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Lutar pelo direito de salvar vidas
19.06.2019 13:09:00
Tem sido notícia por estes dias o eventual processo em tribunal colocado pelo estado italiano a Miguel Duarte, um português que, durante um ano, esteve a bordo do barco Iuventa a ajudar a resgatar pessoas que arriscavam a sua via a atravessar o Mar Mediterrâneo em direção à Europa. Pessoas. Antes de mais, são pessoas, seres humanos. Depois de pessoas, poderão ser refugiados, migrantes ilegais, o que bem entenderem. Mas, antes de mais, são pessoas. E o Estado italiano, pelos vistos, tem algo contra o salvamento de pessoas que se encontravam em perigo de vida. Bom, na verdade, eles alegam que o problema está no facto de este barco ter estado a ajudar as redes de tráfico humano, o que é ainda mais incrível.

Tudo isto é política, tudo isto é consequência da visão de extrema-direita que se vai apoderando do quotidiano em Itália. Admitir que há pessoas que podem morrer apenas e só porque não as queremos deixar seguir às nossas costas é algo de inexplicável. Não compreendo como é que haja pessoas que o defendem, quanto mais que haja pessoas que estejam dispostas a castigar aqueles que os salvam. O mundo que temos é mesmo estranho, por vezes…

Claro que, por ossos do ofício, é preciso olhar para as coisas sobre os dois pontos de vista. Se, por um lado, é inadmissível que se impeça alguém de salvar pessoas que se preparam para morrer afogadas, ou se impeça alguém de ser acolhido num centro de refugiados, mesmo que seja um migrante e que seja mais tarde reconduzido ao seu país de origem, por outro lado é inadmissível que os países como a Itália tenham sido deixados quase sozinhos a gerir toda esta questão dos refugiados.

A União Europeia nunca assumiu o seu papel de verdadeiro apoio a estes países, e permitiu que este sentimento de desconforto em relação à questão dos refugiados e migrantes se alastrasse e permitisse o surgimento de partidos de extrema-direita no poder que, com estas atitudes, pretendem acabar com o fluxo de gente que lhes chega às costas, mesmo que isso implique deixá-las morrer no meio do mar…

Sim, é preciso uma ação concertada de todos os países da União Europeia no acolhimento destas pessoas, na triagem de quem é refugiado e tem de ser integrado, e quem é migrante e pode não ser integrado, por não haver condições. E países como a Itália, a Grécia e até a Turquia precisam de se sentir acompanhados nisto. E sim, assuma-se, há migrantes que, depois de salvos, têm de ser reconduzidos aos seus países.

Tudo isto para chegarmos à perceção de que não é possível continuarmos a deixar morrer pessoas no Mar Mediterrâneo, e que voluntários como o Miguel, que dão da sua vida para ajudar a salvar outra vidas, merecem ser louvados em vez de processados.