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Just a change: Voluntários reconstroem casas e vidas
29.06.2021
Há centenas de casas, em Portugal, sem condições alvo de obras de reconstrução por voluntários. A associação Just a Change luta contra a pobreza habitacional, pondo a mão na massa literalmente. A FAMÍLIA CRISTÃ foi conhecer este projeto.
 
Sónia e a família em frente à casa que a associação Just a Change arranjou.

Em Portugal, 23% da população não consegue manter a casa quente, mais de 60 mil pessoas não têm água canalizada nem saneamento e mais de 30 mil não têm eletricidade em casa. Estes são dados do INE e um incentivo à ação da associação sem fins lucrativos Just a Change, que reconstrói casas de pessoas carenciadas. A organização estima que haja mais de 420 mil portugueses em pobreza habitacional, uma vez que o INE estima que seja 4,1% da população portuguesa a viver sem condições básicas como ter uma casa de banho, água canalizada, eletricidade, etc.

É o que está a acontecer com a casa de Sónia Gomes quando a visitámos. A habitação foi completamente destruída por um incêndio há sete ou oito anos. A família de Sónia já tinha saído de lá para mãe do marido, por a casa ser pequena. «Com o divórcio andei de canto em canto com os meus filhos», conta. Neste momento está a viver com o filho mais velho. «Somos oito pessoas em casa» e por isso, tem vários empregos para fazer face às despesas e poder «criar os filhos».

A situação não é fácil para esta mãe de quatro. Há muito tempo que pedia uma casa à assistente social que acompanha a família, porque apesar dos vários empregos não consegue pagar uma renda. Até que uma delas «deu a oportunidade de arranjar a minha casa». As obras começaram há três semanas e sempre que pode, Sónia passa por lá para ver como está. «Já conheci a equipa da manhã, a equipa da tarde. Eles fazem um trabalho magnífico como jovens. Não se vê em lado nenhum. Dão um bocadinho de si», afirma reconhecida.

Enquanto Sónia fala, os barulhos da obra vão-se ouvindo no estreito corredor em frente da habitação. Duarte Almeida é o coordenador da equipa. No total são cinco voluntários, acompanhados de um profissional. Duarte entrou no Just a Change há três anos, porque «sempre tive gosto por ajudar e fazer voluntariado. Conheci o Just e achei que com o trabalho em si não só vou ajudar alguém como vou aprender». Este estudante universitário de Engenharia Informática tinha experiência a ajudar os pais, avô e familiares na agricultura e em outros trabalhos. Com esta experiência aprendeu mais. «Acabamos por fazer tudo. Primeiro é partir a casa toda e isso é o mais fácil. Depois acabamos por ter de pôr cimento nas paredes, a massa, o chão, os acabamentos.» E como é que alguém que nunca fez este tipo de trabalhos reconstrói uma casa? «Quando entrei não sabia fazer a maior parte das coisas. O técnico ensina-nos», explica.

Voluntários "metem as mãos na massa", sob orientação de um profissional da construção civil.Os turnos são de quatro horas, manhã ou tarde e cada equipa tem cinco voluntários. Além dos projetos de curta duração ao longo do ano letivo, no verão há campos em que durante duas semanas, os voluntários vão para uma localidade e reconstroem as casas que precisam de obras e que são identificadas em colaboração com as juntas de freguesia e câmaras municipais. Os voluntários têm de ser maiores de idade e não há limites máximos, mas a esmagadora maioria são estudantes universitários.

Duarte já participou em oito projetos e diz que «é sempre melhor ter as pessoas beneficiárias connosco e muitas vezes também nos ajudam e trabalham connosco. Até o ambiente acaba por ser diferente. A motivação é outra». Este jovem conta que ficou marcado por uma obra em Torre Vedras e pela ligação com o dono da casa a quem ainda liga, ou à filha.

Ao contrário de Duarte, Rita Gomes está pela primeira vez numa obra como esta. Falamos com ela no segundo dia. «Ontem nem sentia os braços», diz, com os olhos a rir. «Descobri pelo Instagram e achei a iniciativa diferente do que já tinha feito como voluntariado, muito virado para o sentido social, fazer a diferença na vida de alguém.» A sua experiência neste tipo de trabalhos era pouca. «Pintei o meu quarto. Mas não me assustou muito, porque sabia que íamos ter uma equipa profissional a apoiar», afirma. Ao segundo dia, pôde conhecer a família que irá morar na casa em que está a trabalhar, quando Sónia, as duas filhas e um sobrinho visitaram o espaço. E isso é importante para si. «É muito bom conseguir associar a casa às caras que estamos a tentar ajudar. É bom para o coração.»

João Maria concorda. Já conhecia o projeto porque «muitos amigos e as minhas irmãs já tinham feito». No ano passado decidiu participar no campo de verão em Vila Pouca de Aguiar. «Identifiquei-me com o projeto e fiquei muito motivado», conta. Desde então já participou em várias obras. E porquê? «Sempre fui muito dado a voluntariado: Missão País, Comvidas, Just a Change. A maioria dos programas era nas férias de inverno. O programa do Just abriu a possibilidade de ser no verão. Fi-lo e é um dos voluntariados que mais gosto de fazer, porque é mais prático. É louvável do ponto de vista humano e aprendi coisas. Agora saio daqui e faço biscates lá em casa», conta a rir. Como quando a irmã mudou de casa e ele e alguns amigos do Just se juntaram para lhe pintar a casa toda. João Maria também mantém contacto com beneficiários, neste caso os pais de um. «Os pais viviam ao lado e o pai estava sempre na obra e fizemos uma ligação enorme.»

No início do projeto, os voluntários recebem um powerpoint com informação sobre os beneficiários e no final são informados da avaliação do impacto que a sua intervenção e a obra tiveram na vida das pessoas que vivem nas casas que transformaram.

O dinheiro para as obras vem de protocolos de intervenção com municípios e fundações locais, financiamento para atividades de voluntariado corporativo, campanhas, prémios e concursos a que a organização se candidata, fundos públicos para o desenvolvimento e inovação social e quotas de associados. Há também parceiros empresariais que fornecem material de construção e mobiliário. Sempre que é preciso fazer projeto envolvem-se engenheiros e arquitetos voluntários. Os beneficiários podem candidatar-se através da página de internet www.justachange.pt. Há casos que chegam também através de agentes locais. Depois a associação aplica os critérios para selecionar as casas que serão alvo de obras. Além da obra em si, há intervenção de Just a Change na sinalização e no acompanhamento posterior para promover o envolvimento de outros agentes locais e a coesão social.

Voluntários da Just a Change com Sónia e a família.A máscara não permite ver o sorriso, mas Sónia tem os olhos cheios de esperança. Lá dentro, as voluntárias varrem o chão. Depois será altura de pôr cimento, que já está a ser feito no exterior. As obras terminam no final da semana e Sónia já faz planos para as mudanças. «Tenho móveis e coisas minhas que pedi para guardarem na igreja estes anos todos. Já liguei para saber onde estão e como posso trazer para aqui…» Sónia entra na casa e vê as divisões. «Pensava fazer aqui a sala que é maior, mas adotei este meu sobrinho que vem viver connosco e se calhar vai ser o quarto dele», explica. «Aqui vai ser o das meninas», aponta. As duas filhas começam a imaginar a decoração daquele que será o quarto delas. «É a primeira vez que vão ter um quarto. Têm dormido no sofá», diz Sónia, a sorrir.

«Isto é a minha vida. Estou na minha casa. Vai ser a minha independência. Vamos continuar numa nova via. Vai ser recomeçar de novo.»
 

Impacto de Just a Change
A associação Just a Change nasceu em 2010. Desde então já foram feitas 262 intervenções (mais de 200 em casas de família e mais de 50 em instituições sociais reabilitadas), beneficiando mais de 4600 pessoas e através de mais de 5000 voluntários. Em 2020, 410 voluntários fizeram 40 obras, em 16 concelhos. No relatório de impacto, a associação revela que 88% dos beneficiários dizem sentir-se bem com a vida depois das obras, 66% afirmam ter saúde depois da intervenção e 55% dizem sentir-se seguros em casa.
 
Texto e fotografias: Cláudia Sebastião
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