cristãos no Iraque. «Em todo o mundo, o interesse pela visita tem sido enorme. Houve uma grande cobertura mediática. Espero que isso motive a comunidade internacional a ajudar mais o Iraque, porque os desafios continuam a ser enormes», referiu, segundo comunicado da Fundação AIS.

Foto Fundação AIS 
Apesar do clima até de alguma euforia que rodeou a visita do Santo Padre, a verdade é que continua a haver um sentimento de medo entre muitos cristãos iraquianos, que temem o regresso do Daesh. Por isso, defende esta responsável, as autoridades devem agir de forma preventiva. «O governo Iraquiano tem finalmente de tomar medidas para garantir uma segurança eficaz. Têm de substituir as milícias por uma poderosa força policial. Além disso, os cristãos que estão a regressar às suas cidades depois de fugirem do Estado Islâmico precisam de perspetivas para a sua subsistência», conclui Regina Lynch.
 
Texto: Ricardo Perna
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