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Vida Cristã
O Exame de Consciência é uma lista de pecados?
02.03.2016
Há na Gaudium et spes, constituição do Concílio Vaticano II que reflete sobre as relações da Igreja com o Mundo, dois artigos que devem ser lidos em conjunto: o art.º 16, que fala da dignidade da consciência humana, e o art.º 17, que fala da liberdade. De facto, o mau uso da liberdade pode dar origem a comportamentos que pesam na consciência.


«No mais profundo da sua consciência, o ser humano descobre uma lei que não é feita por ele, mas a que deve atender e cuja voz ressoa no mais íntimo do seu coração.» (GS, n.º 16)
A liberdade consiste na capacidade de escolher entre duas coisas, devendo sempre optar-se pelo melhor. A liberdade é então, no dizer da Gaudium et spes, «o sinal privilegiado da imagem de Deus no coração do homem» (cf. GS, n.º 17).
Uma consciência reta pede escolhas que sirvam o bem comum, no respeito profundo por todos os seres humanos, pelas coisas e, sobretudo, no respeito para com Deus.

Sendo livre, o ser humano pode recusar o ditame da consciência, deixando o bem para praticar mesmo o mal. Justifica-se, então, que avalie os seus próprios atos para verificar se praticou ou não o bem, tendo em atenção a comunidade humana em que se encontra. Nesta avaliação, afirma a sua responsabilidade moral, alicerçada na inteligência, na vontade e na sensibilidade que o aproxima ou o afasta dos outros. A partir desta avaliação, procura corrigir os erros, mudar as atitudes, reparar os prejuízos, abrir as portas à reconciliação, viver em cordialidade. Para esta mudança radical, exige-se a atenção cuidada às atitudes que é preciso alterar. Daqui nasce a necessidade de um exame de consciência, de uma análise calma de como se viveu, seguindo o que a consciência lhe pede. É este o exame de consciência que se torna necessário. Ele consiste apenas na avaliação dos gestos, das palavras e das atitudes em ordem à renovação de toda a vida no trato das coisas, na relação com as pessoas e, até, no encontro com Deus. Esta avaliação, vivida ao nível pessoal, para melhorar os próprios comportamentos, é uma coisa normal. Nas escolas, nas empresas, na própria comunidade cristã, a avaliação é uma exigência para corrigir deficiências e valorizar tudo o que vai correndo bem. A avaliação, na vida pessoal, chama-se, então, exame de consciência.
 
Depois de compreender a importância da liberdade humana e a certeza das orientações da consciência que nem sempre se seguem, compreende-se a necessidade do exame de consciência.

- Não é uma lista de pecados, enumerados um a um, com inquérito rigoroso a tudo o que se pode fazer ou que se pode omitir por negligência ou interesse pessoal;
- Não é um conjunto exaustivo de perguntas sobretudo no que se pode fazer de errado, no âmbito dos mandamentos da Lei de Deus ou das virtudes cristãs;
- Não é um interrogatório torturante sobre coisas que nem sequer se podiam imaginar. Pensava-se ser assim a forma mais fácil de nada esquecer;
- Também não é uma simples preparação para o sacramento da Reconciliação. De facto, o cristão tem o dever de, em cada anoitecer avaliar o como serviu a Deus e amou os irmãos. Este é um exame diário;
- Não é, portanto, uma check list onde estão todas as probabilidades de pecado. É curioso que no princípio do séc. xx ainda existiam uns confessionários com “listas de pecados” para orientar as perguntas do sacerdote confessor. 

Atualmente, a Igreja concede aos cristãos a avaliação da sua maneira de viver como cristão e, a partir daí, cada um avalia positiva e negativamente a sua vida, e prepara o sacramento da Reconciliação, que «não é uma câmara de tortura, mas um lugar da ternura e da misericórdia de Deus» (Evangelii gaudium, n.º 44).
A avaliação do próprio viver faz parte da vida humana. Sem ela não é possível corrigir o que está errado e valorizar o que está certo. É assim também na vida espiritual. Há campos da vida de cada um que merecem a sua avaliação: a relação familiar, a atividade profissional, a vida social, a intervenção política, a administração económica, tudo isto a viver com critérios cristãos. Há valores que não podem ficar comprometidos. Exige-se a prática da verdade, da justiça, da liberdade, do amor e da paz. Há ainda a relação com Deus e a participação na comunidade cristã de que se faz parte: a oração frequente, o encontro dominical, a colaboração no apoio aos mais pobres.
 
O exame de consciência pede a simplicidade de quem se sabe pecador, de quem aceita a misericórdia e a ternura de Deus e de quem recorre ao perdão que outros pecadores, os sacerdotes, podem dar, porque receberam o mandato do Senhor que lhes permite dizer: «Vai em paz, os teus pecados estão perdoados.»
 
Texto: Monsenhor Feytor Pinto
Foto: freeimages.com/Leandro Cavinatto
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