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Memórias de verão
06.08.2018 11:00:00
Sou definitivamente uma pessoa de sol, praia e de pé descalço e não tenho imagem nenhuma idealizada de um sofá, um cobertor, uma televisão, um chocolate quente e chuva a cair lá fora. Não é que não goste… aí umas duas vezes por ano… no resto do tempo, a chuva e o frio são “jaulas” em potencial. Sinto-me presa no espaço e limitada nas atividades.

Acho que parte desta fobia ao inverno tem a ver com a felicidade de ter tido tanta liberdade nos meus períodos de férias de verão. Fui absolutamente privilegiada e sou eternamente agradecida por ter tido a possibilidade de passar quase todas férias durante toda a minha infância e pré-adolescência a dez passos (literalmente, dez passos andados) da praia.

Cresci durante os anos 80 e ainda que os nossos pais nos tratassem como “meninas”, com todos os “clichés” e controlo apertado que naquela altura isso ainda implicava – a liberdade que nos deram foi de uma generosidade tal, que hoje em dia, por vezes, é-me difícil conviver com alguns espartilhos a que as circunstâncias da vida obrigam.

Generosidade é mesmo a palavra que me ocorre. Porque hoje sou mãe e não raras vezes dou comigo a dizer às miúdas “antes chorares tu do que eu” quando quero justificar alguma limitação que lhes imponho a bem da sua segurança.
Os meus pais não eram nenhuns liberais e não havia muito espaço para pôr o pé em ramo verde e talvez fosse mesmo essa segurança que tinham no que nos estavam a transmitir que lhes possibilitou darem-nos tanta liberdade. Isso e a confiança no meio que os rodeava que, ainda que não isento de perigo, os deixava relativamente descansados quanto à nossa segurança (a mais nova, bastantes anos depois, já não teve a mesma sorte).

A família sempre foi uma presença constante na minha vida, mas tenho muitas memórias só minhas, só nossas, do grupo de amigos. Descobrimos tanto sozinhos. Passei tanto tempo comigo e com eles, a aprender a crescer. Tantas vezes que tive de me desenvencilhar sozinha. Tive tantas dores de crescimento de que só eu me apercebi e tanto espaço para me construir.

Brincarmos sozinhos pelas ruas daquela espécie de aldeia de verão, andarmos de bicicleta, irmos ter com os pais ao café, à noite, andarmos de casa em casa durante a tarde, tudo isto sem telemóvel. E já mais crescida, ir sozinha (ou juntamente com outros pré-adolescentes) para a praia já mesmo ao final do dia, ficar a ver os pescadores de arte xávega recolher as redes junto à margem. Depois, já com a praia vazia e a areia fria debaixo dos pés, caminhar sozinha e sonhar com todos os sonhos que tinha por realizar, com todos os lugares do mundo que tinha para ver.

Nesta altura de verão dou comigo a olhar para as minhas filhas e a pensar no tipo de experiências que elas estão a viver, com o tipo de recordações que vão guardar do verão, ou se vão sequer conseguir isolar as memórias desta altura do ano numa gaveta à parte.
Estou descansada quanto à sua segurança e à felicidade. Durante o dia ficam entregues a outras mães que cuidam e zelam por elas tão bem como eu. Não tenho a mínima dúvida disso. Sei que brincam e são felizes, mas há momentos em que não consigo deixar de sentir uma certa apreensão pelo espaço mais reduzido que têm e pela maior falta de oportunidades de crescerem consigo.

Será que a infância que elas vivem lhes irá permitir ter um Peter Pan a comandar-lhes a memória para o resto das suas vidas?
Vou tentando dar-lhes tempos e lugares sozinhas, percursos para fazerem sem nós, longe da nossa vista, mas acho sempre pouco comparado à liberdade que tive.

Mas a verdade é que também a experiência delas é diferente e não vão sentir falta do que não viveram.
O truque será ensiná-las a serem sempre livres dentro de si e a encontrarem felicidade nas suas experiências de vida, porque à imaginação somos nós que damos largas, independentemente do espaço em que nos movemos.