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O futuro da FAMÍLIA CRISTÃ
05.12.2022
Existem revistas há cerca de cem anos. As primeiras, ainda rudimentares, surgiram nos finais do século xvii, graças ao espantoso avanço tecnológico da imprensa, introduzida na Europa duzentos anos antes. No entanto, foram precisos outros avanços e mais duzentos anos para que as publicações a que se chamou «revistas de grande circulação» surgissem no início do século passado. Agora, devido a outros avanços tecnológicos, elas estão a morrer nos nossos dias. O progresso assim o dita. As revistas limitam-se a seguir o caminho dos gira-discos, máquinas de escrever e caleches a cavalo, e até se pode dizer que duraram muito mais que os telexes, cassetes e canetas de tinta permanente. Embora esta evolução possa entristecer alguns, ela é um sinal positivo e deve ser acolhida como um avanço.

As revistas, realmente, não desaparecem; limitam-se a dar lugar a outras formas de comunicação mais poderosas. Porque, afinal, as razões da sua existência continuam. Os tempos mudam, mas as pessoas permanecem. O progresso, que transforma o mundo em crescente rapidez, não altera em nada os seres humanos, que dentro de si estão iguais ao que sempre foram. A única verdadeira transformação que existiu na natureza humana desde as cavernas é que o Verbo encarnou e habitou entre nós.

Por isso, embora a FAMÍLIA CRISTÃ pareça ter chegado ao fim, tem ainda um grande futuro. Não podemos esquecer que as famílias cristãs não acabaram, nem a sua necessidade de evangelização. O propósito prossegue, a urgência é a mesma; só se altera o método. E o novo meio que a FAMÍLIA CRISTÃ usará para chegar às suas destinatárias, como e onde quer que seja, será inevitavelmente muito melhor e mais eficaz que o anterior.

Este fenómeno de renovação na continuidade está a ser sentido em todas as áreas sociais num tempo de grande transformação, em especial na imprensa. E ninguém viveu mais e conhece há mais tempo essa evolução que a Igreja. Ao longo dos seus dois milénios de história, em todos os recantos do planeta, os discípulos de Jesus tiveram que encontrar sucessivamente novas formas de cumprir a missão que lhes tinha sido confiada pelo Senhor: «Ide, pois, e fazei discípulos meus de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo quanto vos mandei.» (Mt 28,19-20) São Paulo pregava nas sinagogas e escrevia epístolas; o Beato Alberione criou revistas; o Papa Francisco está presente no Twitter e Facebook. A mensagem é a mesma, os problemas semelhantes, só os tempos e os meios de comunicação se modificam.

Qual é a mensagem? Sabemos que é «escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Col 1,23). Na verdade, inclui coisas chocantes como: «Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém te quiser processar para tirar-te a túnica, deixa-lhe também o manto» (Mt 5,39-40) ou «Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me» (Lc 9, 23). Ora nessa doutrina insólita, poucos elementos são mais espantosos que a família cristã.

Precisamente por ser o local onde é mais preciso dar a outra face, deixar o manto e tomar a cruz cada dia.
Nunca podemos esquecer que a única verdadeira revolução sexual da história humana é a Primeira Epístola aos Coríntios. Foi ela que, na sociedade antiga, libertina e promíscua, anunciou a pureza de costumes, a temperança e o domínio do espírito sobre as tendências da carne, criando a família cristã. Esta maravilha elevou e refrescou a humanidade, mas, tal como a civilização, a democracia e a paz, sempre esteve sob ameaça, precisando de ser renovada em cada geração. Na nossa assistimos a uma verdadeira contrarrevolução sexual, que furiosamente ataca a família cristã.

A evolução é fácil de descrever. Os revolucionários jacobinos de setecentos tinham uma proposta política nova que, apesar de ter transformado a sociedade de então, acabou por falhar, afogada no sangue da guilhotina. Os seus herdeiros, revolucionários marxistas de novecentos, trouxeram uma proposta económica nova que, apesar de ter transformado o mercado de então, acabou por falhar, afogada na miséria dos gulags soviéticos. Ambos os movimentos trouxeram avanços decisivos, como a igualdade perante a lei ou a necessidade de sindicatos e segurança social, mas o seu radicalismo, demolindo a realidade comunitária em nome de sistemas utópicos, gerou um enorme sofrimento.

Um elemento inesperado é que os contestatários dos últimos três séculos, além de propósitos político-económicos, traziam também uma paradoxal raiva contra a Igreja. O facto é inexplicável, pois existiam evidentes semelhanças entre eles e os cristãos, se não nos métodos, pelo menos nos fins, como igualdade e justiça social. Apesar disso, debaixo de propostas e doutrinas sofisticadas, existia sempre um ódio indisfarçável contra os discípulos de Cristo.

Nos finais do século xx, novos desafios eliminaram as bandeiras anteriores. Assim, grande quantidade de revolucionários desempregados procuravam um novo campo de ação. A solução foi perfilarem-se abertamente contra a família cristã. Hoje vemos velhas forças vanguardistas, políticas e económicas que, quase deixando de falar em operários e instituições, capital e luta de classes, se dedicam ao sexo, aborto, droga, homossexualidade, eutanásia e prostituição. Lutam contra o matrimónio, a vida do embrião ou dos moribundos com a mesma fúria que usaram contra a aristocracia ou o capitalismo.

O movimento mantém os métodos e argumentos. Usam a mesma retórica das velhas lutas, mas com novos alvos. Fingem que as mulheres são uma minoria, apesar de serem a maioria; tratam os homossexuais como se fossem proletários; consideram a prostituição uma empresa; lidam com a droga como uma doença. E usam o mesmo truque de sempre, apresentando como científico aquilo que não passa da sua opinião.

A segunda característica, esta inesperada, é a unidade com velhos inimigos. Nos temas da vida, esquerdistas e liberais, comunistas e sociais-democratas surgem de braço dado no desmantelamento das leis de proteção da família. Isto gerou o insólito desaparecimento das velhas linhas de clivagem Direita-Esquerda, confundindo os posicionamentos institucionais.
Finalmente, e mais surpreendente, com esta contrarrevolução sexual os velhos progressistas transformam-se em reacionários. Ao atacar a família cristã, considerada a última instituição opressora, os defensores da modernidade recomendam o regresso à Antiguidade e Idade da Pedra. Como no amor não existem avanços tecnológicos, o modelo destes alegados “progressistas” é simplesmente a boçalidade venérea dos selvagens e a irresponsabilidade perante os impulsos sensuais. A última moda sofisticada não passa de um retorno ao passado longínquo. Em nome da liberdade e autonomia, apregoam como modernos os velhos hábitos trogloditas, bárbaros ou pagãos.

Existem muitas famílias cristãs alarmadas com esta situação; e o fim da FAMÍLIA CRISTÃ só aumenta esse medo. Mas não há razão para tal, desde que se entenda bem a natureza daquilo que defendem.

Porque a família cristã é humanamente impossível. Nenhum casal pode pretender criar, apenas com as suas forças e capacidades, um ideal tão sublime. A família cristã é sempre um dom de Deus, como a Eucaristia ou a Virgem Santíssima. Nunca é algo que se faz; é sempre algo que se pede à Divina Misericórdia. Por isso é que na origem de qualquer família cristã tem de estar um sacramento.

Esta é a razão da contrarrevolução. Assim que deixamos de rezar, a família cristã desfalece. Isso é verdade em cada lar como é verdade ao nível da sociedade. Confiar nas nossas forças, mesmo que continuemos a dizer-nos cristãos, apenas enche o terreno de pedras e espinhos, impedindo a semente de cair em boa terra. Esta é a mensagem que as famílias cristãs precisam sempre que lhes lembrem. Por isso é que continuaremos a precisar da FAMÍLIA CRISTÃ, qualquer que seja o seu novo formato.