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«O Mal tem o seu nome, e, neste caso, até tem rostos»
23.02.2019
D. Filomeno Dias, presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), é um dos participantes no encontro que decorre no Vaticano sobre a Proteção de Menores na Igreja. Em entrevista à Família Cristã, fala sobre a experiência que tem sido partilhar estes dias, e sobre o quão «doloroso» foi ter contacto com vítimas de abusos sexuais por parte de membros do clero.

 
Como tem sido esta experiência de encontro entre presidentes das conferências episcopais, com o Papa, sobre um assunto tão delicado e que as comunidades levam tão a peito?
É uma experiência rica, única, de sinodalidade, do que é a comum responsabilidade pela vida da própria Igreja e pela vida daqueles que na Igreja estão sob a nossa cura pastoral. Estamos todos juntos, numa atitude responsável, consciente, com serenidade psicológica, com frescura espiritual, sinal de que a Igreja não tem motivos para se esconder, sofre com estas situações, com a dor das pessoas que ficaram magoadas, amachucadas e destruídas na sua dignidade e na sua beleza humana, mas ao mesmo tempo que não fica apenas em palavras, quer agir e reagir de forma muito positiva, de modo coeso, para que estes abusos não se repitam no futuro e não firam a beleza da humanidade e a beleza do ministério que é a própria Igreja.
 
Está como representante da CEAST. Traz alguma preocupação específica de Angola para partilhar com os outros?
O que partilhámos é uma nota negativa. Reagimos muito lentamente, não demos a devida atenção a determinadas situações, reagimos quando o comboio já ia para além da estação, e isto não é bom para a Igreja. A Igreja tem de ser uma narradora credível da História, e a história conta tudo, mesmo aquilo que nos custa a engolir. Mas devemos assumir as coisas de frente.
 
Deste encontro ficou evidente que têm saído orientações para o futuro, e para a responsabilização dos bispos, para que não haja negligência, para que não haja falta de respeito com os protocolos estabelecidos. Leva essa preocupação?
É um dos temas que tem sido muito aflorado. Falando com as pessoas nos intervalos, ouvindo as opiniões durante os encontros, todos pensamos que não basta um encontro. É necessário que deste encontro saiam deliberações que possam ajudar a Igreja a agir, em cada lugar, de modo unânime, no respeito pelas leis civis de cada país e no respeito pela nossa lei comum, que é o Evangelho, consignado às normas canónicas. De tal modo que haja responsabilidade dos abusadores, daqueles que estão à frente das comunidades cristãs, a começar pelos bispos e outros superiores maiores, para que isto não se repita e as pessoas que tenham esse comportamento sejam responsabilizadas e afastadas destas funções de maior ou menor responsabilidade dentro da Igreja porque, no centro de tudo, está a pessoa com a sua dignidade.
 
Até porque as vítimas continuam, algumas, a acreditar na Igreja...
Sobretudo essas pessoas que acreditam na Igreja, nos homens e nas mulheres desta Igreja. Uma Igreja que se propõe no mundo como sendo a promotora dos valores éticos e morais que devem embelezar a própria humanidade. É uma mancha dolorosa, mas temos também na Igreja muitos sinais de autenticidade, fecundidade, vidas verdadeiramente entregues com verdade, com sacrifício. Mas isso não nos leva a dizer que o Mal não é Mal. O Mal tem o seu nome, e neste caso até tem rostos, e rostos muito tristes.
 
Teve contacto com vítimas antes, e ouviu testemunhos durante o encontro. Como é que olha para isto, enquanto bispo e sacerdote?
O que mais me admira é que a maioria das pessoas com quem estive em contacto eram pessoas chocadas, magoadas, mas cheias de esperança. Que deram o rosto para que este cancro não se propague e não se desenvolva na vida da Igreja. Pessoas que deram o rosto para que não existam mais vítimas, para que a Igreja assuma as suas próprias responsabilidades. Deram o rosto para que o Cristianismo recupere a sua beleza.

 
Denunciarem os casos e falarem convosco ajuda as vítimas?
Esse é um aspeto muito importante. Pessoas feridas, alguns machucados por anos de sofrimento, muita turbulência e angústia, que viram aqui um momento de libertação, não de reparação, porque a mágoa acompanha-as por muito tempo, tem a duração da nossa existência, da nossa memória, mas gostariam que muitos outros não tivessem essa experiência, e que a Igreja vivesse na autenticidade. Foram encontros dolorosos para nós, creio que para eles também, mas de muito respeito, de muita confiança e de muita esperança. Por isso nós não podemos defraudar a esperança e a atitude positiva dessas pessoas que, ainda, confiam em Deus.

A reportagem em Roma no encontro sobre Proteção de Menores na Igreja é realizada em parceria para a Família Cristã, Agência Ecclesia, Flor de Lis, Jornal Voz da Verdade, Rádio Renascença e SIC.

 
Entrevista: Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna
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