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Natal com sentido
17.12.2018
Há dias dei por mim agastada com a minha filha mais velha porque queria que visse o que ela já tinha ensaiado. Eu sei que parece mal a uma mãe não querer ir a correr sentar-se para ver o maravilhoso trabalho da filha, mas a quantidade de ensaios que as duas fazem deixaria qualquer um com nervoso miudinho nas pernas.

Ainda assim, perante o olhar reprovador de uma filha que sabe que hoje em dia os pais têm de dar toda a atenção às crias, sob pena de se verem sob a mira da brigada dos “superpais” de serviço, lá me sentei a ver tão importantes concretizações (das quais não me lembro para poder descrever). Mas a verdade é que elas estão em preparações para o Natal desde o início de novembro e não falámos sobre brinquedos. Elas são papéis com desenhos, listas de músicas, confirmação de casa onde passar, lugares de mesa, entre outros. À data em que escrevo o texto, posso dizer que as músicas de Natal que lhes saem daquelas cordas vocais se tornaram numa quase aversão, que já desejei não lhes ter contado todas as peças de teatro que fazia com as minhas irmãs e que pensei deixar o mais novo atirar os telemóveis ao chão para eles poderem deixar de tocar.

Ao mesmo tempo, e quando não me estão a sufocar de perguntas sobre o Natal, permito-me um daqueles acessos de mãe babada, com os filhos mais bem educados (sem hífen, porque a ênfase não é no bom comportamento dos filhos e sim no bom trabalho dos pais) de que há memória porque são nossos e nós até somos uma pessoas competentes.

Brincadeiras à parte, sinto-me feliz que elas tenham encontrado um sentido para o Natal; que não tenham aguentado de excitação, tenham pedido para ir ao sótão buscar umas coisas de Natal e tenham trazido um presépio e umas luzes quando lhes disse que não era para trazer tudo, porque ainda era cedo. Fico feliz que estejam em desacordo porque uma quer ensaiar as danças, outra o canto, ou as peças de teatro, que se lancem numa discussão que deixa os pais à beira de um ataque de nervos, mas que lhes passa ao fim de dez minutos para voltarem a ensaiar (e voltarem a chatear-se).

Estão a criar memórias felizes e a aprender a valorizar o mais importante.

E por muito que me fizesse bem ao ego achar que sou o máximo a educar crianças, a verdade é que, aos poucos, as famílias vão encontrando as suas maneiras de experimentarem um Natal com menos coisas e mais sentido (mesmo que o consumismo exista).

Do que vejo à minha volta, as pessoas começam a ficar saturadas do lado comercial do Natal e, mesmo que o lado crente não esteja presente para todos, os valores humanos que Jesus nos deixou estão presentes na vontade de estar com os outros, de lhes agradar, de lhes fazer bem. O Natal volta, cada vez mais, a ser um momento de amor e união, de tolerância com o próximo e de atenção às suas necessidades, um momento de convívio e reforço de laços.

No fundo, vale para o Natal o que acredito que vale para as pessoas no geral: têm os valores e as prioridades pela ordem certa.
O que desejo aos nossos leitores é que tenham um Natal com crianças exigentes de atenção que façam adormecer os mais velhos de exaustão com o espetáculo de músicas e teatro que preparam; um Natal que, por outro lado, os faça acordar e rezingar com o barulho de gritos felizes e de gargalhadas que não deixam ninguém descansar; um Natal com cheiro a canela, a fritos (mesmo que façam mal) e a lenha queimada; um Natal com o coração habitado de gente e de esperança; um Natal com o nariz a doer do frio, mas com os ossos quentes do sol que lhe conseguirmos arranjar.

Um santo Natal!