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«No Natal, não podemos repetir o que aconteceu na Páscoa»
12.10.2020
O Cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, apelou hoje à responsabilidade dos portugueses para travar a propagação da Covid-19 e evitar novos confinamentos e restrições, como aconteceu no segundo trimestre deste ano. «No Natal, não podemos repetir o que aconteceu na Páscoa e isso depende de nós, do nosso comportamento. É a nossa escolha, é a nossa responsabilidade de cidadãos e de cristãos», referiu o responsável católico, aos jornalistas, na conferência de imprensa de lançamento da peregrinação internacional aniversária de outubro.


«Estamos conscientes da gravidade da pandemia», acrescentou.

Há dias, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmava que talvez fosse necessário «repensar o Natal em família», e hoje o bispo de Leiria-Fátima começou ogo por deixar este aviso.

O presidente da celebração será D. José Ornelas, bispo de Setúbal e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que se autointitulou o «plano B», em jeito de piada. «Não nos é dado a escolher a época em que vivemos nem as condições em que vivemos. O que se nos pede é que sejamos inteligentes de coração para encontrarmos as respostas que são necessárias para nós e para aqueles que nos rodeiam», afirmou.

Neste sentido, e depois do «choque» que é ver o santuário com tão poucos fiéis, D José Ornelas falou sobre os meios de comunicação social serem «pontes para que aquilo que é importante chegue até às famílias, até às instituições onde tanta gente vive o isolamento e pode chegar esta mensagem de Fátima».

O prelado referiu que foi preciso, neste tempo de pandemia, «rever o papel da Igreja e a sua forma de atuar, não por medo ou submissão a nada que não fosse a defesa da vida». «Espero que nos sirva para sairmos daqui mais fortes, se conseguirmos criar sinergias suficientes para vencer a crise», sustentou.

Uma crise que começa a ser resolvida chamando as pessoas de volta à Igreja e ao contracto uns com os outros. «Temos de fazer com que as pessoas recuperem o gosto e a necessidade de se encontrarem, mas isso não é uma questão apenas para a Igreja, mas para a sociedade inteira», alertou. No que diz respeito à Igreja, diz que «vir à Igreja não é perigoso, não porque não haja risco, mas porque se eu adoecer do medo é muito mais grave, porque não tem cura». «Temos de viver com isso, encontrando as tais formas para que o distanciamento social não se torne distanciamento da humanidade, e que o afeto seja tangível, mesmo que não possa ser físico».

Questionado pelos jornalistas sobre o estado da Igreja em Portugal, financeiramente, D. José Ornelas afirmou que o drama maior está nos pedidos de ajuda que «cresceu exponencialmente» neste tempo de crise nas paróquias. «As paróquias são barómetro social muito importante para saber o que se está a passar no país», defendeu.



Há «vontade» de mostrar contas do Santuário, mas é preciso resolver questões fiscais
Um dos assuntos que mais ocupou a conferência de imprensa foi mais uma vez a questão das contas do Santuário, que desde 2006 não são apresentadas publicamente. Questionados sobre o assunto, D. José Ornelas quis ser «claro». «Não falta vontade para isso, mas é preciso criar as condições para que isso se faça como deve ser, também do ponto de vista delicado da contabilidade, que tem o regime concordatário em relação a estas coisas. O Santuário tem uma vertente dos dons voluntários que as pessoas dão e que são daquilo que o Santuário vive, e isso tem um regime específico tutelado na lei portuguesa. Agora quando o Santuário tem dormidas, outras coisas, entra noutra contabilidade, e essa dupla valência exige uma clarificação que no estatuto legal do Estado não está devidamente esclarecido. Não estamos a fazer tempo, estamos a esclarecer para encontrar os meios adequados para resolver esta questão», esclareceu.

O Cardeal D. António Marto acrescentou ainda que o problema está na definição do que são «fins religiosos». «Em 2006 foi tomada esta decisão, por causa de uma questão que até hoje não está esclarecida: o que significam os bens religiosos na Concordata? Até onde vão esses fins religiosos, que depois isentam de alguns impostos?», questionou, explicando que «não se pode determinar exatamente a quantia de impostos que se devem ou não devem pagar, é só isso». «Não há segredo nenhum, não é sociedade secreta nenhuma», reforçou.

Sobre a peregrinação deste ano, e a situação do Santuário, o Pe. Carlos Cabecinhas reforçou as diferenças para anos anteriores, informando que neste mês de outubro e novembro estão 97 grupos de peregrinos inscritos para virem ao santuário, enquanto que, no ano passado, apenas no mês de outubro visitaram o santuário 733 grupos, 559 dos quais estrangeiros. «Esperamos um resultado negativo no final deste ano. Até ao final do mês de setembro tivemos uma quebra de receitas de 50,6% e os donativos caíram 46,9%». Apesar disso, e porque a «falta de peregrinos afeta não só o santuário, mas toda a vida da cidade de Fátima e suas imediações», o reitor anunciou que «aumentámos em 60% os apoios sociais, num total de 800 mil euros, onde não estão incluídos os apoios que o santuário dá à Igreja em Portugal».
 
Texto: Ricardo Perna
Fotos: Santuário de Fátima
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