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Kimlea, a «esperança de uma vida melhor na família»
23.07.2019
Francesca Gikandi, Frankie, como gosta de ser chamada, é a responsável por um projeto no Quénia que, em 25 anos, já ajudou 20 mil mulheres a lutarem por um futuro melhor e mais digno para elas e para as suas famílias. O Kimlea é um centro que ajuda a dar esse poder às mulheres, mesmo que continuem a ser os homens a liderar.
 
Como podemos descrever o Centro Kimlea?
Em resumo, Kimlea é um centro para o empowerment das mulheres e raparigas, para que fiquem autónomas e para ajudar a aumentar a qualidade de vida dessas pessoas, que trabalham nas plantações de chá e café naquela região.



Porque é que decidiram focar-se nas mulheres?
Desde o início focámo-nos em aumentar a qualidade de vida e a educação das mulheres no Quénia, porque, quando o projeto começou, a tradição era que os rapazes podiam ir para a escola, se houvesse dinheiro na família, mas as meninas deveriam ficar em casa apenas para crescerem e se casarem com um bom homem e deixar a sua família. Mas agora as coisas mudaram e todos são iguais, e temos de dar poder às mulheres para que cheguem aos mesmos níveis educativos que os homens, para que possam tomar conta da família.
 
Grande parte das famílias é sustentada pelo trabalho das mulheres, mas depois não são elas que lideram…
Essa é uma contradição interessante. Mas é verdade que a mulher no Quénia tem um papel muito importante na família, no sentido em que fazem o possível para deixar a família feliz. Tudo o que ganham, no seu trabalho, vem para casa e é usado para sustentar a família, ao contrário do homem. Não é que eles sejam maus, mas o que ganham no trabalho não trazem para casa. As mulheres trabalham para o bem da família, mas os homens não gostam que lhes peçam o seu dinheiro para sustentar a família. Ao mesmo tempo, são os homens os chefes de família, e as mulheres respeitam isso.
 
Já ajudaram mais de 20 mil mulheres e raparigas em 25 anos. Qual é a vossa taxa de sucesso?
Destas 20 mil mulheres, 75% têm empregos estáveis ou pequenos negócios, e têm uma vida melhor do que quando trabalhavam nas plantações. Há muitas histórias bonitas de sucesso.
 
Como reagem as empresas que gerem as plantações a este “crescimento” das mulheres e ao trabalho do centro?
No início tentámos intervir para procurar que as empresas pagassem melhor aos seus empregados, mas elas foram contra isso. As pessoas que trabalham ali estão deslocadas, vêm das zonas rurais à procura de melhor emprego na cidade. Este é um movimento constante, e há sempre pessoas que vêm para a cidade. Portanto, não lhes falta mão de obra barata. As mulheres que fazem formação connosco saem das plantações porque arranjam outros empregos, mas são substituídas de imediato. E se se queixam do salário que recebem, as empresas dizem que elas se podem ir embora, porque arranjam um substituto. É uma luta constante.
 
Como é que os maridos reagiram a este empowerment?
Isso é interessante [risos]. Ao início, os homens estavam contra as mulheres frequentarem as aulas do centro Kimlea, porque lhes ocupava tempo. Mas quando começaram a ver os resultados do que elas aprenderam ficaram muito contentes. Por exemplo, uma mulher vem a três aulas de culinária, põe em prática em casa o que aprendeu, o homem vê que a comida está melhor e fica satisfeito. A casa fica mais limpa, e ele começa a incentivar a mulher a participar nas nossas formações.
 
Mas quando a mulher começar a fazer outras exigências, de igualdade, como é que os homens vão reagir?
Tradicionalmente, a mulher africana submete-se muito facilmente ao marido. Assim que percebe que o marido não quer ser questionado, ela simplesmente não questiona, e afasta as discussões. Ela pode exigir, mas quando percebe que pode provocar fricção cala-se e deixa o homem ir, e voltar quando quiser.
 
Mas isso não resolve o problema da família…
É verdade, não resolve. Por vezes, quando a mulher não faz muitas perguntas, e o seu rendimento já permite sustentar a família por completo, o homem sente-se ainda mais no direito de sair de casa durante mais tempo, deixando-a sozinha a sustentar os filhos, sejam eles quantos forem. Esse é um problema, mas as mulheres perseveram durante muito mais tempo e dificuldades do que o homem. Eles têm vergonha de dizer que não têm dinheiro e preferem partir. Mas a mulher consegue fazer isso.
 
Quais são os negócios de maior sucesso que saíram do Kimlea?
Os melhores são os cursos de culinária, porque podem mais tarde fazer catering em eventos ou empresas. Estes são os melhores, mas há outros bons, como bancas nos mercados para venderem produtos que outras famílias procuram e necessitam.
 
 
Este é um excerto da entrevista. Pode lê-la na versão integral na FAMÍLIA CRISTÃ de fevereiro.
Entrevista conduzida por Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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