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Missão católica em Moçambique destruída por terroristas
24.11.2020
A missão católica de Nangololo, a segunda mais antiga da diocese de Pemba, foi totalmente destruída por terroristas que ocuparam o espaço da missão durante cerca de 20 dias e deixaram um rasto de destruição imenso. «Está tudo destruído…» é o relato enviado pelo Pe. Edegard Silva à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) em Lisboa.


A missão de Nangololo está situada no Distrito de Muidumbe e foi atacada, ocupada e destruída pela segunda vez este ano pelos grupos armados que estão a espalhar o terror e a morte na província de Cabo Delgado, em Moçambique. «No dia 30 de Outubro, os terroristas voltaram a ocupar o Distrito de Muidumbe onde fica a nossa Missão», afirma na mensagem enviada para Lisboa o sacerdote brasileiro. «Homens armados e violentos tomaram conta por vinte dias de toda área da missão…», relata.

A chegada dos terroristas levou à fuga de toda a população. «Toda a população fugiu para o mato. Nós nos refugiamos em Pemba”, afirma este missionário saletino. Durante este tempo, toda a área esteve debaixo do controle dos terroristas, que apenas abandonaram o espaço da missão católica na passada quinta-feira, dia 19 de Novembro.

Só então foi possível verificar o que aconteceu. O relato, enviado para Lisboa, não deixa margem para dúvidas face à destruição provocada na missão de Nangololo. Alguns responsáveis, «mesmo correndo perigo, foram até a Aldeia de Muambula e, com muita dificuldade, conseguiram ligar» para Pemba com o relato da destruição.

O Pe. Edegard explica que que «está tudo destruído… a casa onde residíamos transformou-se em cinzas… todos os equipamentos foram queimados». «O templo onde fica a sede da Paróquia destruído… a sala da rádio comunitária queimada. A casa das irmãs destruída…», e o relato não pára. «Este ataque acabou com tudo! Para ter uma ideia, como eu saí rápido de lá, tudo [o que era] meu de três anos, coisa que eu trouxe da minha história de 34 anos de padre, foi tudo, tudo destruído. Tudo virou cinza. Todos os livros da secretaria, de batismo, de casamento, de crisma, livros de [uma] história de 100 anos da paróquia, foi tudo destruído. Tudo. Eles foram muito violentos desta vez…», conta o sacerdote à Fundação AIS.

Mas não são apenas os dados materiais que provocam preocupação e consternação. Os relatos que chegam a Pemba dão conta também de um profundo sofrimento das populações face à violência dos ataques, havendo mesmo referência a «massacres». «Pelos caminhos, estão a encontrar muitos corpos já em decomposição e que sugerem massacres. As ações dos terroristas são violentas, muitas pessoas foram decapitadas, casas queimadas e derrubadas…», conta.

O Pe. Edegard Silva afirma à Fundação AIS que esta é uma situação dramática. Fala na «dor de um povo». «Gente que continua sem localizar seus familiares. Pessoas que tiveram as suas casas queimadas. Muitas pessoas assassinadas. Fala-se de massacres e de 500 mil deslocados. Vidas e vilas destruídas», relata, de forma dramática.

Ao telefone com a Fundação AIS em Lisboa, o Pe. Edegard tenta encontrar razões que expliquem toda esta violência. As questões económicas e o fundamentalismo religioso ajudarão a compreender este surto de terrorismo no norte de Moçambique que procurará também «destruir o símbolo cristão». «Destruíram a cruz, uma cruz que é histórica lá para o povo, destruíram o pequeno santuário com a imagem de Nossa Senhora de Fátima… dá para parecer que estão mesmo a fazer isso como uma ofensa aos cristãos».

Longe de Muiudumbe, a população que fugiu junta-se para a missa debaixo de uma árvore
Mas esta não é a única hipótese de explicação de uma situação que está cada vez mais grave. Muito se tem afirmado que o aparente terrorismo religioso tem outras razões escondidas. «Se a gente assumir só o fundamentalismo religioso, [então] vai camuflar e esconder um dos motivos fortíssimos que é essa questão da riqueza dessa região, com o gás, o petróleo, a madeira, a grafite… Claro que essa questão económica também está por trás», refere à Fundação AIS.        

O missionário saletino lembra, na mensagem enviada para a Fundação AIS, a importância da «solidariedade internacional» perante este cenário de guerra e de destruição, com a necessidade de «encaminhar hospedagem, comida, remédio, água, barracas, lonas… para 500 mil pessoas…» Esta é a estimativa das autoridades da Igreja no terreno: 500 mil deslocados em Cabo Delgado em consequência dos ataques de grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, o Estado Islâmico, sendo que, afirma a Fundação AIS, «calcula-se que mais de duas mil pessoas tenham já perdido a vida».

Bispo de Pemba pode ser ouvido no Parlamento Europeu
O agravamento da situação humanitária em Cabo Delgado, em consequência da violência terrorista nesta província no norte de Moçambique, poderá levar o Partido Popular Europeu a propor a audição do Bispo de Pemba na Comissão dos Assuntos Externos do Parlamento Europeu.

A informação foi revelada por Paulo Rangel à Fundação AIS, tendo o eurodeputado, que é também vice-presidente do Partido Popular Europeu [PPE], considerado que a audição de D. Luiz Fernando Lisboa será «altamente inspiradora».

A ideia do agendamento da audição do Bispo de Pemba decorre do facto de ser «improvável», explicou Rangel, um novo debate do plenário pois «a questão» dos ataques terroristas já foi debatida pelos eurodeputados em Setembro, «e com resolução», ou seja, «já com doutrina fixada».

Daí, a audição ser o caminho mais provável. «Gostaríamos de ter seguramente o Bispo de Pemba e eventualmente até a autoridade, o governador de Cabo Delgado, e que eles pudessem dar um testemunho na primeira pessoa», revela. Testemunho que será, explicou Rangel ao telefone à Fundação AIS, «altamente inspirador para acelerar as coisas».

Para o eurodeputado português, o que se está a viver neste momento no norte de Moçambique é quase uma guerra. «Mas não uma guerra convencional. É mais do que uma guerra de guerrilha porque o relato dos ataques, eu tenho estado em contacto com embaixadas europeias em Maputo, e todas dizem, todas têm feito os seus relatos, e os ataques são praticamente diários, ou pelo menos são três, quatro por semana», afirma.

Na entrevista à Fundação AIS, Paulo Rangel afirma que são inúmeros os episódios de violência que permitem dizer que se está perante «uma estrutura no terreno», por parte dos grupos terroristas. Estrutura «que pode ser mais organizada ou menos organizada», mas que revela um claro propósito de intimidação. «Sejam episódios de degolação, episódios de ataque a missões ou a igrejas ou edifícios públicos, seja a intimidação das populações, seja o aviso a dizer que se não saírem até dia 20 de Novembro serão todos degolados… isto é, todas as semanas temos cinco, seis episódios de violência, nuns casos em que se matam pessoas, noutros casos em que se fazem escravos ou se recrutam jovens, noutros casos em que há violações, e essencialmente temos sistematicamente pessoas a fugir, porque ouvem relatos, ou são ameaçadas e portanto vão para as cidades, ou as vilas como se diz nesta zona de Moçambique, vão para lá e [estas localidades] estão completamente sobrelotadas», conclui.

 
Texto: Ricardo Perna (com Fundação AIS)
Fotos: Fundação AIS
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