Precisa de ajuda?
Faça aqui a sua pesquisa
Nós, a pandemia e os outros
25.04.2021
É habitual dizer-se que as grandes crises e tragédias revelam sempre o que há de melhor e pior nas pessoas. O mesmo se pode dizer dos estados e dos povos, como está a ser bem visível nesta época de pandemia. A covid-19 tornou-se num catalisador, quando não mesmo a causa, de conflitos geopolíticos antigos e novos. É que a saúde também é uma arma.

«Num passado não muito distante, era habitual que os países fossem julgados pelo seu desempenho económico, pela inclusividade das suas instituições e pela sua capacidade de realizar eleições democráticas», escreveu o jornalista brasileiro Felipe Araújo na revista Foreign Policy em novembro passado. «Avançando até hoje», acrescenta, «verificamos que o estatuto de uma nação na cena internacional depende menos de noções abstratas de boa governação e mais de algo muito concreto: a sua capacidade de conter o coronavírus».
Bem-vindos ao horrível mundo novo de 2020 e 2021.

Não há livro de instruções para uma pandemia global – pelo menos para esta – e há muito mais casos de fracasso do que de sucesso em lidar com ela. A tal capacidade de conter o coronavírus não tem sido grande coisa na grande maioria dos casos. Os estados usam a pandemia como mais um instrumento de poder perante rivais e amigos – sim, também os amigos, porque os interesses, tal como os negócios, estão sempre à parte.
Esse poder resulta de dados objetivos, como a capacidade financeira, logística, médica e científica para lidar com a nova doença, mas também de elementos intangíveis, como a influência e a reputação.

Foi assim que vimos, logo de início, o então presidente dos Estados Unidos a falar constantemente do «vírus chinês» e a acusar o governo de Pequim de ter sido o causador da pandemia e/ou de ter conspirado com a Organização Mundial de Saúde (OMS) para esconder a sua real gravidade. Donald Trump exigiu em plena assembleia geral das Nações Unidas, que «se responsabilize a nação que desencadeou esta praga no mundo: a China».

Não há nenhum dado científico que sustente as alegações de Trump, e é óbvio que foram um meio de desviar as atenções do público norte-americano da incapacidade do seu próprio governo em lidar com a pandemia. Os chineses, sempre muito ciosos do seu prestígio externo, contra-atacaram com a sua própria teoria da conspiração, afirmando que a visita de uma delegação de desportistas militares norte-americanos a Wuhan terá sido usada pelos Estados Unidos para introduzir o coronavírus naquela cidade chinesa.

O foco obsessivo da comunicação social sobre a covid-19 amplificou tudo o que se passava em torno dela, incluindo campanhas de propaganda e desinformação. A China aproveitou a situação para disseminar incontáveis notícias sobre a suposta origem italiana ou americana do SARS-CoV-2 e sobre a superioridade da sua atuação nesta crise. Para melhor a ilustrarem, trataram de enviar auxílio médico para países em grande necessidade, como foi o caso da Itália. Rússia seguiu o exemplo, o que nos deu a imagem inédita de colunas militares russas a circular em estradas italianas. É a chamada «Política da Generosidade», e o seu impacto nunca deve ser menosprezado.
 
Jogos “covidianos”
Quando se fala de desinformação e propaganda, poucas ideias têm uma potência tão grande como a da culpa. Apontar o “outro” como culpado, fazer dele um bode expiatório, é um truque tão antigo como a nossa civilização. Por isso, a culpa é, como já vimos, uma das três frentes em que este combate geopolítico tem sido travado. As outras duas são a eficácia e os tratamentos.

Basta ver a autêntica competição mundial que se gerou em relação ao número de infetados e mortos para se perceber como a covid-19 transformou o perverso em natural – e com a maior naturalidade. As estratégias nacionais de combate à pandemia foram exaltadas ou vilipendiadas sem que se tivesse em conta as inúmeras subtilezas que condicionavam a fiabilidade das respostas e dos números.

Caiu-se mesmo numa espécie de nacionalismo “covidiano”, em que “o meu país é melhor que o teu”, ou no seu oposto, como se viu num artigo de opinião na imprensa portuguesa, futebolisticamente intitulado «Portugal ataca e a Suécia marca». A ideia era mostrar que o país nórdico estava a lidar com a pandemia muito melhor do que nós – afinal, os nórdicos são sempre superiores em tudo, não é? –,  só que não é bem assim, como ficou demonstrado dias depois, quando o rei da Suécia admitiu candidamente o falhanço da estratégia nacional.
Esta competição tem uma modalidade bem mais séria no desenvolvimento, produção e obtenção de vacinas e tratamentos. Não é por acaso que todas as grandes potências mundiais procuraram criar as suas próprias vacinas, tendo aliás financiado fortemente as empresas farmacêuticas locais para tal.

Essa corrida – porque é de uma corrida que se trata – desenrola-se em três pistas: a da velocidade (qual é a primeira vacina a entrar no mercado e quem é que consegue ter acesso a ela mais cedo?); a da eficácia (qual a percentagem de proteção que dá?); e a da quantidade (quantas vacinas cabem a cada país?).

Algumas destas corridas já chegaram ao fim, ou estão perto disso. A vacina da farmacêutica norte-americana Pfizer e do laboratório alemão BioNTech foi a primeira a ser aprovada em vários continentes. O Reino Unido foi o primeiro país a iniciar a inoculação em massa. Os Estados Unidos, o Canadá, a União Europeia e o Reino Unido garantiram quantidades de doses que dão para vacinar uma população duas ou três vezes superiores àquela que realmente existe.
 
E os mais pobres?
Estas encomendas aparentemente excessivas não refletem necessariamente uma tentativa de açambarcamento, mas mais uma diversificação de fornecedores para que não haja falhas no momento decisivo. Falhas essas que já estão a ocorrer.

À medida que as dificuldades de produção se vão tornando notórias, aumenta a fila de espera. Por muito que António Guterres, secretário-geral da ONU, diga que as vacinas têm de estar acessíveis «a todos, em todo o lado», quem tem dinheiro e influência tratou de garantir um lugar na frente dessa fila. Perante este egoísmo nacional, o diretor-geral da OMS avisa mesmo que «o mundo está à beira de um falhanço moral catastrófico».
Para os “outros”, os mais pobres, há a COVAX, uma iniciativa da OMS e de outras duas entidades internacionais, que tem como missão fornecer vacinas ao mais baixo custo possível aos países em desenvolvimento. Esse mecanismo terá já garantido dois mil milhões de doses, que deveriam começar a ser entregues em fevereiro. Todavia, as farmacêuticas impõem a sua lei nos ritmos de entrega. Se até os países balcânicos, que estão fora do “pacote” da União Europeia, se queixam de que só conseguirão ter quantidades relevantes de vacinas lá para o outono, é fácil imaginar qual será a situação no Terceiro Mundo.

Bill Gates, cuja fundação investiu muito dinheiro na COVAX, acha que, na melhor das hipóteses, os países mais pobres terão acesso significativo às vacinas seis a oito meses depois dos mais ricos. Este desfasamento pode significar que os progressos na imunização na parte privilegiada do mundo poderão ser anulados pelo aparecimento de novas estirpes do coronavírus na outra.

Se isso acontecer, de pouco servirá ter estado na frente da fila.