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O mito da autorrealização
22.07.2019
Dois “jovens”, na casa dos quarenta, finalmente descobrem o amor das suas vidas. O Hugo, um tipo solitário, descobriu Mariza no Facebook a 300 metros da sua casa. Ele é solicitador, tem um emprego estável, mas trabalha só para o ordenado, porque o resto do seu tempo é dedicado ao futebol de salão, o verdadeiro interesse da sua vida. Ela tem também um emprego estável, é o braço-direito do patrão numa empresa ligada às telecomunicações, onde aprendeu a resolver muitos problemas e por isso tornou-se indispensável, trabalhando horas a fio, mas com um supersalário; há pouco começou um hobby: danças de salão.

Finalmente chegou o amor! Mas poucos meses depois descobrem que nenhum dos dois está disposto a mudar-se para o apartamento do outro. O dele porque está sempre desarrumado e cheio de tralha, não tem cortinados e a limpeza é só de tempos a tempos. O dela é um apartamento lindo, sempre limpo, decorado com o melhor; ali investiu muito dinheiro e tempo. Na casa dela, o Hugo seria como um elefante numa sala de porcelanas. Na casa dele, a Mariza seria como um terramoto devastador. Por isso, nenhum dos dois está disposto a ceder.

Cada um procura envolver o outro na sua vida: ele gosta que ela o vá ver aos torneios de futebol de salão, de a levar a jantar com a equipa e que os colegas possam admirar a elegância e beleza da sua namorada; ela espera que ele aceite os seus atrasos por causa do trabalho, que compreenda que tem que sacrificar alguns fins de semana também por causa do trabalho e gosta que ele vá aos concursos de dança de salão. Decidem, então, encontrar-se nos fins de semana livres, alternadamente na casa de cada um, dividindo também alternadamente as despesas, e cada um espera que o outro «perceba as minhas exigências»: ela não pode abdicar do trabalho, pois investiu muito para chegar onde chegou, sobretudo agora que dizem que quem manda é ela; ele não pode abandonar a sua carreira desportiva, onde investiu todas as suas energias, especialmente neste momento em que o clube está a fazer grandes progressos.

Que dizer desta história tão triste quanto real? Que os dois não se amam o suficiente, é muito pouco. Que os dois não são feitos um para o outro, é um juízo apressado. Que o Hugo e a Mariza sofrem do mito dos quarentões de hoje, o mito da autorrealização, talvez seja o mais acertado!

«Pensa em ti mesmo», foi isto que o sistema social, educativo, cultural e psicológico ensinou à geração dos quarenta de hoje. Onde o “nós” é uma escolha secundária porque em primeiro lugar está sempre o “eu”. «Estuda, sobressai, não fiques para trás, mostra-te, pensa em ti» é a mentalidade que leva ao estilo de vida subjacente em frases como: «eu pertenço-me», diz o feminismo exasperado; «o útero é meu», justifica a recusa de uma gravidez; «o meu filho fica comigo», dizem os pais em fase de separação, e assim por diante: «as minhas exigências, os meus direitos, os meus espaços, os meus desejos».

«Pensa em ti mesmo e serás feliz» é uma boa definição para o mito da autorrealização, palavra que se tornou sagrada, intocável e pacientemente ensinada pelos pais, pela escola e pela publicidade.

O mito da autorrealização leva-nos inevitavelmente à solidão, porque se nos centramos só em nós mesmos barricamo-nos apenas no “eu” e não deixamos que o outro seja um “tu” e depois um “nós” em plenitude. Pensemos na história que contei, como será o futuro daqueles “namorados”? Nas suas vidas irá sobrar talvez um fim de semana alternado para se dedicarem um ao outro, com todos os “mas” e “ses” que o peso da autorrealização comporta. Terão encontrado amor, mas estarão dispostos a cultivá-lo, a fazê-lo crescer?

Se a autorrealização se torna o único critério na vida, deixa de haver espaço para o amor, para a família, para a felicidade.