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Jejum intermitente. Um estilo de vida com benefícios
12.07.2021
Alternar períodos de jejum com períodos de alimentação pode ser feito de diferentes formas e pode significar a opção por um estilo de vida ou regime alimentar, ou ser uma estratégia de controlo ou perda de peso. No caso dos adeptos de determinados tipos de desporto, pode também significar uma melhoria de rendimento, diz-nos um estudo recente.

O jejum intermitente pode ser definido como um regime alimentar em que existe um período dedicado ao jejum e outro dedicado à alimentação. Dentro deste regime, as escolhas mais comuns vão para períodos de cerca de 16h/dia de jejum e 8h/dia de alimentação (por exemplo, entre as 12h e as 20h ou entre as 13h e as 21h), para cinco dias de alimentação sem restrição de horário e dois dias da semana em que há apenas uma refeição de cerca de 500 calorias, ou para 24h de alimentação, alternadas com 24h de ingestão de 500 calorias.

Este regime alimentar foi inicialmente encarado apenas como uma dieta, para reduzir ou controlar o peso, uma vez que propicia um menor número de refeições e um espaço temporal menor para ingerir calorias (muitas das quais ingeridas nos snacks ou nas guloseimas entre refeições). No entanto, é cada vez mais usado como regime alimentar, uma escolha que não implica apenas a perda de peso, mas que se enquadra num determinado estilo de vida.

Recentemente, um grupo de investigadores portugueses concluiu, através da meta-análise de outros estudos já existentes e validados pela comunidade científica, que o jejum intermitente, se aliado à ingestão de água e ao exercício físico, pode ajudar na perda de massa gorda e traduzir-se num aumento de rendimento físico para atividades como o ciclismo ou a corrida, uma vez que há uma melhoria da atividade cardiorrespiratória.

O estudo, intitulado «Os efeitos do jejum do Ramadão e do não-Ramadão na composição corporal» (em tradução livre) encontra-se publicado no sítio da Frontiers in Nutrition e pretendeu avaliar os resultados de diferentes tipos de jejum na composição corporal. Foi desenvolvido por investigadores das áreas do desporto e alimentação do Laboratório de Função Neuromuscular da Faculdade de Motricidade Humana (Universidade de Lisboa), do Centro de Investigação em Desporto, Educação Física, Exercício e Saúde (Universidade Lusófona) e do Laboratório de Nutrição da Faculdade de Medicina (Universidade de Lisboa).

Nesta meta-análise, que selecionou 66 artigos/estudos científicos (a escolha recaiu sobre estudos realizados em adultos sem qualquer tipo de patologia ou condição específica associada), os investigadores concluíram que se verifica uma diminuição do índice de massa corporal e uma diminuição dos níveis de massa gorda, mais relevante se acompanhados de exercício físico.
O jejum intermitente com ingestão de líquidos e acompanhado de exercício também se traduz numa menor perda de massa “magra” (músculo) quando comparado com uma dieta de restrição calórica, conseguindo-se mesmo em alguns casos aumentar ligeiramente o músculo (se também não for descurada a devida ingestão de proteína, necessária ao desenvolvimento muscular).

Um dos responsáveis do estudo, Gonçalo Vilhena de Mendonça, do Laboratório de Função Neuromuscular da Faculdade de Motricidade Humana, explicou à agência Lusa que a estratégia usada no jejum intermitente, salvaguardando um estado de hidratação ajustado, «resulta em benefícios do ponto de vista da resistência cardiorrespiratória que são materializados num aumento da potência aeróbia máxima, o que pode ser vantajoso para pessoas que pretendem melhorar o seu rendimento em modalidades como corrida ou ciclismo» ou até apenas perder massa gorda e que, neste caso, os resultados são potenciados pela prática do exercício em jejum. De ressalvar que neste estudo se abordam as vantagens do jejum intermitente no aumento de rendimento deste tipo de atividades (aeróbias), como a corrida e o ciclismo, e não todas as atividades.

O mesmo se aplica à prática do jejum intermitente em si, como programa alimentar. Embora já existam estudos e investigadores (como Mark Mattson, da Universidade John Hopkins) que apontam para outros benefícios relativamente à saúde, tais como a redução da pressão arterial, o controlo dos níveis do colesterol, melhorias a nível cardiovascular, e um possível retardar de doenças degenerativas relacionadas com o envelhecimento, os cientistas ainda divergem e muitos consideram ser necessários mais estudos em humanos para que se possam garantir esses benefícios. Há, por isso, uma coisa, em que convergem: em afirmar que nunca deve ser iniciado sem uma consulta com um especialista. Como em qualquer dieta, programa ou regime alimentar mais restrito (em alimentos ou horários), além de ser necessário estar atento ao que se come, no sentido de garantir a ingestão de todos os nutrientes necessários (como em qualquer dieta ou regime alimentar), é preciso garantir que quem o vai fazer está devidamente “autorizado” e acompanhado. O jejum não pode ser praticado por toda gente e há pessoas a quem está mesmo proibido por representar um perigo.