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Missal Romano é a «fonte da espiritualidade» de cada cristão
11.02.2022
O presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade (CELE), D. José Cordeiro, considera que a nova edição do Missal Romano vem trazer alterações num «momento propício de consolidação da reforma litúrgica, em que ela é irreversível».


A nova edição mereceu uma Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), publicada no dia 9 de fevereiro, vem dar contexto a esta «terceira edição típica do Missal Romano, que é fruto da reforma litúrgica conciliar», explica D. José Cordeiro. «Quando falamos de Missal Romano, não falamos de um livro, mas quase de uma biblioteca, porque o lecionário, que são 8 volumes, também faz parte do Missal Romano, além daquilo que o acompanha, o livro das orações dos fiéis, as bênçãos, tudo isso faz parte do conjunto a que chamamos o Missal Romano», diz o prelado, em declarações à Família Cristã.
 
Esta terceira edição, cuja tradução começou há 30 anos, num processo que D. José Cordeiro considera que «foi o tempo possível, numa difícil tradução para a língua portuguesa, porque esta edição é ainda só da CEP, mas será para todos os países de língua portuguesa, exceto o Brasil, que tem o seu caminho próprio com quem temos um acordo nas fórmulas sacramentais da celebração», foi aprovada pela CEP no dia 14 de novembro de 2019, «validada pelo Papa Francisco em audiência concedida à presidência da CEP no dia 8 de janeiro de 2021, em especial no respeitante aos diálogos do Ordinário da Missa e às fórmulas sacramentais» e «recebeu o Decreto da Confirmatio e Recognitio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 13 de outubro de 2021».
 
Esta edição «deve ser considerada “típica” para a Igreja peregrina em Portugal, oficial para o uso litúrgico, e poderá usar-se após a sua publicação, entrando em vigor a partir do dia 14 de abril de 2022, Quinta-Feira da Semana Santa», informa a nota pastoral da CEP.
 
Apesar de não haver alterações profundas na liturgia, há várias mudanças que, sendo de pormenor, podem passar despercebidas. D. José Cordeiro dá o exemplo que «na confissão vamos bater três vezes no peito, recuperando o texto original», por exemplo, e o facto de se terem acrescentado mais orações, admonições e fórmulas de despedida do povo. Mudanças que têm em linha de conta o Motu Proprio do Papa Francisco de 2017, que «além da fidelidade ao texto original, acrescenta a fidelidade à própria língua, cultura e à compreensão dos textos nas nossas comunidades», explica D. José Cordeiro.
 
Apesar de estarmos habituados a que o Missal seja o livro que o sacerdote utiliza na eucaristia, o facto é que a CEP, na sua Nota Pastoral, apela à importância de que também os fiéis e as famílias tomem conhecimento do Missal, que contribuirá para uma «cultura eucarística», diz a nota. «A minha fonte de espiritualidade e de vida é o Missal e a liturgia de cada dia, e assim deve ser para as famílias, porque tudo o que está ali é a Sagrada Escritura, é a Bíblia, interpretada e amadurecida pelos padres da Igreja, vários autores espirituais, e chegou esta torrente até nós, esta fonte inesgotável de vida e de graça», defende o presidente da CELE.

 
Neste sentido, e porque, diz D. José Cordeiro, o «grande sonho do Concílio Vaticano II» foi a «participação ativa, consciente e frutuosa que felizmente vai acontecendo», a CEP vai também disponibilizar uma edição de bolso do Missal, que irá custar 1€, para estar acessível a todos. «Há muitas pessoas que me têm confessado a mim e a outros que sentem alguma vergonha, e até exclusão, porque já se esqueceram dos gestos e respostas a ter durante a celebração, e isto facilitará», entende o prelado.
 
A Nota Pastoral da CEP destaca ainda as alterações na fórmula da Narração da Instituição, como um dos exemplos de novidade. «O verbo benedicere passa a ser traduzido por bendizer em vez de abençoar. Efetivamente, na Ceia em que nos deixou o memorial do seu sacrifício redentor, Jesus não abençoou nem benzeu o pão ou o cálice, mas dirigiu ao Pai uma oração a bendizê-l’O: bendisse-O. Isso mesmo continuamos a evocar em oração ao Pai na prece central e culminante com que obedecemos ao mandato do Senhor Jesus de celebrar o seu memorial como Ele o instituiu: “O Senhor tomou o pão… e dando graças Vos bendisse. … tomou este sagrado cálice …, dando graças Vos bendisse…”», pode ler-se na nota.
 
Sobre a anunciada reforma litúrgica, que não é consensual no universo dos fiéis, a Nota Pastoral da CEP refere que, «mais do que uma tensão entre “Tradição” e “progresso”, a reforma litúrgica quer ser uma renovação na linha de uma Tradição sempre viva, que consinta um desenvolvimento orgânico». Neste sentido, defendem, «os livros litúrgicos são o primeiro e o essencial instrumento para a digna celebração dos mistérios, além de serem o fundamento mais sólido para uma eficaz catequese litúrgica. Isto é verdade para cada livro litúrgico, mas muito mais para o Missal que, juntamente com os outros livros em uso na celebração eucarística, está ao serviço do mistério que constitui a fonte e o cume de toda a vida cristã», escrevem os bispos portugueses.

 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Pe. José André Ferreira
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