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O conflito Irão-EUA
04.02.2020
O conflito entre os Estados Unidos da América e o Irão tem raízes antigas. O Irão é muçulmano, xiita, mas não árabe. E não se trata de um país artificial, criado após a Primeira Guerra Mundial, como aconteceu com o Iraque. O Irão é o atual nome da Pérsia, país de antiga e refinada civilização. O Irão está hoje em confronto com Israel, mas também – ou talvez sobretudo – com a Arábia Saudita e outros países árabes de predominância sunita. Além dos EUA, claro.

Quando a Pérsia/Irão estava sob o governo do xá Reza Pahlavi, os EUA eram um aliado de Teerão. Mas, ainda nesse período, em 1953, os serviços secretos americanos e britânicos promoveram a queda do primeiro-ministro Mossadegh, que pretendia nacionalizar a indústria do petróleo. Algo que muitos iranianos não esquecem.

Em 1979, o xá foi afastado por uma revolução teocrática, que impôs um regime autoritário brutal, islâmico xiita. Ainda hoje a lei islâmica impera no Irão. Naquele ano, dezenas de americanos, sobretudo diplomatas, foram feitos reféns na embaixada americana em Teerão, onde permaneceram 444 dias. O então presidente J. Carter tentou uma operação de resgate, que falhou. Os EUA passaram a ser apontados no Irão como o “grande Satã”.

Do lado dos EUA, Trump elegeu o Irão como inimigo principal e reforçou os laços com a Arábia Saudita e Israel – ou, mais precisamente, com Netanyahu. Esta inflexão em nada melhorou as perspetivas de paz no Médio Oriente.

Em 2015, os EUA, juntamente com os outros membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, chegaram a um acordo com o Irão para travar ali o fabrico de armas nucleares. Em 2018, Trump retirou os EUA do acordo, contra a vontade dos seus parceiros europeus, que se recusaram a seguir Trump. Ou melhor, só o seguiram quando o Irão anunciou que iria avançar, sem limites, para a bomba nuclear. Não se percebe o que Trump e os EUA ganharam com a decisão de rasgar aquele acordo.

Não parece que Trump tenha uma estratégia coerente para a região. Cedendo a Erdogan, presidente da Turquia, retirou os soldados americanos da Síria, traindo os curdos que haviam sido decisivos na derrota do Estado Islâmico. E, tendo anunciado a intenção de retirar os militares americanos do Iraque, enviou para esse país mais 3500 soldados, contra a vontade do governo de Bagdade.
 
O Iraque é um país dividido, onde atuam milícias xiitas pró-Irão. O Irão orienta à distância essas milícias, como acontece com o movimento terrorista Hezbollah, xiita, baseado no Líbano.

Trump decidiu mandar matar o homem que era o estratega-mor dos ataques terroristas fora do Irão, o general Soleimani. As autoridades americanas não apresentaram uma justificação cabal desse assassinato. Alegaram que estavam iminentes ataques a alvos dos EUA, o que não foi confirmado. Daí que seja razoável considerar que o motivo principal de Trump foi eleitoralista: mostrar-se um líder forte e decidido.

O Irão retaliou com ataques a bases americanas no Iraque, mas sem matar alguém. É provável que os ataques se repitam (daí a necessidade de aumentar o contingente americano no Iraque), mas a guarda revolucionária iraniana cometeu o erro fatal de abater um avião comercial ucraniano, por engano. Houve grandes manifestações de fúria no Irão por causa desse engano, que matou dezenas de iranianos.

Mas quanto mais os EUA atacam os dirigentes religiosos do Irão, mais debilitam a ala moderada do regime. Uma situação muito perigosa, numa zona tragicamente rica em conflitos.