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Moçambique incapaz de travar ataques extremistas
12.01.2021
A situação na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, não para de piorar. Os extremistas do Estado Islâmico já não se limitam a atacar e a bater em retirada, como é próprio das guerrilhas. Agora, ocupam território e conseguem repelir as tentativas das Forças de Defesa e Segurança (FDS) para o recuperar. O governo foi forçado a reconhecer que precisa de ajuda estrangeira para lidar com a insurgência.

Mais de 700 atos violentos. Perto de 2500 mortos, metade dos quais civis. Meio milhão de refugiados.
Os números compilados pelo Projeto de Informação sobre Localização e Eventos de Conflito Armado (ACLED) e a Organização Internacional das Migrações (OIM) abrangem o período que vai desde o início da guerra em Cabo Delgado, em outubro de 2017, até ao final de novembro de 2020, mas a principal acumulação deu-se nos apenas nos últimos meses. Basta ver que, em março, quando escrevemos pela penúltima vez sobre este tema, falávamos ainda de centenas de mortos e cem mil refugiados.

O que mudou desde essa altura para termos estes números agora? Nada. Os extremistas islâmicos continuaram a ganhar força a atrevimento, uma tendência que já era visível há um ano ou mais. O governo moçambicano, por seu lado, continuou a mostrar-se incapaz de travar esses avanços de forma consistente, embora tenha lançado algumas contraofensivas.

Exemplo desta impotência foi o que se passou no dia 29 de novembro, no distrito de Muidumbe. Segundo a agência de notícias France-Press (AFP), pelo menos 25 soldados foram mortos e dezenas ficaram feridos numa emboscada executada pelos terroristas numa zona de floresta densa. Uma fonte militar moçambicana citada pela AFP confirmou que ataques desta gravidade se estão a tornar cada vez mais comuns e que «afetam profundamente o moral das tropas».

A mesma fonte deixou no ar a possibilidade de os insurgentes terem informadores dentro das próprias FDS. «É estranho como é que os terroristas têm informação sobre os movimentos das forças governamentais», questionou o responsável.

Esta demonstração de força dos extremistas não aconteceu em Muidumbe por acaso. No início de novembro, eles entraram naquele distrito e tomaram a capital e pelo menos mais uma localidade, Muatide.

Tudo isto se passou em três semanas ou menos, o que mostra bem a audácia, a elevada capacidade ofensiva e a resiliência dos autodenominados Al-Shabab. Eles não só conseguem organizar ataques de grande complexidade e dimensão, com centenas de elementos, como ainda repelem contraofensivas e mantêm o controlo de vastas extensões de território, como é o caso de Macimboa da Praia, que está nas suas mãos desde agosto.

Como é fácil de calcular, a situação está a causar uma situação humanitária dramática em Cabo Delgado. Há cerca de meio milhão de deslocados, muitos dos quais se concentraram em Pemba. O bispo daquela cidade, D. Luiz Fernando Lisboa, afirmou que ela «já estava superlotada e calcula-se que haja quase 100 mil pessoas a mais na cidade».

A capacidade para alimentar e cuidar destas pessoas reduz de dia para dia. As atividades económicas na província estão paradas ou abrandaram muito devido à falta de segurança e o Programa Alimentar Mundial da ONU, que tem dado de comer aos refugiados, já começou a cortar o auxílio devido à falta de fundos.
 
Como se não fosse suficiente ter semeado o terror no norte de Moçambique, o Al-Shabab começou a lançar ataques do outro lado da fronteira, na Tanzânia. Em 15 de outubro, foram decapitadas pelo menos 20 pessoas em Kitaya, que fica mesmo junto ao distrito moçambicano de Palma. Além disso, os terroristas incendiaram quase 200 casas.
Esta ação foi reivindicada pelo ISCAP, a organização do Estado Islâmico para a África Central, uma vez que o Al-Shabab ter-lhe-á jurado fidelidade em 2019.
Cerca de um mês depois, os governos da Tanzânia e de Moçambique anunciaram que passariam a realizar operações militares conjuntas contra os fundamentalistas. No início de dezembro, surgiram notícias, entretanto desmentidas, de que o Malawi iria enviar tropas para Moçambique.

Estas informações mostram uma mudança de 180 graus na postura do governo de Maputo. Onde antes havia silêncio ou ofuscação sobre o que se passava em Cabo Delgado, com garantias ocasionais de que as autoridades eram mais do que capazes de resolver a situação, agora assiste-se a um reconhecimento aberto de que a ajuda externa é indispensável.

Portugal já elegeu a guerra em Cabo Delgado como uma das prioridades de política externa para a sua presidência da UE, que começa no dia 1 de janeiro de 2021, e está a ajudar Moçambique a obter o auxílio europeu. Por seu lado, no início de dezembro, o embaixador norte-americano Nathan Sales, principal responsável pelo contraterrorismo no Departamento de Estado, esteve em Maputo, onde se encontrou com o presidente Filipe Nyusi e assumiu que «os Estados Unidos estão profundamente interessados em estabelecer uma parceria com Moçambique, aprofundando a nossa amizade enquanto enfrentamos conjuntamente o desafio do terrorismo».

É claro que nada disto torna previsível que, a curto prazo, haja soldados europeus ou norte-americanos a combater em Cabo Delgado. Mesmo que houvesse vontade política para que isso acontecesse – é não há –, a pandemia de COVID-19 absorve quase todas as atenções e recursos nesta altura. A haver tropas estrangeiras em solo moçambicano, elas serão de países vizinhos diretamente ameaçados pelo crescimento do ISCAP.

O que certamente veremos nos próximos meses é um afluxo de militares ocidentais em Moçambique para treinar as forças locais, dar aconselhamento técnico, tático e estratégico, e ajudar a operar os novos equipamentos que certamente serão fornecidos às FDS daquele país. Se será suficiente, é o que se está para ver.