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O dom da tolerância
27.01.2020
A sociedade contemporânea obriga-nos à tolerância. Mas alguns tipos de tolerância dentro da família, quer nas relações do casal quer da família alargada, são como águas paradas e que mais cedo ou mais tarde cheiram mal, apesar das boas intenções, como às vezes se ouve: “Ele é assim, o que é que eu posso fazer? O melhor é tolerá-lo, isto é, suportá-lo.”

Conto-vos uma situação concreta. Um homem, na casa dos quarenta, casa-se com uma rapariga ucraniana, que obviamente tem hábitos e formas de estar diferentes das suas. E a sogra dela, que mora no mesmo prédio, diz tolerá-la bem apesar da sua diversidade. Um dia, a sogra é convidada para jantar na casa deles e aceita provar os pratos típicos cozinhados pela nora, mas faz notar que para ela são um pouco indigestos e não percebe como é que o pobre filho apaixonado é capaz de digerir aquilo todos os dias!? E quando nasceu o menino, aí é que a tolerância estalou: «Esta criança deve ser educada da mesma forma que o meu filho foi.»

A linguagem egocêntrica nem sempre produz uma bem-intencionada tolerância e está bem expressa também em frases como: “se fosses como eu tudo seria mais fácil”. Isto é, a minha diversidade é um direito, mas a tua é algo que tenho de aprender a tolerar, ou a suportar, às vezes até com algum heroísmo. Por isso, é fundamental sair da linguagem egocêntrica e acolher a diversidade como fonte de bem-estar nas relações familiares.

A tolerância dentro da família é um dom que o outro me faz da minha diferença. Estou autorizado a não assemelhar o outro a mim, suavizando as diferenças, e não estou autorizado a deixar-me assemelhar pelo outro porque me poderá esmagar. A propósito, conto-vos uma história de um rapaz de dez anos que deu um belíssimo testemunho de tolerância. É filho de pais divorciados, passa os fins de semana ora com um ora com outro, e gosta muito de andar de bicicleta. Quando vai dar um passeio de bicicleta com a mãe, ela quer que ele vá à frente para que o veja e o proteja. Quando vai com o pai, deve ir atrás dele porque deve segui-lo e assim fica protegido. Diz-lhe a avó com um ar muito desolado: «Meu querido menino, que confusão. E como é que tu fazes?» «Simplesmente vou à frente quando estou com a mãe, e vou atrás quando estou com o pai!», respondeu o rapaz com o ar mais tranquilo e seguro. Tinha aprendido duas formas diferentes de ser protegido. E esta é a verdadeira tolerância nas relações familiares: aceitar o outro tal como é.

Mas a tolerância como dom da minha diferença do outro remete-nos para um dom ainda mais elevado: a comunhão. Quando se chega a este ponto, as diferenças são apenas momentos de ternura, como estas palavras expressas na celebração das bodas de ouro de um matrimónio. «No princípio, o que mais nos aborrecia eram as nossas discussões por causa das visitas ao domingo à sua família ou à minha, ou por causa das férias, se íamos para a praia ou para o campo. Quando no final o que mais alegria nos dava era estarmos juntos.» A unidade é a comunhão das diferenças quando atingem o ponto mais alto.
«Na inaudita riqueza da criação, como na diversidade humana, Deus preparou-nos para acolhermos o que é diferente. Este acolhimento faz parte do amor como elemento irrenunciável, sobretudo quando tal amor se exprime e se vive à imagem daquele de onde tudo provém.» Quem o disse foi o prior dos mártires de Tibhirine, Christian de Chergé, numa homilia, e continua: «O Espírito cria constantemente a diferença. E parece comprazer-se com isso […]. A sua alegria será sempre estabelecer a comunhão e restabelecer a semelhança, jogando com as diferenças.»