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Mudam-se os tempos, mudam-se os esquemas
14.09.2020
Na última década, numa tentativa de estimular a economia, as autoridades monetárias europeias têm prosseguido uma política de baixa continuada das taxas de juro. Taxas de juro mais baixas têm um efeito estimulante por dois motivos. O primeiro é porque levam as famílias a pouparem menos e a consumir mais. O segundo é porque induzem as empresas a investir mais, ao poderem obter financiamento mais barato. Por ambas as vias, a procura agregada aumenta, o que levara a mais atividade económica, mais emprego e mais rendimento. É interessante notar que quase todas as políticas económicas passam pelo fomento do consumismo…

No entanto, à medida que as taxas de juro se aproximaram de zero e, em alguns casos, se tornaram negativas, esta estratégia tende a perder o efeito. À medida que as taxas são mais baixas, reduções adicionais das taxas de juro têm tendência a serem menores, o que leva a que a poupança que as empresas obtêm no seu serviço da dívida, bem como a perda de juros que as famílias sofrem nos seus depósitos a prazo, se tornem menos relevantes: uma descida da taxa de 8% para 4% tem muito mais impacto que uma de 0,2% para 0,1%.

Para mais, quando as taxas passivas, aquelas que os bancos pagam aos depositantes, se tornam nulas, descidas adicionais são contraproducentes pois levam a que os aforadores levantem o seu dinheiro do banco e a o depositem debaixo do soalho. Note-se que quando as taxas de juro são negativas, é quem empresta—o depositante—quem paga o juro. Assim, tornar negativas as taxas dos depósitos, não leva por si só ao aumento no consumo, mas apenas a uma mudança de como as poupanças são ‘aplicadas’. E quando as taxas ativas, as dos empréstimos que os bancos fazem a empresas e particulares, se tornam negativas, os bancos perdem a vontade de emprestar, e tanto mais, quanto mais caro tiverem que pagar para emprestar.
Para ultrapassar este problema, e induzir os bancos a emprestar mais, o BCE introduziu uma inovação num instrumento antigo, as operações de recompra de longo-prazo. No novo esquema, quanto mais um banco empresta a empresas e consumidores, mais baixa é a taxa a que o banco pode obter financiamento junto do banco central, de acordo com parâmetros estabelecidos por este. Isto fará com que quanto maior for o volume de crédito que um banco conceda, mais baixa será a taxa que pagará para se financiar junto do BCE. Os bancos terão assim um incentivo a emprestar, mesmo a taxas negativas, porque compensarão as perdas que têm nesses empréstimos com aquilo que ganham ao se financiarem, a taxas ainda mais negativas, junto do BCE. Dito de outro modo: o banco central paga aos bancos para estes pagarem a quem lhes pede dinheiro emprestado. É interessante notar que muitas políticas económicas passam mais pelo fomento do oportunismo imediatista que da racionalidade económico-financeira dos projetos…

Este esquema não garante, no entanto, que os empréstimos que os bancos concedem sejam bom negócio. Se quem pediu emprestado não lhe conseguir devolver o empréstimo, o banco pode acabar por perder dinheiro, mesmo que o BCE lhe pague para se financiar. Na atual situação de pandemia, que está a levar muitas empresas e famílias à insolvência, é possível que o incumprimento aumente para níveis não previstos. Se isso acontecer os bancos acumularão prejuízos. Como €1 de prejuízo causa uma diminuição do capital próprio de €1, pode-se dar o caso de alguns bancos virem a falir—a não ser que o governo decida recapitalizar esses bancos, isto é, a compensar esses prejuízos com o dinheiro dos nossos impostos. É interessante notar que uma grande fatia da política redistributiva passa pela subsidiação dos politicamente conectados com o dinheiro dos contribuintes…