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Memórias de uma ordenação com Paulo VI
11.10.2018
Durante o pontificado de Paulo VI, o Papa que irá ser canonizado este domingo, houve pelos dois momentos em que se realizaram ordenações sacerdotais de diáconos vindos de todo o mundo. É habitual o Papa presidir a ordenações, mas nunca nestes números. «Foi uma grande celebração que começou às 16h e terminou às 00h. Éramos 359 diáconos, a maior ordenação presbiteral que se conhece na história da Igreja, porque não é comum ordenar assim sacerdotes de todo o mundo e com um número tão grande como foi aquele», lembra o Pe. Mário Santos, paulista, que recebeu o convite do seu superior geral para ser ordenado em Roma, com o Papa.

Imagem das ordenações presbiterais de 1975, onde foi ordenado o Pe. Mário dos Santos
A razão para tamanha ordenação prendia-se com a celebração do Ano Santo de 1975. «Acontecia o ano santo de 1975 e, a 29 de junho, aniversário da tomada de posse do Papa, o Vaticano organizou uma concelebração de ordenações presbiterais com diáconos de todo o mundo, como graça para oferecer ao Papa. Eu estava a estudar em Lisboa, e nosso superior geral escreveu-me a dizer que havia esta possibilidade e eu fui para Roma. Foram convidados todos os diáconos que quisessem aparecer. De Portugal fui eu e um outro da Consolata, que agora está em Braga», lembra o Pe. Mário.
 
Sobre o dia, e para além do tempo que demorou a ordenação, o Pe. Mário lembra o único contacto que teve com o Papa. «Não tive nenhum contacto especial, a não ser quando ele me impôs as mãos e quando, no abraço da Paz, nos abraçámos. Lembro-me que ele estava muito direito, ele era um político e diplomata, e eu estava entusiasmadíssimo, como é natural (risos), e lembro-me perfeitamente do abraço e do beijo grande que lhe dei», conta, divertido.
 
Uma celebração especial, mas que não traz mais peso sobre o sacramento. «As pessoas admiram-se com isso, mas o sacramento é o normal. O Papa é o bispo de Roma, e é grandioso ser Papa e bispo de Roma, mas não passa disso», refere, sob o olhar aprovador de outro sacerdote paulista também ordenado pelo Papa Paulo VI.
 
Cinco anos antes, o Pe. Agostinho França, sacerdote paulista e antigo diretor da Família Cristã, também teve a graça de ser ordenado por Paulo VI. Estando em Roma a estudar, o Papa convocou todos os diáconos em Roma para serem ordenados no Domingo do Bom Pastor. «O Vaticano lembrou-se de, na altura do Domingo do Bom Pastor, reunir todos os ordenandos daquele ano e organizar a ordenação de toda esta gente, algumas centenas, no domingo do Bom Pastor. O que me lembro é que a Praça de S. Pedro estava a abarrotar de gente, em frente à Basílica. Lembro-me de ter lá muitos familiares e amigos, de tal forma que até ia chegando atrasado à minha ordenação, porque com tantos amigos fomos passear e ia perdendo noção das horas», conta, divertido.

O momento em que Paulo VI impõe as suas mãos sobre o Pe. Mário dos Santos e quando este lhe dá o abraço.
 
Uma canonização «justa» e «necessária»
Sobre a canonização, que irá decorrer domingo, o Pe. Agostinho França fala de um «um místico e um homem de muita coragem, sem medo de dizer a verdade quando a ocasião se proporcionava», principalmente pelo andamento que deu ao Concílio Vaticano II. «Lembro-me que antes da abertura do Concílio se tentava adivinhar os problemas que iriam ser debatidos no Concílio e falava-se se o Concílio iria decidir se os seminaristas iriam ou não usar batina. O Concílio teve outra abertura, outras problemáticas, outra visão do mundo diferente do que se esperava», e muito disto se deve ao Papa que conduziu os trabalhos.
 
O Pe. Mário dos Santos confirma que esta notícia era «necessária». «Foi ele quem assegurou o Concílio, e não o deixou desgarrar. A ele se deve o sucesso do Concílio, e só isso é base para justificar uma canonização», refere.
 
Apesar disso, destaca mais algumas ações do futuro santo. «Foi ele o suscitador das Conferências Episcopais, fez a paz com Atenágoras, o patriarca primaz dos ortodoxos, e levantou as excomunhões, suprimiu o Índice dos Livros Proibidos, e inventou a cultura do diálogo que hoje a Igreja tanto necessita», refere.
 
Apesar das inovações na Igreja, teve também momentos mais conservadores, que o Pe. Mário considera «problemas». «A carta sobre o celibato sacerdotal, Sacerdotalis Caelibatus, de 1967, onde teve medo de abrir a Igreja para um novo tipo de padres; na Humanae Vitae não teve a coragem de evitar a proibição dos métodos contracetivos, foi um voz isolada que o povo não seguiu; e finalmente a carta apostólica Inter insigniores, em 1967, que trata da proibição da ordenação sacerdotal das mulheres», mas nada que afete a grandiosidade de um homem «que toda a gente respeitava, mesmo na ONU e nos governos do mundo».
 
Foi o homem que escreveu a Populorum Progressio, que responde à descolonização dos povos de todo o mundo, o que tornou a sua vinda a Portugal ainda mais delicada e necessária. «Em Fátima é proverbial a atitude que tomou, quando “gritou” «Homens, sede Homens», numa altura em que estava bastante acesa a guerra colonial em África. O Papa teve a coragem de gritar isso num país onde havia uma ditadura perigosa para quem abrisse a boca, e ele disse-o, num recado direto para as autoridades em Portugal» e dos outros países colonialistas.

O Pe. Mário dos Santos (à esquerda) e o Pe. Agostinho França (à direita)
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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