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Médico avisa que surto de COVID-19 na Síria vai ser «banho de sangue»
24.04.2020
Com apenas 43 casos conhecidos, e 3 mortes, a Síria é um dos países que apresenta uma menor taxa de infeção em todo o mundo. No entanto, este país, destruído por uma guerra civil que dura há nove anos e que só agora viu um cessar-fogo, no âmbito da pandemia COVID-19, entre o presidente sírio e as forças rebeldes negociado pela Rússia e pela Turquia, não está a salvo de uma epidemia que possa já estar no meio da sua população, uma vez que, segundo informações recolhidas no terreno, a percentagem de testes à população estar a ser quase inexistente.

O Dr. Nabil Antaki (Foto ©Fundação AIS)
Esta é a opinião de Nabil Antaki, um dos médicos que trabalha em Aleppo, e que é colaborador da Fundação AIS num projeto de distribuição de leite a crianças. Em entrevista à France 24, este médico refere que, apesar de «termos suficientes máscaras» e de «o álcool gel ser produzido localmente», a probabilidade de um surto é ainda muito real. «O verdadeiro problema aqui é a prevenção: as pessoas usam máscaras, usam soluções desinfetantes, mas não há distanciamento social. No Médio Oriente, as pessoas gostam de estar juntas. Mesmo que tudo esteja fechado, eles ficam lado a lado à frente das padarias e lojas. Eles não conseguem aplicar esta regra. Eu digo-lhes: "Não faz sentido colocarem máscaras e usar gel se estiverem ao lado um do outro"», lamenta.

Isto faz aumentar o risco de infeção, uma vez que, citado pelo site AsiaNews, afirma que não há «uma política nacional de triagem» e «apenas as pessoas com os sintomas mais graves da doença são testados», pelo que este médico suspeita que «o número de pessoas infetadas pelo coronavírus é maior do que as estatística oficiais».

Para o Dr. Nabil Antaki, se a epidemia vier a alastrar, tornar-se-á evidente a falta de equipamento hospitalar para o tratamento dos pacientes e isso poderá transformar-se num desastre. «Se enfrentarmos uma crise tão séria quanto a Europa ou os Estados Unidos, não teremos camas nem ventiladores para cuidados intensivos suficientes. Quando há uma epidemia, em cada 100 pacientes, 10 precisam ser hospitalizados e entre 5 e 6 precisam de ventiladores. Se houvesse 1.000 casos de Covid-19 em Aleppo, isso significaria que entre 50 a 100 pessoas precisariam de um ventilador. E não temos 100 em hospitais públicos ou privados. A OMS forneceu alguns e o Papa ofereceu cerca de 10 à Síria a semana passada. Mas se houvesse um surto grave, haveria um banho de sangue», avisa.


Muito preocupados com a situação no nordeste do país está a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). No seu site, informam que que estão a trabalhar «em colaboração com as autoridades locais de saúde e outras organizações no nordeste da Síria para se prepararem para o aumento de pacientes infetados com COVID-19 na região».

A responsável pela resposta médica de emergência no terreno da MSF, Crystal van Leeuwen, afirma que estão «profundamente preocupados com a falta de testes de laboratório, a ausência de rastreamento de contatos, a capacidade inadequada do hospital para gerir pacientes e a disponibilidade limitada de equipamentos de proteção individual». «A resposta no nordeste da Síria neste momento não é suficiente», e pede «um aumento significativo na assistência de organizações humanitárias, de saúde e doadores».

De acordo com as autoridades locais de saúde do nordeste da Síria, houve um paciente confirmado com COVID-19 na região, cujo resultado ao teste apenas surgiu apenas duas semanas depois. «Quando os resultados foram recebidos, o paciente faleceu», refere a organização. «A falta de capacidade de teste confiável e oportuna na região torna quase impossível detetar casos num estágio inicial, dificultando significativamente a capacidade de retardar a transmissão nas comunidades no início, quando é mais importante», acrescenta van Leeuwen.

Os campos de refugiados são uma preocupação, mas até à data não foram registados casos. No campo que os Maristas, organização católica a que pertence o Dr. Nabil Antaki, têm a cerca de 20 kms de Aleppo, a distribuição de alimentos faz-se «com distanciamento de 3 metros». «Tomamos as nossas preocupações», refere, até porque um surto nos campos de refugiados seria muito difícil de conter.

A MSF dá assistência a um campo de refugiados em Al-Hol, onde a situação está muito difícil, porque as pessoas vivem «em espaços apertados, com pouco ou nenhum acesso a serviço médicos ou água limpa». «No campo de Al-Hol, onde a MSF começou a prestar assistência médica e humanitária em janeiro de 2019, o campo superlotado abriga agora cerca de 65.000 pessoas, das quais nenhuma tem permissão para sair. Noventa e quatro por cento deles são mulheres e crianças», relatam, no seu site.

Sobre a situação do país, que, para além da guerra, sofre de sanções económicas colocadas pelos países mais desenvolvidos, Nabil Antaki é claro. «Eu luto pelo levantamento das sanções há anos. São injustas, ilegais. Para nós, é um crime contra a humanidade, conforme definido pela Convenção de Genebra. É uma punição coletiva infligida a uma população civil. Não diz respeito aos líderes do país, mas aos 23 milhões de cidadãos sírios que não podem importar nada ou fazer transações financeiras», critica.

Por isso, há um mês, um grupo de ONG europeias enviou uma carta aos ministros das Relações Exteriores francesas, americanas, britânicas e alemãs pedindo o levantamento das sanções. «Com a crise do Covid-19, há razões adicionais e reiteramos essas mensagens para os governos ocidentais. As sanções não vão acelerar o processo de paz, não vão derrubar o governo. Essas sanções servem apenas para ferir a população civil da Síria».
 
Texto: Ricardo Perna (com France 24 e site da MSF)
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