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​Núncio apostólico não sai de Kiev: «Aqui represento o Papa perante a Ucrânia»
03.03.2022
D. Visvaldas Kulbokas, núncio apostólico da Santa Sé na Ucrânia, não abandonou a nunciatura quando a guerra rebentou, e continua lá, ao serviço da Igreja e do Papa, porque «não somos apenas uma embaixada». «Aqui represento o Papa perante a Ucrânia, mas também perante o povo e as Igrejas na Ucrânia. Tenho não só o dever, mas também a possibilidade de estar perto das pessoas. Então meu lugar é aqui», referiu ao portal de notícias SIR, adiantando que, «se virmos que é humanamente impossível ficar, a questão surgirá, mas por enquanto, se conseguirmos ficar aqui, não nos moveremos».

 
O prelado anda todo o dia com uma mochila às costas com água, os seus documentos e um telemóvel, para «estar pronto para qualquer coisa», e refere que está na nunciatura com dois colaboradores e a congregação religiosa que servia naquela casa. «Dormimos nos colchões que colocámos em alguns lugares [mais seguros], até mesmo no porão. Também celebramos a Missa num local que consideramos mais seguro», revela.
 
Para este núncio, o drama humanitário está à porta. «Desde o início eu estava realmente muito preocupado com aqueles que estão doentes e frágeis. Como é que pode fazer ou receber tratamento médico nestas condições? Especialmente para aqueles que não puderam ou tiveram forças para evacuar e permaneceram. Há também preocupação com as mulheres no parto. Há muitas crianças nascidas em abrigos subterrâneos, sem nenhuma assistência especializada. O drama é forte», conta.
 
Também por isso, a presença do Papa Francisco no terreno, através da figura do núncio, adquire ainda mais importância. «Estando aqui, de alguma forma, podemos sentir o drama de quem sofre com tiros, frio, perigo, feridas e até a morte», sustenta.
 
Outro aspeto importante que destaca tem sido a «solidariedade entre os ucranianos, de todas as confissões e religiões». «Todos os dias o assistente do Mufti liga e pergunta se temos comida e água suficientes ou se precisamos que alguém seja acolhido. Os católicos fazem o mesmo nas suas igrejas e os ortodoxos, os judeus fazem o mesmo. Há, portanto, muita solidariedade e ver essa unidade é uma experiência linda e muito forte», conta.
 
A isto soma-se a solidariedade internacional, que já se sente por lá, afirma, através da oração. «É como se fôssemos, nestes dias, a capital espiritual do mundo onde o drama se encontra, por um lado, mas também a bela resposta da humanidade, por outro».
 
Ucrânia pede que Papa interceda para criar corredores de ajuda humanitária
A vice primeira-ministra da Ucrânia, Iryna Vereshchuck, esteve na televisão ucraniana e pediu ao Papa Francisco que ele possa falar com o presidente russo, Vladimir Putin, sobre a possibilidade de criação de corredores humanitários que possam levar ajuda aos civis afetados pela guerra, segundo adiantou a agência Reuters. «Espero que a conversa aconteça», pediu a governante.
 
O papel do Papa Francisco tem sido, aliás, muito elogiado em toda esta crise, mesmo pelo povo ucraniano, adiantou o núncio apostólico, D. Visvaldas Kulbokas. «Tantos me ligaram e me pediram para transmitir ao Papa uma imensa gratidão pela atenção, pela oração e também pelas tentativas feitas, não apenas diplomáticas, mas também humanas, como pastor», do Papa Francisco, refere o prelado.
 
O Papa, recorde-se, já esteve na embaixada da Rússia no Vaticano, onde exprimiu a sua preocupação para com a situação que se está a viver na Ucrânia.

 
Texto: Ricardo Perna
Foto: Gabinete da Presidência da Ucrânia
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