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Não se vive só de emoções
25.02.2019
Ele num tom filosófico e em ambiente descontraído, entre amigos, conversando sobre a educação dos filhos e a vida entre o casal, perguntou quase retoricamente: «Mas como é que conseguimos escolher entre o sentimento e a razão?» E ela, prontamente, num tom bem-humorado, mas com uma pitada de sarcasmo, retorquiu: «Para ti não deve ser um problema. Tens sempre razão!»

A piada que ouvi à mulher para o marido serve de mote para este texto. Razão e emoção são duas dimensões que estão na base da experiência humana. Representam um conflito “eterno” que, ao longo da história e do pensamento, estimulou filósofos e escritores, ao qual no último século se acrescentaram psicólogos, sociólogos e pedagogos. Os sucessos alcançados são ainda vagos. E entre as duas dimensões continua-se a questionar sobre qual favoreça uma serena e verdadeira vida social.

Nas últimas décadas assistimos à chamada “reviravolta emocional”, em que os processos emocionais invadiram a dimensão racional, submetendo-a à sua hegemonia. No fundo, as emoções recuperaram a dignidade e o reconhecimento em relação à razão, aparecendo cada vez mais como uma das componentes centrais do agir relacional. Passámos do Homo sapiens ao Homo sentiens, caracterizado, entre outros aspetos, pelo convite a libertar-se das emoções ao imperativo de libertar as emoções, em que o centro do ser é a capacidade de sentir e não de refletir, e pela redescoberta do corpo e do sensorial como estilo de vida.

Contudo, as emoções sozinhas não regem, pois necessitam sempre de um contraponto. Este é o momento cultural contemporâneo em que nos encontramos. Os perigos ligados à aparente e atual “libertação” das emoções podem ser individuados nas preocupantes formas de dependência, controlo e exploração. Vários autores (Lacroix, Camoletto e Bauman) falam mesmo de um “novo tribalismo”, caracterizado por relações sociais fluidas, móveis e instáveis, centradas mais nos aspetos estéticos e emotivos do que éticos, a ponto de as emoções se tornaram produtos e desenvolverem um mercado de bens e serviços emocionais que faturam milhares de milhões.

A par deste aspeto, a nova cultura emocional leva a uma hiperestimulação, desvalorizando sensações e emoções menos “explosivas”, levando a interpretar a relação com os outros e a experiência do mundo como um depósito de sensações. E a “bulimia” das emoções fortes pode conduzir a uma anestesia emotiva e a um empobrecimento da vida emocional, esmagada pelo consumo rápido de experiências de altos tons e cores acesas.

«Se queremos parar a deriva de uma humanidade nivelada pela emotividade consumista, temos de ter a coragem de voltar a colocar no centro o papel e a função das nossas emoções, mas principalmente dominando os seus mecanismos», adverte Carmelo Vigna, professor de Filosofia Moral. Mas dominar os mecanismos das emoções significa confrontar-se com o mundo dos desejos e estabelecer uma ordem. «Quando as emoções precedem a vontade e a razão, é fácil que nos conduzam a metas erradas. Mas quando caminham lado a lado, é mais difícil que isto aconteça. E só a razão pode dar uma ordem às nossas emoções e à nossa vontade», sublinha.

No fundo, razão e emoções estão intimamente ligadas e interdependentes entre elas, e ao mesmo tempo exigem um espaço adequado na vida de cada um. Tal como para qualquer membro do casal e de uma família. Nenhuma das duas dimensões, porém, tem o direito de reclamar vitória sobre a outra, pois a história já demonstrou este perigo e absurdidade.

Então, sábio não é quem não tem emoções, mas quem as usa para distinguir o que é bom do que é mau, o que convém ou não.