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O estilo cristão de amar na família
09.05.2016
Alguém disse um dia que a educação de um filho começa ainda antes de o seu pai e a sua mãe terem nascido. No contexto das neurociências e da epigenética, hoje sabemos coisas parecidas, como a influência transgeracional do ambiente precoce em que o ser humano se desenvolveu, no sentido de que as marcas deixadas passam para as gerações futuras, ainda que possam não se manifestar de forma expressa em cada indivíduo. 



A construção de uma família onde vive a alegria do amor também se inicia muito precocemente, no estilo de vida familiar que proporcionou a cada um a experiência de se sentir amado. A Família não é um ideal inatingível, para o qual não podemos olhar de frente sem desanimarmos, perante as nossas limitações de frágeis seres humanos; mas também não é um mito, como o da imagem da «família perfeita» captada nas selfies ou apresentada na publicidade consumista, e que, na realidade, não existe. À chamada geração Zapping e dos «nativos digitais», custa-lhe esperar pacientemente, treinar, evoluir. Ao menino que, irritado, atira com os lápis à parede, porque ainda não consegue desenhar uma casa igual à esboçada pela sua mãe arquiteta, que parece tão fácil de alcançar com um simples touch no ecrã do tablet, haverá que ensinar a recomeçar e a crescer, aceitando a lei humana do crescimento gradual. 

Vem isto a propósito da Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Santo Padre Francisco Amoris Laetitia, carta saída do seu coração de Pai e Pastor, centrada afetuosamente nas nossas fragilidades, mas não deixando de sublinhar a norma, distinguindo-a da sua realização na existência humana, em cada caso concreto. 

Comoveram-me as belíssimas páginas sobre o amor vivido no quotidiano de um casal, reconhecendo-me na impaciência do desejo de uma relação idílica e perfeita, ou na inconveniência de quem não sabe servir e esperar. Quantos de nós ouvimos proclamar o chamado Hino à Caridade, escrito por São Paulo, como pauta para escrevermos a nossa vida a dois, e não a soubemos escutar. Mas agora o Papa ajuda-nos a relê-la e a formar a nossa consciência a essa luz, a crescer numa vida em comum de «caráter totalizante» -  a vida toda e para toda a vida - na «alegria de um amor contemplativo». As nossas queixas ressoam nas suas palavras, que nos consolam porque chega ao ponto de as transcrever: «o meu marido não me olha, para ele, parece que sou invisível»; ou «não me ouve, está a pensar noutra coisa, dá-me respostas rápidas para encerrar a conversa». 

A partir da essência do matrimónio radicada na própria natureza da pessoa humana e do seu caráter social, o Papa Francisco descobre aos jovens a beleza e finalidade da opção pelo matrimónio como concretização e expressão desse amor, que será de contínuo crescimento. Recupera ainda páginas belíssimas de São João Paulo II e de Bento XVI sobre o amor sexual, para reafirmar a dimensão erótica do amor, isto é, o erotismo como manifestação especificamente humana da sexualidade, e, na vertente oposta, para condenar com palavras do Beato Paulo VI os atos sexuais impostos ao outro cônjuge. 

O Papa Francisco lembra a chamada de São João Paulo II à «gradualidade» no exercício prudencial dos atos livres, em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar ou praticar plenamente as exigências objetivas da norma, para sublinhar que não se trata de uma «gradualidade da lei», mas da «lei da gradualidade» no avançar de cada ser humano na integração na sua vida pessoal e social dos dons de Deus e das exigências do Seu Amor definitivo e absoluto. 

Neste ponto enfrentamos uma questão que, para nós, os juristas, é muito habitual: uma coisa é a norma, na sua crua generalidade e abstração; outra coisa é a variedade inumerável das situações concretas das pessoas em que terá lugar a realização da norma. 

Na dinâmica existencial, a vida conjugal e familiar enfrenta obviamente momentos de desorientação, de conflito e de crise. Nessas situações, as exigências do amor e da justiça são percebidas como um peso insuportável, e, a curto prazo, pode parecer mais atraente optar por uma via diversa, começar um novo projeto, com pessoas diferentes, projeto esse que se revela muitas vezes idealizado e inatingível, fonte de novos sofrimentos para si e para os outros. Mas, na verdade, a opção por rebaixar e empequenecer aquelas exigências, porventura até por as eliminar, não corresponde ao bem das pessoas na relação conjugal e familiar. Daí a importância do discernimento adequado, a partir de uma consciência formada à luz das exigências evangélicas, no amor à Igreja e à sua doutrina e na busca sincera da vontade de Deus.