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O consumismo e a mensagem do presépio
04.12.2019 09:00:00
Uns dias antes do Papa Francisco apresentar uma carta apostólica sobre o presépio – a Admirabile signum, sinal admirável –, o ministro do ambiente João Matos Fernandes teceu algumas considerações sobre a Black Friday e o consumismo desenfreado que ela provoca nas pessoas que ficam com olhos só para os descontos e gastam, diz o ministro, em excesso, que o próprio descreveu como «contrassenso».

Sem grande surpresa, estas declarações foram profundamente criticadas por quem tem lojas e se preparava para lucrar com a Black Friday. A crítica feroz a evitar que se diminuíssem os gastos não permitiu que se fizesse uma verdadeira reflexão sobre as declarações completas do ministro.

Não querendo fazer juízos de valor sobre as pessoas que gastam muito dinheiro em compras que eventualmente não necessitam, porque estão no seu direito e este tem de ser respeitado, eu prefiro refletir sobre uma frase do ministro que me chamou a atenção, embora tenha ficado de fora das críticas e do foco mediático, que estava relacionada com as entidades financeiras promotoras de crédito que publicitam créditos pessoais, incentivando as pessoas a gastar mais dinheiro do que aquele que dispõem em coisas que, de facto, são luxos.

Numa época em que todos nos preparamos para mais uma crise financeira, que está a ser anunciada há muito, é impensável e inadmissível que se continue a permitir que as pessoas gastem mais dinheiro que aquele que têm e se cubram de dívidas que, em muitos casos, nunca irão conseguir saldar. Esse foi um dos graves problemas da crise de 2008, e voltamos ao mesmo com esta atitude irrefletida de consumidores que querem gastar mais que o que possuem, e de bancos e entidades que procuram lucrar ao máximo, sabendo que, como no passado, se algo de errado acontecer, o próprio contribuinte que já está endividado até ao pescoço ainda terá de dar do seu dinheiro dos impostos para “salvar” estas instituições. Isto é um ciclo vicioso que tem de acabar.

Na carta apostólica, o Papa Francisco escreve que «do presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade», até porque Jesus, «nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial».

Que neste Advento saibamos perceber como conduzir a nossa vida sem nos deixarmos enrolar em excessos que só nos prejudicarão mais tarde.