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O Estado de todos nós
26.09.2016
No mês de setembro, o Papa Francisco pede aos fiéis, como intenção universal, «que cada um contribua para o bem comum e para a edificação de uma sociedade que ponha no seu centro a pessoa humana». Podia assumir-se como intenção para o ano pastoral e como conduta de vida, estando implícito o propósito de toda a obra apostólica. Cabe a quem é crente rezar para que todos sintam esta necessidade como urgente e basilar na construção da civilização alicerçada, mais do que em acordos ou ideais políticos, na entreajuda, na solidariedade e no respeito por todos.

Colocando ao centro a pessoa humana, como exprime a intenção do Papa, todos têm o seu espaço de convivência e de ação, podendo e devendo atuar para o bem comum, como refere a Gaudium et spes, nº 21: «A Igreja proclama sinceramente que todos os homens, crentes e não-crentes, devem contribuir para a reta construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é possível sem um prudente e sincero diálogo.»

Num Estado onde a grande maioria se considera católica, como o nosso, foi criada uma Constituição laica, não ateia, cujos princípios fundamentais respeitam a pessoa nos seus direitos, liberdades e garantias, e isso inclui a sua história humana, cultural, religiosa e as fontes de sabedoria de cada um, que não colidam com esses princípios em consonância com os Direitos do Homem. É por isso totalmente descabido dizer que no espaço público, por ser do Estado, não há lugar à dimensão espiritual e religiosa, tanto na sua expressividade celebrativa ou simbólica como na formação integral da pessoa. Justifica-se esse preconceito com o argumento estafado de que o que é público é «pago com os impostos de todos nós», quando à arte, ao desporto, à cultura regional e local, etc., são concedidos vastos incentivos. Naturalmente que “todos nós” são, de sobremaneira, os mais de nove milhões de crentes, que suportam o grosso das iniciativas e necessidades do Estado de que todos beneficiam.

A propósito da questão da fé e da sua expressão, passada a espuma dos dias de emoções geradas pela intensidade de competições desportivas – um espaço recheado de “fés” e crendices várias –, permanece a forma dos que sabem viver esses momentos alicerçados numa fé firme e simples, que se impõe pela convicção contagiante que cria espírito de união e de sacrifício, respeitadora da condição de cada um e que vai além dos resultados e sucessos materiais. Os cristãos sabem que o efeito imediato da obra de Jesus foi a sua crucifixão, mas o resultado final retumbou na gloriosa vitória sobre o pecado e a morte, que só se vislumbra com os olhos da fé.

É verdade que o sucesso humano ajuda na afirmação imediata das próprias convicções, mas quando a fé se afirma pela postura humilde, confiante e ponderada, valorizando e capitalizando tudo a partir do contributo individual de cada um, onde não há proscritos nem “patinhos feios”, é-se respeitado e admirado por todos, independentemente até dos resultados, do cargo e dos espaços que se ocupam. É um convite aos crentes a afirmarem as suas convicções assumindo uma fé madura, em particular nos momentos em que o seu testemunho é necessário para a salvaguarda do bem maior da pessoa e da sua dignidade, em conformidade com o Evangelho, sem beatismos balofos, mas contrariando resignações cómodas e pacifismos estéreis, como nos vincou, pelo seu exemplo, madre Teresa de Calcutá, agora elevada à suprema glorificação, pela Igreja.

Perante o estado das coisas, há que seguir o sábio ensinamento em que Jesus convida os discípulos a ser «prudentes como as serpentes e simples como as pombas» (Mt 10,16).