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Jovens querem «mudar a história dos ciganos»
16.04.2019
Durante séculos, a história do povo cigano em todo o mundo esteve assente em premissas que tornaram este povo muito fechado em si, marcado pelas suas tradições. As últimas décadas de presença cigana em Portugal têm sido pautadas, de forma justa ou injusta, por uma desconfiança geral e animosidade em relação ao povo cigano. Desde logo, a questão da falta de estudos dos ciganos, que conduz metade das crianças e jovens a um abandono escolar precoce (dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência), uma vez que o único horizonte que pareciam ter era «acompanhar os pais no seu trabalho de venda ambulante em feiras». Esse tem sido um dos fatores que contribui para esta má relação, juntamente com o facto de 60% viver de subsídios sociais, segundo um estudo do Alto Comissariado para as Migrações (ACM).


Mas estes são tempos em que tudo está a começar a mudar, em parte graças ao projeto OPRE – Programa Operacional de Promoção da Educação, uma iniciativa do Alto Comissariado para as Migrações em parceria com a Associação Letras Nómadas e a Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens.

O programa atribui bolsas de 1500 € a jovens ciganos que desejem entrar no ensino superior e está a iniciar a sua terceira edição. Bruno Gonçalves, da associação Letras Nómadas, é cigano, «com muito orgulho», e está a trabalhar para mudar o paradigma dos jovens ciganos na sociedade atual. «Os ciganos nunca precisaram de uma educação universitária alta para exercer a sua profissão de venda ambulante. Atualmente as coisas estão difíceis, a sociedade está competitiva e exigente, e há necessidade de a comunidade cigana partir para outra, ter alternativas que passam por um percurso de instrução», explica este responsável.

Foi por isso que se candidataram ao programa da Fundação Calouste Gulbenkian de cidadania ativa com um projeto que visava capacitar jovens que pretendessem entrar no ensino superior. «As coisas correram bem, com 15 participantes. Dos 15, 12 entraram no ensino superior, e a partir daí pedimos apoio ao Programa Escolhas a nível de bolsas. Foram pedidas 12 bolsas e o ACM e a Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade perceberam que era importante ter este projeto num programa de política pública. No primeiro ano, tivemos 25 jovens, 14 mulheres e 11 homens, e tivemos 82% de sucesso escolar. Na segunda edição, tivemos 32 bolsas, mas estiveram apenas 28 jovens, com uma taxa de 67% de aprovação, com alguns alunos que já estavam no segundo ano e outros que entraram de novo. Na terceira edição prevemos 35 bolsas, e creio que vamos conseguir atingir» esse número.

Mas este sucesso foi mais difícil do que parece à primeira vista, pois foi preciso derrubar muitas «barreiras», desde logo nas próprias famílias. «O problema não é só com a família, mas também com a comunidade onde vivem. E não é fácil, porque a censura interna é muito forte. As pessoas acusam-nos de já não serem ciganos, porque estão a estudar e fogem do padrão a que a comunidade estava habituada», critica.

Bruno Gonçalves é um dos responsáveis da associação Letras Nómadas
Um desses exemplos é José Oliveira Fernandes, Oli para os amigos. Veio de Lagos para estudar Engenharia Eletromecânica Marítima na Escola Náutica em Paço de Arcos, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa. Uma mudança de ambiente e realidade que nem sempre foi fácil de ultrapassar, ou sequer compreendida pelos seus pares. «Venho de uma família cigana, pai, mãe, avós, tudo. Os meus primos sempre viram em mim capacidade de estudar, mas nunca deram aquele apoio, era mais no sentido de “vem ter com a gente, diverte-te”. Agora dizem-me “ah, és dos ciganos modernos”, e sentimos aquilo a puxar-nos para trás, e ponderamos se estamos a agir bem com esta decisão.»

Hoje está no segundo ano do curso e já não se questiona tanto, nem sofre tanto com as acusações. «O que eles pensam é que sou menos cigano. Mas eu sinto-me mais cigano, porque estou a deixar a minha família orgulhosa, porque eles olham e veem um jovem que não deixou as suas raízes e ao mesmo tempo consegue estar a estudar. Os meus primos, as pessoas que não me conhecem, querem ser como eu, e por isso acho que estou a ser um orgulho, estou a ser mais que cigano, estou a conseguir ser cigano e ao mesmo tempo estudar», diz, com um sorriso.

Bruno Gonçalves adianta que muitos dos estudantes universitários tiram cursos na área social. «Eles consideram que é assim que mais tarde conseguirão ajudar a sua comunidade. Também temos estudantes de Direito, Desporto, um engenheiro eletromecânico, mas a maior parte está em Serviço Social, Animação Socioeducativa, educador social, muito nessa área social, porque também pode ser uma estratégia de alcançarem emprego futuro quando saírem, porque há efetivamente uma necessidade de termos técnicos ciganos a trabalhar com as comunidades», sustenta.

Oli acredita que esta iniciativa pode ajudar a mudar a «história dos ciganos». «Se estamos a mostrar que somos diferentes, que não somos ladrões nem vendemos droga, trabalhamos e temos cursos, e não precisamos de apoios sociais, estou a pagar a universidade como todos os outros, isso é um passo para mostrarmos às outras pessoas que nos estamos a tentar integrar», considera.

José Oliveira Fernandes, Oli para os amigos, estuda Engenharia Eletromecânica Marítima em Oeiras
Além disso, este jovem deixa duas sugestões para uma maior integração. «Nas escolas, quando somos pequenos, os ciganos são colocados de parte, e os miúdos crescem com essa mentalidade e deixam de gostar da escola, e saem. Depois, é a habitação social. As pessoas estão fartas de viver naqueles bairros onde só se pensa que não há escola, vivem todos com a mesma mentalidade e nunca vão ter a mentalidade de irem estudar», defende. Por isso, acha importante «ensinar os professores a dar educação aos colegas e aos próprios ciganos para os incentivar e não os deixar desistir, e depois não pôr todas as famílias em habitações sociais juntas, porque eles assim desistem ao ver os outros a desistir».
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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