Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Mafalda Ribeiro: «Fui planeada exatamente como sou»
27.02.2019
Mafalda Ribeiro nasceu com osteogénese imperfeita, a doença dos ossos frágeis. Até aos 14 anos fez mais de 90 fraturas. À nascença, diziam que duraria no máximo algumas horas. Hoje tem 35 anos e descobriu a sua missão nesta vida: faz palestras, conferências e quer mostrar a todos que o amor salva e não há impossíveis.
 


Osteogénese imperfeita, como foi este início de vida da Mafalda e o início da vinda da Mafalda a este mundo?
Segundo os meus pais, os médicos, os enfermeiros, a minha vinda foi tumultuosa, um furacão. Eu não olho para isto desta maneira. A minha mãe fez sete ecografias durante a gestação e eu nasci com uma doença chamada osteogénese imperfeita. Eles eram jovens, casados de fresco. Eu era a primeira filha e a minha mãe tinha um fetiche e não queria saber o sexo da criança. Ela queria tanto uma surpresa que saiu-lhe logo um Kinder Surpresa. [risos] Não só teve a surpresa do sexo como a do diagnóstico que foi logo um prognóstico.
Não acredito que cientificamente ninguém tivesse notado nada nas sete ecografias. Acho é que os médicos acharam que ia acontecer aquilo que acontece, segundo os estudos científicos, às pessoas com osteogénese imperfeita que é não aguentam uma gestação sequer. E quando conseguem, há 35 anos, os estudos provavam que o bebé esteve vivo só horas. Depois, à medida que esses prognósticos iam sendo contrariados, eles deixaram de fazer prognósticos. A verdade é que eu não morria.
 
No hospital, passaram-se coisas estranhas como a sugestão ao seu pai para a deixar lá e levar outra bebé para casa…
O meu pai percebeu que ninguém estava a acreditar em mim. Eu não tinha mais problema nenhum, era só mesmo um problema de fragilidade dos ossos. Os médicos estavam a deixar-me à fome. Secaram o leite à minha mãe porque eu nunca ia mamar. O meu pai alertou toda a gente para tentar perceber o que se estava a passar ali. «A minha filha não está a morrer. Estão a matá-la.» Teve de assinar um termo de responsabilidade para me levar para casa. Toda a gente a dizer que ele era louco, porque eu não ia aguentar sequer a viagem de carro.
Os meus pais fizeram aquilo que ainda hoje me mantém: primeiro aceitaram-me, amaram-me tal qual como eu era, e entraram um bocado naquele registo “ela pode durar dois ou três dias ou pode durar um ano, mas o tempo que ela cá estiver foi a filha que nos foi dada e é esta que eu vou levar para casa para cuidar e para amar”.
Aquelas coisas todas como trocar a fralda, fazer massagens quando há cólicas que se tem de encolher as perninhas – se me fizessem isso, eu partia-me… E mesmo assim eles arriscaram. E acho que aquilo que me colou naquela altura e que me mantém a pessoa com coragem e com audácia que eu acredito que sou hoje foi aquele princípio.
 
A Mafalda disse que os seus pais aceitaram a filha que lhes foi dada. Recentemente lançou também o projeto Sorrir sobre Rodas. Sei que há aí um papel importante da fé. Qual é?
Eu venho de uma família extremamente católica e praticante. A minha mãe foi catequista durante muitos anos.
Quando olho para a fé, vejo muito as coisas como a visão da esperança e do que eu quero ver a acontecer como destino. Os meus pais viam mais a fé que os ajudou a aceitar. Eu fiz mais de 90 fraturas até aos 14 anos. A nossa vida era passada em hospitais, eu com um braço partido ou uma perna partida ou as duas coisas. Acho que a fé foi muito importante para não se revoltarem.
O meu pai conta isto: «Toda a gente dizia que tu ias morrer e eu olhava para ti na incubadora e os teus olhos estavam megavivaços. Algo me estava a dizer que tu ias viver.» Então, acho que este lado um bocado primitivo e até abrutalhado da fé foi aquilo que eles sempre viveram. Eu chamo a isto o diamante não polido da fé.
Mais tarde, com as escolhas que fui fazendo na vida, percebi que isso foi importante para eu própria não me revoltar. Eu não tive os problemas típicos dos adolescentes e eu tinha motivos para os ter. Costumo brincar a dizer que nunca tive a idade do armário porque eu cabia numa gaveta e mesmo assim nunca foi preciso. [risos]
Para mim, lidar com a aceitação, com o “para quê”, com esta história de Deus, é muito como eu lido com os meus amigos. Tem de ser uma coisa prática, tem de ter um efeito na minha vida e tem de dar trabalho. As pessoas acham que é só nós pedirmos coisas e temos o génio da lâmpada mágica que nos manda coisas, e se não nos manda coisas é porque é mau e não se preocupa connosco… Ou então temos uma fé de McDrive, e isso irrita-me solenemente porque o desafio é quando tudo está mal ou quando nada faz sentido nós confirmarmos que há alguma coisa que rege a nossa vida. E foi isso que eu fui aprendendo a fazer ao longo do caminho.
 
 
E como se explica isso a quem não tem fé? Quando fala em palestras em escolas em TEDx não são todos crentes.
Eu pertenço à comunidade do mundo e à comunidade das pessoas. E acho mesmo que o meu chamado e a minha missão quando falo às pessoas, eu vim para falar às pessoas todas, não é aos deficientes. Se calhar há pessoas que não têm nenhuma deficiência diagnosticada e têm dores muito mais profundas do que uma pessoa que anda numa cadeira de rodas ou que é surda ou cega. Isso primeiro fez-me segmentar estas coisas.
Depois: ter consciência de que só posso perceber o “para quê” se souber quem é que eu sou e o que faço aqui. Daí a tal história da procura e de perceber isto como um planeamento. Eu fui planeada para vir aqui, exatamente como eu sou num ato mega Picasso de Deus naquela noite ou dia. [risos]
O Marshall McLuhan dizia que o meio é a mensagem e eu acredito que eu sou o meio exatamente como sou para transmitir esta mensagem e não acho que a mensagem fosse tão bem passada se eu viesse de outra maneira. Quando se tem consciência disto, é uma responsabilidade muito grande porque eu tenho dezenas e centenas de vidas de pessoas à minha frente.
Como é que se explica? Eu dou muito de mim. Conto histórias reais e como é que eu lidei com elas. Depois, acho que é importante eu ter sempre a humildade de morrer todos os dias um bocadinho mais para mim própria e perceber que é difícil que as pessoas olhem para isto se eu for racionalizar muito.
Passar-lhes consciência, passar-lhes essencialmente consistência. Gosto muito de olhar para tudo com a convicção de que hoje pode estar mal ou não estar como eu queria, mas é porque a seguir vem algo muito melhor e eu vou perceber o porquê de estar assim.
 
Diz que é o meio para passar a mensagem. Que mensagem é a Mafalda?
A mensagem é que não há ninguém que esteja cá que não tenha uma missão a cumprir. Acho mesmo que não há acasos. Não há mesmo impossíveis a partir do momento em que estamos aqui. Para mim a mensagem que vai mover sempre o mundo é o tal amor incondicional d’Aquele que nos amou primeiro. É mesmo o amor de Deus por nós, espelhado e desdobrável no tal amor que ainda é muito difícil de nós conseguirmos viver uns com os outros. A solidariedade não existe, ou a cidadania está escassa ou o respeito ao outro está completamente nas lonas, porque nós não conseguimos viver «ama o próximo como a ti mesmo». Eu acho que esse mandamento é a minha maior mensagem. O difícil disto tudo é que Jesus não nos mandou tolerar as outras pessoas. Ele mandou amar, que é uma cena muito chata de fazer. [risos]
Aquilo que passa um bocadinho naquilo que me foi acontecendo na vida é olhar para as coisas todas com muita gratidão.
 
Falou há bocadinho de não ter medo do que as pessoas pensam ou de olharem para si. Todos já ouvimos frases do género “Ah, mais valia que Deus o levasse” ou “era melhor que não tivesse nascido”. Alguma vez ouviu isso?
Sim, as coisas mudaram um bocadinho a partir do momento em que me tornei mais mediática. Agora já não sou a coitadinha do tamanho “será que nasceu assim”, mas sou a menina da televisão.
Fui-me habituando a defender disso, a criar uma espécie de papel celofane à minha volta e encarar estas reações como bolas de pingue-pongue que batem e voltam para trás. Uma vez ouvi essa frase… «Mais valia que Deus a levasse.» E essa foi para mim a mais dura exatamente porque isso podia ter o efeito de vir remexer no meu era uma vez, quem é que eu sou e quem é que eu sou aqui, mas também na finalidade da minha existência. Ou seja, “o que é que eu estou aqui a fazer? Nada! Mais valia que Deus me levasse”. Como é que alguém que não me conhecia tinha a veleidade de avaliar? Eu era adolescente. Fez com que eu olhasse para tudo com uma força maior de provar às pessoas que se calhar a ideia de Deus nunca foi levar-me. Pelo contrário: Ele mandou-me cá para fazer qualquer coisa.
 


Essa frase é usada, muitas vezes, em casos de pessoas que estão muito doentes, por exemplo. O que pensa sobre a eutanásia e sobre o aborto?

Sou totalmente contra tanto o aborto como a eutanásia. Acho que se estão a inverter as prioridades. Não podemos discutir uma coisa destas como solução para uma crise de valores que toda a sociedade está a ter.
É óbvio que a questão do aborto é mais natural que eu tenha uma postura contra. A minha mãe dizia que a pergunta mais difícil que eu fiz, aos cinco anos, não foi “mãe, de onde é que vêm os bebés?”, foi “mãe, se soubesses que eu nascia deficiente fazias um aborto?” Portanto… só de imaginar, independentemente do que eu passei, que os meus pais tinham decidido se soubessem que eu vinha… Acredito que há pais que acham que não aguentam este peso. Mais facilmente eu ligo muito mais a pessoas que humildemente dizem “eu sentia-me fraca para lidar com isto” ou “francamente eu financeiramente não podia” e dão o bebé para adoção do que tomar a decisão de acabar com a vida porque acha que não vale a pena.
Há pessoas que não compreendem eu ser contra a eutanásia, porque vivo a vida inteira com uma incapacidade, tenho dores físicas permanentes e não sei o dia de amanhã. Há pessoas que dizem «eu não tenho medo de morrer, tenho medo é de sofrer». Eu não tenho medo de sofrer, porque vivi com dores a vida inteira. Eu quero é ter a certeza de que marquei a vida das pessoas e que eu fiz aquilo que me foi confiado a fazer.
Eu sou contra, mas num país como este primeiro resolvam a questão dos cuidados paliativos e depois venham-me falar na eutanásia.
 
Texto: Cláudia Sebastião
Fotos: Ricardo Perna
 
Este é um excerto da entrevista publicada em fevereiro de 2019. Para a ler na íntegra, compre ou assine a Família Cristã.
Continuar a ler