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Líbano, o drama esquecido
06.03.2020 10:23:00
Desde o início da guerra civil na Síria e dos confrontos no Iraque que o Líbano tem sido fustigado com a entrada massiva de refugiados que fogem destes conflitos. A Europa queixa-se de uns milhares de refugiados que lhe batem à porta, e opta por ignorar que em países como o Líbano (países, não continentes), não são milhares, são milhões de refugiados que enchem o país.

Durante os últimos 7 a 8 anos, mais de 1,5 milhões de sírios e iraquianos encheram um país que tinha pouco mais de 3 milhões de habitantes. Acho que, na Europa, ninguém imagina o que isto é, porque nenhum país recebeu, ou sequer estaria disponível para receber um tão grande número de refugiados. Isto resultou num caos que foi sendo mitigado com a intervenção de várias organizações, que procuraram ajudar a manter o país organizado e em paz. Mas o tempo passou e as dificuldades fazem sentir-se hoje, mais que nunca.

Depois de deixarmos de ter os refugiados no centro da atenção mediática, surgem, de forma discreta, relatos de uma situação dramática que se vive no país. Uma religiosa portuguesa no terreno, a Ir. Myri, fala de um país onde os bancos já não permitem levantar dinheiro, e onde começam a faltar bens essenciais, e onde confrontos pedem a queda de um governo que se aponta agora como corrupto e ineficaz. O peso social de uma tão grande quantidade de refugiados faz tremer um país que era estável, onde há uma liberdade religiosa invulgar para aquela zona do mundo, e ameaça conduzir mais um país para o caos de uma guerra civil onde quem perde são sempre os mesmos inocentes. Agora, falta a luz e o acesso a bens essenciais é cada vez menor. A Ir. Myri conta que uma família viu-se obrigada a queimar roupa antiga para conseguirem aquecer a casa onde vivem com uma filha deficiente, uma situação inacreditável.

Infelizmente, o mundo desenvolvido, que tem ignorado o drama dos refugiados, continua a ignorar os dramas que ainda hoje se vivem no Médio Oriente. Sejam as dificuldades no Líbano, sejam os bombardeamentos em Idlib, na Síria (esperemos que o cessar-fogo seja levado a sério, desta vez).

O mundo continua em guerra, continua a haver dramas incríveis e inacreditáveis, mas a onda já passou e já todos se esqueceram dos que sofrem. Bom nem todos, porque, como em muitas alturas da história, a Igreja continua lá, não apenas a denunciar as situações, mas a trabalhar no terreno, onde muitas vezes não existe mais nenhuma organização, a procurar trazer algum alívio ao sofrimento destas pessoas. E é uma pena que os elogios e os louvores a este trabalho único da Igreja em muitas partes do mundo não encontre o mesmo eco que encontram os problemas que a Igreja passa, ou provoca sobre si mesma, em outras partes do mundo…