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Novos tempos estes
24.05.2016

Novos tempos, estes, em que o líder da Igreja Católica, Francisco, acolheu em sua casa o Grande Iman al-Azhar, líder maior do Islão sunita, Ahmed el-Tayeb. É um encontro que reflete uma vontade clara de paz e de diálogo. Demonstra que é possível reatar relações, voltar atrás e sentar à mesa novamente. E isto sem que seja necessário deixar passar várias décadas ou várias gerações.



Por mais que se possa pensar que estes encontros são inócuos, a verdade é que eles são pontes que se estabelecem, contactos que se fazem, muros que se derrubam, sinais que se concretizam, gestos que marcam.
Sabemos como as guerras religiosas são, a maioria das vezes, uma fachada para interesses mais obscuros. A instrumentalização dos fiéis em favor desses mesmos interesses é uma realidade e o fundamentalismo religioso é exacerbado e potenciado. Sim, tem razão Malala Yousafzai quando defende a necessidade de educação para todos, sobretudo para os mais novos.
Mais, quando o Papa Francisco realizou o primeiro videoclipe inter-religioso da História da Igreja, com vários representantes das quatro maiores religiões do mundo, ele dizia que «há apenas uma certeza que temos: todos somos filhos de Deus». A mensagem final é surpreendente: na mesma imagem, um segura um menino Jesus, outro um Buda, outro uma Menorá e outro um Tasbi.
Em suma, as grandes religiões comungam dos mesmos valores perenes da paz, da justiça, do amor. Como diz o vídeo, podemos pensar diferente, ver as coisas de maneira diferente, mas todos acreditamos no amor.

Aqui no nosso país, sei que é possível viver neste espírito. Somos um país que não tem uma grande diversidade religiosa. Mas isso não significa que todos tenhamos o mesmo discurso, nem significa que pensamos todos da mesma maneira. Muito pelo contrário. Creio até que o diálogo está a tornar-se mais difícil. Obviamente, estou a dar um salto do campo religioso para o político.
No campo religioso, o assunto é pacífico. Não há grande necessidade de diálogo inter-religioso em Portugal. Felizmente, por tradição e salvo raras exceções, as relações religiosas no nosso país são um exemplo para o mundo.*
Mas, claramente, é necessário um maior diálogo político. Ainda mais quando há uma vivência quase religiosa das ideologias em Portugal, da direita à esquerda. E este diálogo não está nas mãos dos deputados da Assembleia da República. Está nas nossas casas, no nosso emprego, nos nossos contactos, nas nossas redes sociais. As relações estão extremadas e não há um diálogo sério. E há tantos assuntos que merecem ser dialogados... Desde o futuro que queremos para o país, que é uma incógnita, até ao modo como educamos as nossas crianças.
A nossa base comum é a democracia, a liberdade, o respeito e a igualdade. E todos pretendemos um país mais justo, mais cívico e mais humano. Sabemos que há diferenças, mas é por isso que há muito para dialogar, para encontrar e falar.
Bom, não é preciso, aqui, começarmos pelos temas mais polémicos. Já que comecei por falar dos novos tempos, falemos do tempo... É que esta chuva e este sol, este calor e este frio, em maio, lembra a alguém? Nem imagino como vai ser o verão... Pode até não concordar comigo, mas penso que este tempo estranho é consequência de um meio ambiente alterado pelo Homem. Dá que pensar: Podemos alterar tudo na natureza? Será que o nosso limite está no limite da ciência? Eu creio que há questões éticas importantes que se colocam no nosso controlo sobre a natureza. E o que dizer sobre quatro dias em que Portugal viveu com energia proveniente apenas de fontes renováveis?




* E atenção que a confusão sobre a construção de uma nova mesquita em Lisboa não me parece ser uma questão religiosa.