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Nos 30 anos do encontro de Assis
19.09.2016
Durante longos séculos, a Igreja Católica, assim como outras confissões cristãs, defendeu que fora do cristianismo não havia salvação. Muitas vezes se proclamou que a verdade – isto é, a nossa religião – não poderia pactuar com o erro – as outras religiões.
Esta posição esquece que a verdade não tem direitos: quem os tem são apenas as pessoas. Nomeadamente, o direito à liberdade de consciência, a possibilidade de seguir uma determinada confissão religiosa, ou nenhuma.

O exclusivismo religioso de alguma forma legitimou o uso da força contra os que não partilham a nossa fé, como foi o caso das Cruzadas e da Inquisição, e é hoje bem visível em algumas correntes do radicalismo islâmico.   

No Concílio Vaticano II, o tema da liberdade religiosa foi, porventura, o mais polémico de todos. Mas prevaleceu o respeito e até a valorização de outras religiões. A Igreja Católica deixou de rejeitar o que há de verdadeiro e santo noutras religiões embora, em muitos pontos, discorde daquilo que elas afirmam e ensinam. É que, apesar de tudo, elas podem refletir um raio da Verdade que ilumina todos os homens.

A mais importante manifestação deste espírito conciliar de abertura religiosa foi a iniciativa de São João Paulo II de convocar para Assis, em 1986, um encontro que reuniu as doze principais religiões do mundo. Foi um encontro de oração e de jejum pela paz, algo que nunca antes havia acontecido.
Uma iniciativa corajosa e profética de São João Paulo II. Na altura houve algumas reações negativas no interior da Igreja: Como podem rezar juntas pessoas de diferentes fés? Mas há 30 anos, em Assis, os representantes das várias religiões não rezaram juntos: estiveram juntos para rezar, o que é diferente. Ou seja, cada um esteve presente quando o outro rezava, manifestando respeito pela sua oração. Não houve, assim, qualquer sincretismo religioso.

Durante as três décadas após o encontro de Assis, a Igreja Católica e os Papas prosseguiram o caminho do diálogo religioso, incluindo o diálogo com não-crentes em qualquer religião. São hoje uma referência, por exemplo, as conversas públicas de Bento XVI, antes e durante o seu papado, com intelectuais não-crentes, como Habermas e P. Flores d’Arcais. A velha polémica entre o catolicismo e o luteranismo sobre o que salva – a fé ou as obras – foi ultrapassada em 1999, com uma declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, acordo no qual foi importante o papel do então Card. Ratzinger. E são atualmente encorajadoras as relações entre o catolicismo e o judaísmo.

Mas muito falta fazer, até para que o nome de Deus não seja invocado para matar pessoas. Agora, os cristãos são os mais atingidos e perseguidos pela intolerância religiosa. Em vários países islâmicos, a conversão a outra religião, que não o Islão, é considerada crime, punido com pena de morte. Essas outras religiões não podem celebrar em público a sua fé. Aliás, as divisões entre islâmicos sunitas e islâmicos xiitas têm feito correr muito sangue.
Mais uma razão para evocarmos o encontro de Assis, há 30 anos. E para sermos fiéis ao seu espírito de paz.