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Mente sã em corpo são
25.01.2021
Não há saúde, sem saúde mental, asseguram instituições mundiais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) ou a Federação Mundial de Saúde Mental (FMSM). Este motivo é mais do que suficiente para estarmos atentos à nossa saúde mental. Há mais, bastantes mais. Sem alarmismos, importa que estejamos atentos a nós e aos outros.
 
Comecemos pelas definições. A saúde mental dos indivíduos define-se, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, como «um estado de bem-estar em que o indivíduo está ciente das suas capacidades, consegue lidar com o stress do quotidiano e trabalhar produtiva e frutiferamente, sendo capaz de contribuir para a sua comunidade.» No caso das crianças, a definição de saúde mental centra-se «nos aspetos do desenvolvimento, por exemplo, ter um sentido de identidade positivo, a capacidade de organizar pensamentos, emoções, assim como de construir relações com os outros, ter a capacidade de aprender e crescer, tornando-se um membro ativo da sociedade».

Mas não se pense que se pode olhar para a saúde mental e para as doenças decorrentes da falta dela, como uma área específica da saúde, compartimentada, sem relação com o estado geral da nossa saúde. Quem trabalha a área da saúde mental é perentório a garantir que não há saúde, de todo, sem saúde mental.

A verdade é que a saúde mental influencia e é influenciada pela saúde no geral e existe mesmo uma relação entre algumas doenças ditas físicas e outras mentais. A Organização Mundial de Saúde enuncia esta relação, no seu Plano de Ação para a Saúde Mental 2013-2020: «as perturbações mentais muitas vezes afetam, e são afetadas por doenças como o cancro, doenças cardiovasculares» e afirma que há «indícios de que a depressão predispõe para o enfarte do miocárdio e a diabetes e, inversamente, estas aumentam a probabilidade de depressão».

Por isso, se quisermos ter um quadro geral de boa saúde, temos de dar a devida importância a doenças ou perturbações mentais que possam surgir. Até porque estas são das doenças com maior incidência sobre as pessoas. Estima-se que a depressão afete perto de 300 milhões de pessoas e que até ao final de 2020 venha a ser a doença com maior incidência. Mas há outras doenças no grupo das mais incapacitantes, responsáveis, por exemplo, por um elevado número de ausências do local de trabalho. Além da depressão, a esquizofrenia, doença bipolar e perturbações associadas ao consumo do álcool e perturbação obsessiva-compulsiva são doenças que têm incidência e consequências palpáveis na vida de quem delas padece. Ausências do local de trabalho, incapacidade de nos relacionarmos com os outros, estigma, exclusão e até mesmo o suicídio, podem ser algumas das consequências de viver com estas doenças sem o devido tratamento.

Uma das grandes preocupações reforçadas em 2019 pelos vários documentos e iniciativas de organizações como a OMS; a FMSM ou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), responsável pela elaboração do documento «Health at a Glance 2019» (Resumo da Saúde 2019, em tradução livre) foi precisamente o suicídio como desfecho de um quadro de doença mental. Embora nos últimos anos se tenha percorrido um caminho de diminuição das taxas de suicídio, os números ainda indicam que, a cada quarenta segundos, uma pessoa decide pôr termo à sua vida (um milhão por ano). No caso dos jovens entre os 15 e os 29 anos, o suicídio representa a segunda causa de morte deste grupo, depois dos acidentes de viação.

A saúde mental dos mais jovens tem também gerado uma crescente nestes organismos internacionais, assim como nos ligados às crianças, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância ou a Unicef, que entre todos, também se juntaram em conferência em 2019 para debater a importância de tomar medidas para melhorar a saúde mental dos mais novos. Cerca de 20% dos jovens de todo o mundo sofrem de alguma perturbação ou doença mental, sendo as mais comuns a automutilação, suicídio e depressão.

A saúde mental é, por isso, um problema global que ainda precisa de muito caminho a ser percorrido. Embora estas doenças atinjam uma parte significativa da população mundial (no caso de Portugal estima-se que um quinto dos portugueses sofra de alguma doença ou perturbação mental), são poucos os que têm acesso a tratamentos. Esta preocupação foi deixada pela Presidente da Federação Mundial de Saúde Mental, em declarações à Lusa, à margem do I Congresso Recovery Portugal, que decorreu no final do ano de 2019. «Estamos a pedir a todos os países para investirem na saúde mental. Nos países ricos, metade da população que tem transtornos ou doenças mentais não tem acesso a cuidados de saúde mental. Nos países pobres ou em desenvolvimento, a estatística ainda é mais assustadora, são cerca de 75% a 85%», revelou, lamentando também que em média, os países invistam apenas 4% dos seus orçamentos para a saúde em saúde mental.

E temos de ser todos envolvidos, porque a doença mental não nos diz respeito só a nós. Na verdade, os fatores externos a cada um de nós influenciam a nossa saúde: as condições em que crescemos e vivemos ditam grande parte da nossa saúde mental: se vivemos num ambiente seguro, afetivo, que nos permite um desenvolvimento harmonioso e saudável, se vivemos em condições económicas que nos permitem uma vida segura, se vivemos num ambiente sem violência, se não passámos por nenhum trauma, são fatores que vão contribuir para a nossa saúde mental. Daí também que, com a realidade atual do Iraque, da Síria, do Yemen, de Miyanmar, por exemplo, se levantem preocupações com acrescidas com o futuro da saúde mental.

Uma má saúde mental acarreta angústia, incapacidades e infelicidade. O estigma relacionado com as doenças ou transtornos mentais ainda é pesado, mas olhando para os números, temos de começar a perceber que a saúde mental tem de ser tratada como saúde e as doenças mentais como doenças. É preciso não esquecer que à semelhança de outras doenças, têm especialistas, têm tratamento e não definem o que as pessoas são.

O mais importante é estar atento a todos os sinais persistentes que nos levantem alguma suspeita. Cada doença tem causas e sintomas diferentes e alguns semelhantes entre si e deve sempre ser avaliada pelos especialistas da área da saúde mental. O mais importante é não passar ao lado, encolher os ombros e dizer que «não é nada!». Se tiver alguma dúvida sobre a sua saúde mental procure um médico. Se não souber a quem dirigir-se, pode começar por expor as suas dúvidas, receios e sintomas ao médico de família.