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Mensagem do COVID-19
04.05.2020
A senhora minha mãe, que este mês celebra 75 anos, de quem entre tantas qualidades admiro a sua fé lúcida, a sua dedicação aos outros e a capacidade de usar as novas tecnologias para espalhar o bem, nestes dias surpreendeu-me com um vídeo no Whatsapp. O autor é anónimo, mas a mensagem é forte e desejo partilhá-la.

«Deve haver um sentido para toda esta situação absurda que estamos a viver. Imaginei o que o vírus nos pudesse dizer através de uma carta, se o pudesse fazer: Olá, sou o COVID-19. Muitos de vós conheceis-me simplesmente como Coronavírus; um vírus. Desculpem a minha chegada repentina, mas não tenho de vos informar quando chego ou de que forma, simplesmente apresento-me e faço notar a minha presença. Estou aqui porque estava cansado de vos ver regredir em vez de evoluir. Estava cansado de vos ver arruinar continuamente a vós mesmos com as vossas próprias mãos. Eu estava cansado de ver como tratam o planeta, de como vos relacionais, dos abusos, da violência, das guerras, dos conflitos interpessoais, dos preconceitos. Eu estava cansado da vossa inveja social, da vossa ganância, da vossa hipocrisia, do vosso egoísmo. Eu estava cansado do pouco tempo que dedicais a vós mesmos e às vossas famílias, da pouca atenção que dais aos vossos filhos. Eu estava cansado da vossa superficialidade, da importância que costumam dar às coisas supérfluas à custa de coisas essenciais. Eu estava cansado pela vossa busca contínua e obsessiva pelo vestir, pelo mais recente telemóvel, do carro topo de gama, apenas para mostrar. Eu estava cansado das vossas traições. Eu estava cansado das vossas informações erradas e do pouco tempo que passais a comunicar. Estava cansado das queixas constantes, quando nada fazeis para melhorar as vossas vidas. Estava cansado por vos ver discutir por razões fúteis, das brigas constantes entre aqueles que governam e das escolhas erradas feitas por aqueles que vos representam. Eu estava cansado de ver pessoas a matarem-se e a insultarem-se por um jogo de futebol. Eu sei, estou a ser duro convosco, talvez até demais, mas não olho a ninguém porque sou um vírus. A minha acção vai custar vidas, mas quero que entendam, de uma vez por todas, que precisam mudar de rumo, para o vosso próprio bem. A mensagem que quero passar é simples: queria destacar todos os limites da sociedade em que viveis, para os poder eliminar. Queria parar tudo de propósito para que entendam que a única coisa importante para a qual terão que direccionar todas as vossas energias, a partir de agora, é simplesmente uma: a vida. Vossa e dos vossos filhos e que é necessário proteger, cuidar e compartilhar. Eu queria-vos fechados e trancados o máximo de tempo possível, nas vossas casas, longe dos vossos pais, avós, filhos ou netos para que entendam o quão importante é um abraço, o contacto humano, o diálogo, o aperto de mão, uma noite com amigos, uma caminhada pelo centro da cidade, um jantar em algum restaurante ou uma corrida no parque ao ar livre. Vós sois todos iguais, não façais distinções entre vós. Eu mostrei-vos que as distâncias não existem. Viajei quilómetros e quilómetros num curto espaço de tempo sem terdes notado. Estou de passagem, mas os sentimentos de proximidade e colaboração que criei entre vós, em tão pouco tempo, terão que durar para sempre. Vivam a vida da maneira mais simples possível. Caminhem devagar, respirem profundamente. Façam o bem porque o bem voltará e a vida terá mais interesse. Desfrutem da natureza. Quando festejarem, eu terei acabado de ir embora, mas lembrem-se: não sejam pessoas melhores apenas na minha presença. Adeus.»

Precisamos de uma profunda mudança cultural, tendo em conta que o modelo capitalista levou ao desenfreado consumismo, concorrência, interesses privados, individualismo radical, desvalorização do bem comum, visão instrumental da natureza, que torna cada vez mais difícil a sobrevivência da espécie humana. Muitos depositam a esperança na tecnologia, mas esta sozinha não será capaz de nos salvar. Serão necessárias mudanças nos nossos estilos de vida e nos nossos valores morais, a partir da qualidade das nossas relações com Deus, com os outros e com a natureza.

A Doutrina Social da Igreja tem insistido num modelo integral de desenvolvimento das sociedades que rejeita a enfâse apenas no crescimento económico como base das políticas públicas e defende a justa distribuição dos recursos, a sustentabilidade ecológica, a cultura da preservação e o fomento do crescimento comunitário e espiritual.

Bem alerta o Papa Francisco, na sua magistral e profética encíclica Laudato Si, que foi publicada há cinco anos: «é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megalómano» (nº 114). Ou numa entrevista mais recente: «Este é o momento de dar o passo. Passar do uso e abuso da natureza para a contemplação. Perdemos a dimensão da contemplação; temos que a recuperar» (08.04.2020)