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Num instante
30.08.2016
Praticamente uma semana depois do sismo que assolou Itália, o número de vítimas atingiu o patamar de 290 pessoas, homens, mulheres, jovens, crianças... Foram momentos terríveis que mudam uma vida num instante. Imagino a pacatez habitual da véspera daquela noite, tão igual a tantas outras noites. Imagino a pacatez das cidades campestres italianas, tão semelhantes às nossas.
Porquê?...



Há um mistério da morte e da vida. A fragilidade da vida humana não está sujeita apenas a terramotos. É uma verdade de La Palice se disser que, se estamos vivos, logo estamos sempre sujeitos a morrer. Mas nestas situações de acidentes naturais renasce um sentimento de impotência face à nossa condição humana, face à nossa fragilidade perante o majestoso universo que já existia antes de nós e continuará a existir muito depois de nós. Renasce um certo receio, muito remoto em nós (ou não), de desaparecer. Para o universo é tão indiferente o facto de estarmos vivos, aqui e agora, com o coração a palpitar. No seu rodopio universal e cósmico, nós não somos senão um caricato conjunto de células que vive durante uma fração de segundo até o nosso microscópico coração deixar de bater nesse mesmo instante. É uma visão da realidade terrível. Sim, e é uma visão parcial.
Seremos nós formigas e simples células? Não. Acredito que há Alguém maior do que o universo.

Se uma alternativa é pensar que nada mais existe para além daquilo que vemos, então, quando morremos, deixamos de existir e nada mais importa. É uma sensação amarga, resignada e sem silêncio. E se algo acontece de maneira acidental, então, não apenas é amargo como penso como é revoltante e absurdo.

A proposta de Cristo é outra. O mistério da morte e da vida permanece inexplicável. Mas mais do que ficar paralisado ou amargurado com a possibilidade da morte e do sofrimento, fico estupefacto com a riqueza da própria vida que nunca mais termina. O sentido aumenta, o horizonte expande-se. O sofrimento não desaparece por magia, mas é iluminado. Continuo sem conseguir responder à pergunta «porquê?», mas a minha esperança não me deixa cair num absurdo. A minha fé não me resigna. O silêncio é preenchido com uma Presença consoladora.

Neste fim de semana em que a madre Teresa de Calcutá será canonizada, recordo todos os seus ensinamentos, com um em especial e que um grande amigo me recordou vezes sem conta: «Não deixes que ninguém saia da tua presença sem estar melhor do que quando o encontraste.»

No regresso das férias grandes, num momento em que os motores estão a aquecer para retomar o ritmo anual em força, é com este pensamento que recomeço: com vontade de viver consciente deste dom da vida a cada momento, de decidir pelo bem a cada momento e a cada gesto, como Teresa de Calcutá.