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Longe dos olhos longe do coração?
02.07.2018
Na minha cabeça paira ainda um estudo citado pela professora Teresa Medeiros, da Universidade dos Açores, durante o colóquio Ageing Futures, no Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa. Dizia ela que nesse tal estudo se tentava perceber como as pessoas perspetivavam a sua família no futuro. E, aí, viam-se casados, com filhos, cães e gatos… Muito poucos, quase nenhuns viam os seus pais velhinhos a fazer parte da família.

Chocante? Eu diria que é um sinal dos tempos que vivemos. Deixou-me a pensar que a sociedade portuguesa mudou muito nas últimas décadas e isso influencia e molda o nosso pensamento.

Quando eu era miúda, a minha mãe não trabalhava fora de casa. As mães das minhas amigas também não. Cuidavam da casa, dos filhos, da agricultura e dos animais. Quando os pais ou algum familiar envelheciam ou ficavam doentes, eram elas quem cuidava deles. Quando a minha avó ficou muito velhinha e já não conseguia viver sozinha, os nove filhos decidiram que ela passaria a viver na casa deles. Assim vi acontecer.

Na minha casa, muitas vezes, era eu quem dormia com a minha avó. Com ela aprendi muitas orações, lengalengas e as cantigas que os bandos de rapazes e raparigas cantavam nas eiras durante as desfolhadas do milho. Foi a única avó que conheci. Morreu em 2000, e ainda hoje me lembro do cheiro dela. Era da minha família e vivia, às vezes, na minha casa.

Vi também a minha mãe cuidar de uma sua irmã, minha madrinha, tetraplégica depois de uma operação. Antes lanchávamos juntas quase todos os dias. Depois, lembro-me de ir levar-lhe a casa, onde continuou a viver, o café que ela tanto gostava, adocicado com as novidades da aldeia. Era ela quem as sabia todas, fruto das muitas visitas que tinha.

Muita coisa mudou na sociedade e nas famílias. Hoje, eu e todas as minhas amigas trabalhamos fora de casa. Se os pais ou sogros ficam doentes, é preciso usar férias. Se a doença for prolongada, não há férias que cheguem e a solução passa, muitas vezes, por lares de idosos ou outras formas de institucionalização. Quanto sofre quem se vê neste dilema… O mesmo Estado que prevê assistência à família paga pela Segurança Social para filhos ainda não percebeu que os nossos cônjuges e pais também são família e precisam de assistência.

Assim, muitos dos nossos idosos e doentes ficam afastados dos nossos olhos e da sociedade. As nossas crianças habituam-se a ver os idosos e doentes a viver em hospitais, lares de idosos ou outros locais. Não fazem parte do nosso dia a dia, embora estejam bem presentes no nosso coração. O que é habitual passa a ser normal e comum. Como mudar isto? Não tenho soluções mágicas, mas sei que o Estado devia começar por dar um sinal. Numa sociedade envelhecida como a nossa, é preciso criar condições para o acompanhamento de idosos e doentes por parte das famílias. Talvez pudesse ser um bom primeiro passo.