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Luta pela supremacia global: Joe, Xi, Vlad e os outros
02.06.2021
Os Estados Unidos têm um novo presidente, e não podia ser mais diferente do anterior. Contudo, isso não quer dizer que a política externa norte-americana mude completamente - pelo menos não no que realmente interessa. O que interessa, agora como antes, é travar a ascensão económica e militar da China e parar as tentativas russas de minar as democracias do Ocidente.

Longe vão os tempos em que o presidente dos Estados Unidos da América (o anterior, claro está) se proclamava admirador de Vladimir Putin e amigo de Xi Jinping. Sobre o primeiro, o atual inquilino da Casa Branca foi taxativo. Quando lhe perguntaram numa entrevista se achava que o presidente da Rússia era «um assassino», Joe Biden disse: «Sim, acho.»

Biden não acha que haja qualquer equivalência moral entre os Estados Unidos e a Rússia e, já agora, entre os Estados Unidos e a China. Para o presidente dos EUA, o líder chinês, Xi Jinping, é um «tipo muito, muito esperto» que partilha com Putin a ideia de que «a autocracia é a onda do futuro e que a democracia não funciona». 

A opinião do presidente norte-americano sobre essa mundividência sino-russa é validada pelos desenvolvimentos políticos e diplomáticos mais recentes. A China e a Rússia, tradicionalmente inimigos ou, quando muito, aliados céticos e muito temporários, têm-se aproximado bastante nos últimos anos. Numa visita recente a Pequim, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo negociou com o governo chinês a implementação de um sistema de pagamentos internacionais que permita aos dois países depender menos do dólar americano. Sergei Lavrov declarou «mortas» as relações do seu país com a União Europeia e deixou bem claro que Moscovo está a substituí-la rapidamente pela China. 

Chineses e russos atribuem a sua aproximação crescente ao facto de estarem a ser alvo de políticas cada vez mais agressivas por parte do Ocidente, e dos Estados Unidos em particular. Essas políticas, pelo menos em parte, já vêm do tempo da administração Trump. 
 
Os EUA contra-atacam 
O executivo norte-americano, e em particular as suas forças armadas, nunca deixaram de se precaver contra a Rússia. Exemplo disso é o reforço significativo da presença militar norte-americana na Europa de Leste que aconteceu após a invasão da Crimeia e a guerra civil na Ucrânia. Se, por um lado, Trump bradava contra a NATO e os seus aliados, deixando no ar a ameaça de que os EUA poderiam não defender a Europa em caso de ataque, pelo outro, o exército norte-americano punha forças blindadas na Europa pela primeira vez em cerca de 20 anos e iniciava um plano de construção de novas bases na região. Joe Biden não só vai manter esta postura e reforçá-la, como está disposto a levar o enfrentamento para outro patamar. O presidente dos EUA acha «há uma batalha entre a utilidade das democracias no século XXI e as autocracias». Essa batalha tem de ser vencida e «temos de provar que a democracia funciona», propõe o presidente.

Isto está já a traduzir-se em políticas concretas. As sanções económicas contra a Rússia por causa do envenenamento do líder oposicionista russo, Alexander Navalny, foram reforçadas e outras já estão a ser preparadas por causa da reiterada interferência de Moscovo nas eleições presidenciais norte-americanas e de outras ações contra os EUA.

Joe Biden já falou ao telefone duas vezes com Vladimir Putin e deixou bem claro que os EUA não tolerarão mais tentativas de anexar território ucraniano. Perante movimentações militares russas junto à fronteira com a Ucrânia no final de março e no início de abril, o presidente reiterou ao seu homólogo russo «o compromisso inabalável» dos Estados Unidos em proteger a integridade territorial ucraniana.

Para tal, é necessário que a NATO esteja a funcionar bem. Depois de 4 anos de destruição sistemática dos laços transatlânticos por parte de Donald Trump, o novo secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, aproveitou a sua primeira reunião com os aliados para expressar «o empenho firme dos Estados Unidos na NATO» e garantir que a nova administração quer «reconstruir as nossas parcerias, e em primeiro lugar com os nossos aliados da NATO».

Este esforço de recuperação de alianças é bem visível noutra parte do mundo: a Ásia-Pacífico. O adversário, para não dizer inimigo, é a China.
 
Anel de aço
Os Estados Unidos têm plena consciência de que o seu grande adversário económico, político e militar no futuro previsível é a China. Nos dois lados do Atlântico, aumenta a consciência de que a China está a tornar-se na primeira potencia económica mundial à custa dos Estados Unidos e da Europa. A sua enorme capacidade industrial exportadora, que lhe permite-lhe acumular enormes reservas financeiras, só existe porque americanos e europeus compram avidamente os seus produtos de baixo custo. Graças a isso, o setor industrial europeu e norte-americano foi devastado nas duas últimas décadas, criando desemprego, instabilidade social e um clima propício ao aparecimento de forças políticas extremistas.

Biden sabe que esta relação tem de ser reequilibrada em favor dos Estados Unidos, e toda a ajuda é pouca, tanto mais que Pequim começa a mostrar uma agressividade militar significativa nas suas zonas fronteiriças. Além dos seus aliados europeus da NATO e da União Europeia, os EUA procuram trazer para o seu lado países chave da Ásia e da Oceânia, como o Japão, a Índia e a Austrália. O Diálogo de Segurança Quadrilateral, conhecido como Quad, pode ser o embrião de uma aliança regional que visa conter as ambições da China, sejam elas no domínio territorial ou económico.

A mensagem é clara e foi dada em Anchorage, no Alasca, num encontro acalorado entre os principais responsáveis pelas diplomacias de Washington e Pequim: os Estados Unidos não vão fugir do conflito, seja ele verbal ou militar, com a China.
Chamem-lhe uma nova Guerra Fria, se quiserem. Se não é, bem parece.